De Hitler a Trump, políticos recorrem à imigração para explicar crises nacionais e violência social
Ao atribuir neste domingo (18) a crise francesa à imigração e afirmar que o país foi "destruído" por estrangeiros, Donald Trump recorreu a uma das narrativas mais antigas da política moderna: a ideia de que uma nação em dificuldades teria sido enfraquecida por populações vindas de fora. Ao longo de quase dois séculos, líderes nacionalistas, autoritários e populistas de diferentes correntes transformaram imigrantes e minorias em explicação para crises econômicas, insegurança, desemprego e perda de identidade nacional.
A recente declaração de Donald Trump culpando a imigração pela violência na França reflete uma estratégia histórica recorrente. De regimes totalitários do século XX, como o nazifascismo, a líderes populistas contemporâneos, a figura do estrangeiro é ciclicamente usada para simplificar crises complexas. Ao transformar migrantes em bodes expiatórios para problemas econômicos, de segurança ou de identidade, líderes políticos mobilizam o ressentimento social para consolidar poder e obter ganhos eleitorais.
A frase publicada por Donald Trump hoje em sua rede social, Truth Social, não se limitou a comentar os episódios de violência ocorridos na França. Ao afirmar que a imigração de pessoas oriundas de "um mundo completamente diferente" teria "destroçado" um país antes grande, o presidente norte-americano mobilizou um repertório político que atravessa gerações, regimes e continentes.
A associação entre imigração e declínio nacional não nasceu na atual onda de populismos nem com a ascensão da extrema direita contemporânea. Trata-se de uma construção ideológica que reaparece ciclicamente em momentos de tensão econômica, transformação social ou crise institucional.
Ao longo da história moderna, períodos marcados por desemprego elevado, inflação, aumento da criminalidade ou mudança acelerada dos costumes frequentemente abriram espaço para discursos que identificavam estrangeiros como responsáveis pelos problemas nacionais. Em vez de apresentar as dificuldades como resultado de fenômenos complexos, esses discursos costumam oferecer uma explicação simples: a deterioração do país teria sido provocada por grupos externos.
A retórica possui enorme força política porque transforma processos muitas vezes abstratos em um alvo identificável. Quando a população enfrenta perda de renda, insegurança ou incerteza, a figura do estrangeiro pode ser apresentada como a personificação dos problemas que afetam a sociedade.
Nem sempre esse discurso assume a mesma forma. Em alguns contextos, a acusação concentra-se na criminalidade. Em outros, no mercado de trabalho, na identidade cultural, nas religiões ou nos gastos públicos. O argumento central, porém, permanece semelhante: o país estaria sendo enfraquecido por pessoas que não pertencem à comunidade nacional.
Essa narrativa voltou a ganhar força em diversas democracias ocidentais após a crise financeira de 2008, a crise migratória europeia de 2015 e os efeitos econômicos da pandemia de Covid-19, mas possui raízes muito mais profundas.
"A França está queimando! A imigração de pessoas vindas de um mundo totalmente diferente, pessoas que carregam ódio no coração, destruiu esse país outrora grandioso. Fechem suas fronteiras e retomem o controle, antes que seja tarde demais!", declarou Donald Trump, neste domingo (18), em uma mensagem publicada em sua plataforma Truth Social.
Do nacionalismo do século XIX aos fascismos europeus
A construção do estrangeiro como ameaça política ganhou força paralelamente à consolidação dos Estados nacionais europeus durante o século XIX. À medida que governos passaram a associar cidadania, língua, história e identidade nacional, também surgiram movimentos dedicados a definir quem estaria plenamente incluído ou excluído da comunidade política.
Em momentos de crise, essa lógica frequentemente se radicalizou.Na Alemanha do período entreguerras, por exemplo, a derrota na Primeira Guerra Mundial, a hiperinflação da década de 1920 e a Grande Depressão criaram um ambiente de forte ressentimento social. Foi nesse contexto que Adolf Hitler transformou a ideia de uma nação supostamente traída por elementos "estrangeiros" em um dos pilares do movimento nazista.
A propaganda do regime atribuía problemas econômicos, políticos e morais a grupos definidos como externos ao corpo nacional alemão. Embora os judeus tenham sido o principal alvo dessa estratégia, outras minorias e populações consideradas não assimiláveis também passaram a ser retratadas como responsáveis pela decadência do país.
Na Itália fascista, Benito Mussolini desenvolveu uma narrativa semelhante, ainda que com características próprias. A defesa de uma identidade nacional homogênea e a desconfiança em relação a influências externas tornaram-se componentes centrais da propaganda estatal, sobretudo nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial.
Em ambos os casos, a identificação de inimigos internos ou externos serviu para fortalecer projetos políticos baseados na concentração de poder e na promessa de restaurar uma grandeza nacional supostamente perdida.
A transformação da imigração em tema eleitoral
Após a Segunda Guerra Mundial, a associação direta entre imigração e declínio nacional tornou-se mais difícil em grande parte da Europa Ocidental, em razão do trauma provocado pelos regimes fascistas.
Mas isso não significou o desaparecimento do discurso. A partir das décadas de 1970 e 1980, em meio à desaceleração econômica e ao aumento do desemprego, partidos nacionalistas passaram a reconstruir a narrativa sob uma nova linguagem. Em vez de argumentos raciais explícitos, a ênfase deslocou-se para segurança, identidade cultural e competição por recursos públicos.
Foi nesse contexto que Jean-Marie Le Pen ganhou projeção na França. Fundador da Frente Nacional, partido que décadas depois seria rebatizado como Reunião Nacional, ele popularizou a ideia de que a imigração estaria relacionada ao desemprego, à criminalidade e à erosão da identidade francesa.
Ao longo dos anos 1980 e 1990, argumentos semelhantes surgiram em outros países europeus. Na Áustria, Jörg Haider; nos Países Baixos, Geert Wilders; e, mais tarde, líderes como Matteo Salvini, na Itália, e Viktor Orbán, na Hungria, transformaram a crítica à imigração em elemento central de suas plataformas políticas.
Embora esses movimentos apresentem diferenças importantes, compartilham uma mesma lógica discursiva: a ideia de que mudanças econômicas, culturais ou demográficas teriam colocado em risco a sobrevivência da nação.
Trump e a versão norte-americana da narrativa
Quando lançou sua primeira candidatura presidencial, em 2015, Donald Trump colocou a imigração no centro do debate político norte-americano.
Desde então, o presidente dos EUA tem associado repetidamente imigração irregular a criminalidade, tráfico de drogas, insegurança e perda de empregos. A construção de barreiras na fronteira com o México tornou-se uma das marcas mais conhecidas de sua trajetória política.
A mensagem publicada neste domingo (18) sobre a França reproduz esse mesmo enquadramento. Segundo Trump, o país estaria sendo destruído por uma imigração oriunda de regiões culturalmente distintas e composta por pessoas que carregariam "ódio em seus corações". Ele também defendeu o fechamento das fronteiras e a retomada do controle migratório.
Com AFP
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.