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Desaparecimento de menina na França agrava crise de confiança na Justiça para a proteção de menores

A descoberta de um corpo que pode ser o de uma menina desaparecida, no sudoeste da França, aprofundou uma crise de confiança no sistema judiciário francês para lidar com a proteção dos menores. O principal suspeito pelo desaparecimento da criança, de 11 anos, já era alvo de cinco suspeitas de assédio, abuso sexual e estupro de crianças, ao longo da última década, sem que nenhuma medida de precaução tivesse sido tomada para detê-lo.

5 jun 2026 - 10h54
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"É evidente que há uma falhas (...) e isso é inaceitável", disse o presidente Emmanuel Macron nesta manhã, em meio a uma visita que realiza a Montenegro. Investigações administrativas "muito rápidas" deverão estabelecer "responsabilidades coletivas, sistêmicas e, potencialmente, individuais, e tomar todas as medidas necessárias", acrescentou o chefe de Estado, afirmando que "não aceitará argumentos sobre recursos neste caso".

Em Paris, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu adiou uma viagem para poder se reunir com seus ministros do Interior e da Justiça e analisar o caso, com o qual ele declarou estar "chocado". Nesta quinta-feira (4), a polícia localizou um corpo com roupas semelhantes às que a menina Lyhanna, desaparecida desde o dia 29 de maio, usava no momento em que foi vista pela última vez.

Uma autópsia está sendo realizada para confirmar a identificação e as causas da morte da criança, de acordo com a promotoria de Auch. O caso ocorreu em Fleurance, uma cidade de 6 mil habitantes nas proximidades de Toulouse, e o corpo foi encontrado em uma fazenda perto do vilarejo de Puycasquier, a cerca de 15 quilômetros de distância, no perímetro de buscas estabelecido pela polícia.

Longa ficha policial do principal suspeito, um pai de família

Antes de desaparecer, em frente à escola onde estudava, Lyhanna foi vista entrando no carro de um homem de 41 anos, pai de uma das amigas dela. O homem está em prisão preventiva e, na segunda-feira (1°), foi formalmente acusado por sequestro e cárcere privado. Segundo um produtor rural da região, ele trabalhou na fazenda onde o corpo foi encontrado, no interior de um silo.

Ministros da Justiça, Gerald Darmanin (esq.), e do Interior, Laurent Nunez, realizam reunião emergencial com o primeiro-ministro francês, Sébatien Lecornu, nesta sexta-feira (05/06/2026). Imagem de arquivo: 20/11/2025
Ministros da Justiça, Gerald Darmanin (esq.), e do Interior, Laurent Nunez, realizam reunião emergencial com o primeiro-ministro francês, Sébatien Lecornu, nesta sexta-feira (05/06/2026). Imagem de arquivo: 20/11/2025
Foto: RFI

Desde o início da semana, as revelações sobre o passado do pai de dois filhos, cuja foto foi divulgada na imprensa, aumentaram a revolta sobre o caso na França. Desde 2017, ele foi alvo de diversas denúncias e queixas formais, e uma delas, de estupro envolvendo uma menina de sete anos, foi arquivada em 2024. 

O suposto crime teria ocorrido dois anos antes, na casa do suspeito. Também foi na residência do homem que duas outras meninas, ambas de 11 anos, afirmam ter sido estupradas, entre setembro de 2024 e agosto de 2025. 

Série de falhas

As duas denúncias estão sendo investigadas. No caso da primeira, a vítima foi ouvida apenas cinco dias após a queixa e exames médico-legais foram realizados meses depois.

O caso evidenciou uma série de falhas dentro da aplicação da lei e do sistema judiciário, segundo advogados e grupos de defesa de menores, como procedimentos lentos, deficiências administrativas e informações inadequadas fornecidas às vítimas anteriores.

Na quinta-feira, o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, que ocupou diversos cargos ministeriais desde que Emmanuel Macron chegou ao poder em 2017, disse estar "apavorado" com tais "falhas".

O caso Lyhanna ocorre em meio a um grande escândalo de denúncias de pedofilia nas escolas do país, principalmente no ambiente pré-escolar. Uma das denúncias contra Jérôme B., suspeito na investigação da morte de Lyhanna, envolve o seu "comportamento inadequado" com uma adolescente em 2021, quando ele trabalhava em uma escola de ensino médio da região.

Na manhã desta sexta, uma fonte do governo disse à AFP que a recente circular enviada pelo Ministério da Justiça que dá prioridade ao tratamento de vítimas infantis "não foi aplicada pelo Ministério Público de Auch", que tratou as denúncias antigas contra Jérôme B.

"É necessário dar continuidade aos esforços em relação aos crimes cometidos contra crianças: a violência física ou sexual deve ser alvo de vigilância especial e tratamento prioritário", afirma a circular de justiça criminal, assinada por Darmanin e distribuída em janeiro passado. O ministro convocou todos os procuradores-gerais para uma reunião no Ministério da Justiça na manhã de segunda-feira (8).

Em um comunicado divulgado por seu advogado, a família expressou "o mais profundo horror".

Repercussão política, a menos de um ano de eleição presidencial

Em um clima político pré-eleitoral, antes da eleição presidencial de 2027, diversos candidatos potenciais ou declarados ao Palácio do Eliseu lançaram uma enxurrada de críticas.

O presidente do partido de extrema direita Reunião Nacional, Jordan Bardella, acusou o Estado de ter "falhado gravemente" e afirmou que "o povo francês exige responsabilização".

"Nosso sistema judiciário é um fracasso; precisa ser completamente reformado", declarou Bruno Retailleau, presidente do Partido Republicanos, de direita, e candidato à presidência em 2027.

"Precisamos estabelecer um verdadeiro princípio de precaução em relação à violência contra crianças", com "procedimentos acelerados" e "responsabilidades claramente definidas em caso de falha", declarou o ex-primeiro-ministro Édouard Philippe, também na corrida presidencial pelo partido Horizontes (centro-direita).

À esquerda, Marine Tondelier, líder do Partido Verde que vai concorrer à chefia do Executivo, denunciou o caso como "simbólico de um sistema político e judiciário incapaz de lidar com a questão da violência de gênero e sexual".

Na rádio RTL, Eric Mouzin, pai de uma menina vítima do assassino em série Michel Fourniret, considerou "surreal" que os ministros do Interior e da Justiça "pareçam estar descobrindo falhas dentro de seus ministérios", criticando a "reestruturação draconiana dos recursos do sistema judiciário".

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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