Eleição em Portugal: 2º turno entre socialista e ultradireitista confirma cenário 'polarizado', diz especialista
Quase seis milhões de portugueses foram às urnas no domingo (18) para eleger o novo presidente de Portugal, sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, que tomará posse no próximo dia 9 de março. O socialista António José Seguro e o ultradireitista André Ventura foram os candidatos mais votados e, como nenhum deles conseguiu 50% dos votos, os dois voltarão a se enfrentar no segundo turno, marcado para o dia 8 de fevereiro.
Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa
O primeiro turno das eleições presidenciais em Portugal foi marcado pelo elevado comparecimento dos eleitores às urnas e pela fragmentação do poder em um país dividido pelo voto. Com a ascensão da extrema direita em Portugal, o cenário político se polarizou e, no segundo turno — algo raro no país —, o confronto será entre dois campos políticos opostos.
O socialista António José Seguro saiu na frente e obteve 31,1% dos votos. Em seu discurso de vitória no primeiro turno, Seguro disse que regressou para unir o país. "Jamais serei o presidente de uma parte dos portugueses contra a outra parte", ressaltou. Seguro convidou "todos os humanistas e progressistas" a se juntarem a ele para "derrotar o extremismo" e quem semeia o ódio.
Já o líder do Chega, o ultradireitista André Ventura, que conquistou 23,5% dos votos, afirmou que a direita havia ganhado as eleições porque os candidatos de direita que concorreram no primeiro turno receberam mais votos. "Agora é preciso agregar e juntar esforços para evitar um socialista em Belém", declarou. O Palácio de Belém é a sede da Presidência da República em Lisboa.
Quase um terço dos portugueses deixou para decidir o seu voto na semana final, nas eleições mais disputadas dos últimos tempos no país. A taxa de abstenção das eleições presidenciais foi de 47%, a mais baixa dos últimos quinze anos. É a primeira vez que Portugal elege um presidente com uma geração que não viveu o 25 de Abril de 1974 - data que marca o início da vida democrática no país depois de quatro décadas de ditadura.
Transformação estrutural
Para o pesquisador Luca Manucci, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e especialista em populismo e extrema direita, "os resultados destas eleições confirmam uma transformação estrutural do sistema político português: um espaço partidário hoje claramente mais fragmentado e polarizado", diz.
"O fato de o segundo turno voltar a ser necessário é, por si só, um indicador dessa mudança. Esse processo ocorre em um contexto em que a esquerda radical surge ainda mais enfraquecida, perdendo capacidade de estruturação do debate político. O cenário que se desenha remete diretamente às eleições presidenciais francesas, em que durante décadas a extrema direita chegou sistematicamente ao segundo turno para ser derrotada por um cordão sanitário mobilizado em torno do candidato adversário", ressalta Manucci.
"É plausível que André Ventura enfrente uma dinâmica semelhante, sendo derrotado por uma convergência de forças moderadas, como o que aconteceu com Jean-Marie e Marine Le Pen na França. Ainda assim, o percurso de Ventura é politicamente revelador: um político de estilo bolsonarista, ausente do panorama político nacional até 2019, que em poucos anos conseguiu reconfigurar o debate público. A rapidez com que a política portuguesa se 'normalizou' segundo padrões globais de sucesso da direita radical — rompendo com a ideia de excepcionalismo português — é, nesse sentido, particularmente notável", salienta.
Quem é André Ventura
André Ventura cresceu em Mem Martins, um subúrbio de Sintra, na Grande Lisboa, que ele diz agora parecer a África por causa da imigração. Aos 42 anos, Ventura é o líder do Chega, partido de extrema direita que se define como "conservador, liberal e nacionalista" e que tem o discurso anti-imigração como um de seus principais alicerces.
Ventura formou-se em Direito, deu aulas em duas universidades em Lisboa e também foi comentarista esportivo. Militante do PSD, o Partido Social Democrata, foi eleito vereador em Loures, subúrbio de Lisboa, em 2017, mas logo depois deixou o partido com o objetivo de formar uma nova força política.
Enquanto na Europa vários países já conviviam com uma extrema direita consolidada, Portugal era exceção. Mas em 2019 tudo mudou com o aparecimento do Chega, e só foram precisos três anos para que o partido de extrema direita passasse a ser a terceira força política no país. Entre 2024 e 2025, o Chega teve uma ascensão meteórica e hoje é a segunda maior força na Assembleia da República (Parlamento português), com 60 deputados.
O jornalista português Vítor Matos explica no Expresso que "era só preciso alguém sem pudor que quisesse estimular alguns pontos sensíveis e nunca explorados do eleitorado e dos abstencionistas: um racismo envergonhado, o ressentimento contra as elites e as classes políticas, a raiva dos que viveram toda a vida revoltados, os que se sentem excluídos ou uma parte da direita que nunca se encaixou plenamente na democracia portuguesa. A receita era a mesma nos outros países. A prova de que os portugueses estavam mesmo só à espera que aparecesse o seu populista. André Ventura é um homem que se acha ungido com uma missão divina e que diz que fala com Deus".