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Falha conhecida pode estar na origem de ciberataque que atingiu supermercados na França

Especialistas em cibersegurança afirmam que a vulnerabilidade explorada no ciberataque que atingiu centenas de supermercados franceses na segunda-feira (12) já era conhecida anteriormente. Enquanto as investigações seguem para identificar os responsáveis, o presidente da Coopérative U, Dominique Schelcher, minimizou nesta terça-feira (13) a extensão dos danos e afirmou que apenas uma minoria das lojas afetadas da rede precisou descartar mercadorias.

13 out 2026 - 06h07
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Resumo
Um ciberataque inédito na França atingiu centenas de supermercados, incluindo redes como Carrefour e Intermarché, ao explorar falhas conhecidas em sistemas conectados de refrigeração da Danfoss. Hackers elevaram as temperaturas de câmaras frigoríficas para até 50°C, forçando o descarte em massa de alimentos perecíveis e gerando prejuízos estimados em milhões de euros. Autoridades francesas abriram investigação para apurar a autoria da invasão, que expôs vulnerabilidades na segurança industrial.

O ataque comprometeu sistemas de refrigeração utilizados por grandes redes como Intermarché, Netto, Carrefour, Monoprix, E.Leclerc e Coopérative U. Segundo Schelcher, cerca de 80 lojas da rede U foram afetadas, mas a maioria conseguiu conter rapidamente os efeitos da invasão graças à atuação de gerentes, técnicos de refrigeração e equipes locais, evitando perdas de estoque e interrupções da cadeia de frio. O valor total dos prejuízos ainda não foi calculado.

Refrigeradores vazios da seção de produtos frescos de um supermercado Intermarché em Névez (oeste), atingido pelo ciberataque ocorrido durante a madrugada de 12 de outubro.
Refrigeradores vazios da seção de produtos frescos de um supermercado Intermarché em Névez (oeste), atingido pelo ciberataque ocorrido durante a madrugada de 12 de outubro.
Foto: AFP - FRED TANNEAU / RFI

Na noite de domingo para segunda-feira (12), hackers assumiram o controle remoto dos sistemas de regulação do frio utilizados por centenas de supermercados franceses. Segundo balanços divulgados pelas empresas, cerca de 300 lojas das redes Intermarché e Netto, 80 supermercados Carrefour, aproximadamente 30 unidades da Monoprix, além de estabelecimentos da Coopérative U e da E.Leclerc, foram afetados pelo incidente, considerado inédito pela sua escala no setor alimentar francês.

Segundo informações divulgadas por empresas afetadas e veículos franceses, os invasores conseguiram acessar remotamente sistemas de controle de temperatura e acionaram ciclos de degelo durante várias horas. Em alguns casos, os equipamentos registraram temperaturas próximas de 50°C no interior de câmaras frigoríficas e refrigeradores. Relatos publicados na França indicam que determinadas instalações chegaram a atingir temperaturas ainda mais elevadas, provocando danos aos próprios equipamentos.

A consequência foi imediata. Como os alimentos ficaram expostos a temperaturas inadequadas por várias horas, supermercados foram obrigados a descartar estoques inteiros de carnes, laticínios, sorvetes, congelados e outros produtos perecíveis por exigência sanitária. Imagens de contêineres repletos de mercadorias inutilizadas circularam nas redes sociais e na imprensa francesa, chamando a atenção dos consumidores para a dimensão do incidente.

Especialistas veem exploração de falha conhecida

Até esta terça-feira (13), nenhum grupo havia assumido a autoria do ataque. 

Em entrevista ao jornal regional Sud Ouest, a especialista em cibersegurança Marta Rybczynska afirmou que a vulnerabilidade explorada pelos invasores já era conhecida e que a operação não necessariamente exigiria recursos técnicos sofisticados. Segundo ela, agentes com conhecimentos relativamente acessíveis poderiam explorar a falha, desde que tivessem acesso aos sistemas vulneráveis.

A avaliação reforça as suspeitas de que os responsáveis tenham se aproveitado de fragilidades já identificadas em equipamentos amplamente utilizados pelo setor varejista. O caso também chama a atenção para os riscos associados à crescente conexão à internet de equipamentos industriais responsáveis por funções críticas, como o armazenamento e a conservação de alimentos.

