Fim de festa no governo Bayrou: imprensa francesa expõe privilégios e desgaste político
A imprensa francesa mergulha fundo na crise que abala o governo de François Bayrou. Em meio à expectativa pelo voto de confiança marcado para o dia 8 de setembro, os jornais Libération e Le Figaro desta sexta-feira (29) publicam análises contundentes sobre os bastidores do poder e os privilégios que cercam os políticos franceses.
A imprensa francesa mergulha fundo na crise que abala o governo de François Bayrou. Em meio à expectativa pelo voto de confiança marcado para o dia 8 de setembro, os jornais Libération e Le Figaro desta sexta-feira (29) publicam análises contundentes sobre os bastidores do poder e os privilégios que cercam os políticos franceses.
O Le Figaro traz uma reportagem detalhada sobre os chamados "benefícios indevidos" que podem ser cortados caso avance a nova ofensiva liderada por Bayrou. Segundo o diário, o primeiro-ministro lança essa iniciativa em meio a uma crise que ameaça destituir seu governo, caso não obtenha apoio parlamentar.
Entre os privilégios na mira estão carros oficiais, salários elevados, hospedagens de luxo, refeições em restaurantes estrelados e até gastos pessoais pagos com dinheiro público. O jornal cita casos concretos, como o de um prefeito de uma cidade com apenas 12 mil habitantes que usou verbas municipais para bancar champanhe de marca e estadias em hotéis com spa.
A medida, segundo o Le Figaro, é inédita na história da Quinta República Francesa e busca restaurar a confiança da população, num momento em que o projeto de orçamento para 2026 é duramente criticado por ser socialmente injusto.
Bastidores de um governo em crise
Já o Libération revela os bastidores de um governo em crise. Após o anúncio do voto de confiança, os 35 ministros de Bayrou vivem dias de tensão e incerteza. O entusiasmo inicial teria durado pouco. Segundo o jornal, a equipe percebeu rapidamente que estava diante de um "naufrágio político", e que o próprio primeiro-ministro parece cavar cada vez mais fundo o buraco que ameaça afundar seu gabinete.
Mesmo assim, os ministérios seguem trabalhando em reformas importantes — como o novo estatuto da Córsega, medidas contra o alto custo de vida nos territórios ultramarinos, e a reforma penal. O Ministério da Economia, por exemplo, precisa preparar o orçamento de 2026 nos prazos constitucionais, mesmo com forte oposição.
"Somos obrigados a continuar, para que seja conosco ou com outros depois de nós, haja a possibilidade de apresentar um projeto de lei orçamentária até 31 de dezembro. Essa é a prioridade, independentemente do cenário", afirma uma fonte do Ministério das Contas Públicas ao Libération.
Na tentativa de se manterem relevantes, os ministros intensificam a defesa da austeridade fiscal, segundo o jornal francês. Bruno Retailleau, ministro do Interior, declarou que o país está "à beira do abismo", enquanto Agnès Pannier-Runacher, ministra da Transição Ecológica, sugeriu que é preciso "aumentar em cerca de € 40 bilhões" em 2026. A pergunta feita por Bayrou sobre a viabilidade política e econômica do orçamento é considerada "uma baita pergunta", nas palavras de um ministro que, paradoxalmente, gostaria de vê-lo fora do cenário, contextualiza o Libé.
"Vamos fazer malabarismos nos próximos dez dias para convencer, mas, na verdade, todo mundo quer saber o que vai acontecer na manhã de 9 de setembro", confidenciou ao veículo um conselheiro do Executivo.
Aliados de Macron temem um cenário sombrio: bloqueio político na Assembleia e uma possível onda de protestos com o lema "Bloqueemos tudo" a partir do dia 10. Sem um "fusível" para descarte imediato em Matignon, como é chamada a sede do governo francês em Paris, liderado pelo premiê, a tensão pode escalar diretamente ao Palácio do Eliseu, sede da Presidência francesa, lembra o Libération.