Encontro de pesquisadores brasileiros em Paris destaca parcerias, desafios e fortalecimento da ciência
Pesquisadores brasileiros se reuniram na Embaixada do Brasil em Paris na sexta-feira (28) para o V° Encontro da Diáspora Científica, evento que destacou a importância das parcerias internacionais, a necessidade de incentivar o retorno de talentos ao Brasil e os desafios enfrentados pela ciência em um cenário global de incertezas.
Ana Carolina Peliz, da RFI
A França é o principal destino de pesquisadores brasileiros no mundo, e o país pretende aumentar em 8.000 a presença de estudantes, cientistas e professores do Brasil em suas universidades no próximo ano.
"É muito importante que haja um encontro entre os brasileiros que estão aqui na França e que nós tenhamos conhecimento sobre esses brasileiros e o que eles estão fazendo", disse à RFI a presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, a Capes, Denise Pires de Carvalho, que participou do evento. "Na verdade, são pontos de contato entre a França e o Brasil, a ciência brasileira e a ciência francesa. Então, a diáspora é muito importante, em primeiro lugar, por isso. E, em segundo lugar, porque são brasileiros muito bem formados, que vieram para a França por motivos diversos, mas o principal deles é essa formação de excelência que o nosso país dá, tanto na graduação quanto na pós-graduação", disse, lembrando que o objetivo é que os pesquisadores voltem para o Brasil.
Para isso, projetos de incentivo ao retorno vêm sendo desenvolvidos, ressalta ela. "Nós queremos que os brasileiros e as brasileiras retornem, mas quem eventualmente ficar, nós não queremos que esse laço seja rompido. Queremos que seja mantido, para que haja mais interação da ciência brasileira com a ciência internacional."
Pires Carvalho também lamentou os ataques que a ciência vem sofrendo nos Estados Unidos. "É difícil para a ciência mundial, porque os Estados Unidos são uma grande potência de produção de conhecimento. Então, ver a diminuição do investimento na ciência americana é ruim para o mundo inteiro. Porque nós não sabemos em que momento, em determinado laboratório, uma descoberta disruptiva pode acontecer. Quanto mais laboratórios trabalhando naquela área, melhor", diz, lembrando que o Brasil está aberto para receber pesquisadores internacionais.
"O nosso país só se beneficiará da chegada de estrangeiros, porque, como eu disse e vou repetir, a ciência depende dessa interação entre os diferentes pesquisadores, porque as ideias surgem através da discussão, e essa discussão — por isso os grupos de pesquisa são tão importantes — é muito mais importante hoje do que antigamente", salienta.
Troca de experiências
Entre os brasileiros que se beneficiaram de uma experiência na França está o matemático e único latino-americano a ganhar a Medalha Fields de matemática, Artur Avila. Para ele, a experiência na França foi definitiva para suas pesquisas.
"Eu acho que o Brasil, nesse momento, faz pesquisa de ponta e já fazia na época em que eu estava. Mas é de fato verdade que, ao vir para cá, eu fui exposto a um universo maior de pesquisa", contou à RFI.
"O que eu posso dizer é que, quando eu saí do Brasil, eu já sabia fazer matemática de uma maneira eficaz. Eu podia ser apreciado aqui, mas eu não tinha sido exposto à diversidade das coisas que têm em Paris", afirma Avila, que é professor da Universidade de Zurique, na Suíça, e pesquisador extraordinário do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Brasil.
Outros pesquisadores que provam que as parcerias internacionais podem levar a inovações importantes para os países envolvidos Amanda Silva Brun, diretora de pesquisa do CNRS da França e da Universidade Paris Cité, e Raimundo Gonçalves de Oliveira Jr., pesquisador e professor da Universidade Paris Cité.
Os trabalhos de Amanda Silva Brun focam em bioterapia e medicina regenerativa. Ela é fundadora de duas start-ups, EverZom e Evora Bioscience, além de coordenar o projeto DIM BioconvS.
Silva Brun explica que as bioterapias, medicamentos produzidos a partir de uma síntese química ou a partir de organismos vivos, são bastante caras, podendo custar, em alguns casos, até € 2 milhões a dose. "Existe um desafio, que é o acesso a essas bioterapias de uma forma global. Então, um problema é exatamente pensar como democratizar essas bioterapias a partir da ciência", diz.
Atualmente, ela tem uma parceria com a Universidade Federal da Bahia e recebe um pesquisador brasileiro em seu laboratório. "Hoje, no Brasil, há vários centros que trabalham com bioterapia à base de células-tronco, mas aqui, na verdade, essa temática já estava bem mais avançada antes, no nível em que está hoje no Brasil. Então, me ajudou a entrar nesse domínio de ponta e poder desenvolver e ganhar um avanço nessa temática", diz a pesquisadora sobre sua experiência internacional.
Redes internacionais
Outro pesquisador que trabalha na França em conjunto com o Brasil é Raimundo Gonçalves de Oliveira Jr. Ele criou, juntamente com o professor Laurent Picot, da Universidade de La Rochelle, na França, e o professor Jackson Guedes, da Universidade do Vale do São Francisco, a Rede Franco-Brasileira de Produtos Naturais.
Hoje, a rede funciona de forma virtual, com objetivo de conectar grupos de pesquisa na área de produtos naturais instalados no Brasil e na França, incluindo cerca de 30 laboratórios de pesquisa, brasileiros e franceses.
"O nosso foco são produtos naturais. Então, é tentar desenvolver soluções, produtos a partir da biodiversidade. E o Brasil é um dos países que têm uma imponência muito grande no cenário internacional em temas de biodiversidade. E o objetivo da rede é tentar unir conhecimentos de diversas disciplinas — da área de química de produtos naturais, farmacologia, toxicologia, tecnologia farmacêutica — para tentar fazer o uso da biodiversidade de forma racional, de forma sustentável, através do envolvimento de grupos de pesquisa da França e do Brasil", explica.
Para ele, a diáspora é importante por dois motivos. "Primeiro, porque ela dá visibilidade ao que a gente faz. Isso permite que a rede consiga chegar a mais gente, que a gente consiga mostrar que, no cenário de cooperação França-Brasil, existe uma rede forte que está ali precisando ser estruturada", diz o pesquisador. "Ela tem outro ponto importante, que é reforçar essa conexão de pessoas que trabalham em torno de uma temática, para que mais projetos como esse possam ser desenvolvidos", completa.
"Além disso, serve de exemplo para outros colegas que eventualmente participam de eventos da diáspora e que podem se inspirar através de nós e montar suas próprias redes de cooperação, cada um na sua área de atuação", diz.