O jornal Le Monde observa que ataques contra sistemas industriais conectados se tornaram mais frequentes nos últimos anos, sobretudo quando os equipamentos permanecem expostos por longos períodos sem correções de segurança ou atualizações de software.

Milhões de euros em prejuízos

Ao Le Monde, o comerciante Charles Dezon, proprietário de uma unidade do Intermarché em Gradignan, no sudoeste da França, relatou que só descobriu o problema durante a madrugada. Segundo ele, o ataque provavelmente começou por volta das 23h de domingo, mas a situação só foi identificada horas depois, quando um entregador encontrou áreas da loja inundadas.

A temperatura da câmara refrigerada havia subido de forma anormal, acionando automaticamente dispositivos de combate a incêndio. A unidade perdeu cerca de € 21 mil em mercadorias, o equivalente a aproximadamente R$ 133 mil.

Em entrevista à rádio RTL nesta terça-feira, Dominique Schelcher, presidente da Coopérative U, explicou que os prejuízos variam conforme o porte do estabelecimento. Em uma pequena loja, a perda de alimentos pode chegar a algumas dezenas de milhares de euros. Em um hipermercado, segundo ele, os danos podem alcançar entre € 180 mil e € 200 mil. Apesar dessas estimativas, o dirigente afirmou que ainda não é possível calcular o valor total das perdas registradas nacionalmente.

Representantes do setor consideram provável que o montante global alcance vários milhões de euros. Em algumas cidades, supermercados permaneceram fechados durante parte do dia para retirar mercadorias comprometidas e reorganizar os estoques. Redes afetadas também alertaram para dificuldades temporárias de abastecimento até a reposição dos produtos descartados.

Vulnerabilidade em software amplamente utilizado

As investigações apontam para uma falha em sistemas de controle de refrigeração fornecidos pela empresa dinamarquesa Danfoss, presentes em um grande número de supermercados franceses. 

De acordo com a fabricante, muitos dos equipamentos atingidos utilizavam versões antigas do software ou modelos que já não recebiam atualizações de segurança. A empresa informou ainda que havia publicado alertas anteriores recomendando a instalação de correções e a substituição de sistemas considerados ultrapassados. 

As vulnerabilidades permitiriam que invasores assumissem o controle remoto dos programas responsáveis por monitorar e regular a temperatura de câmaras frigoríficas e congeladores. Segundo a imprensa francesa, os hackers não apenas elevaram a temperatura dos equipamentos, como também prolongaram os ciclos de degelo, retardando o disparo de alertas e ampliando os danos sofridos pelos estabelecimentos.

O episódio lança luz sobre uma preocupação crescente entre especialistas: a segurança dos sistemas de automação industrial, frequentemente menos protegidos do que redes corporativas tradicionais, embora desempenhem funções essenciais para cadeias logísticas e de abastecimento.

Governo francês mobiliza autoridades

A Procuradoria de Paris abriu uma investigação sobre o caso e encarregou os serviços especializados no combate ao cibercrime de identificar os responsáveis e dimensionar os prejuízos provocados pelo ataque. A apuração também busca esclarecer a relação entre a invasão e os princípios de incêndio registrados em alguns estabelecimentos. 

O governo francês informou que acionou a Agência Nacional para a Segurança dos Sistemas de Informação (Anssi), principal órgão de defesa cibernética do país. Já o comissário europeu para Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen, condenou o ataque e afirmou que o episódio demonstra a vulnerabilidade de estruturas essenciais para o abastecimento de alimentos. 

Em publicação nas redes sociais, Dominique Schelcher classificou a ofensiva como "inaceitável" e afirmou que atingir equipamentos responsáveis pela conservação de alimentos representa um fato de extrema gravidade. 

Nesta terça-feira (13), as redes afetadas trabalhavam para restabelecer completamente os sistemas e avaliar as perdas efetivas causadas pelo ataque. Embora a situação estivesse sob controle na maioria das lojas, algumas empresas mantinham equipamentos desconectados da internet por precaução, enquanto técnicos realizavam verificações para impedir novas invasões.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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