Após ruptura de geleira no Nepal e Tibete, cientistas alertam para riscos nos Alpes
A tragédia que atinge o Nepal e o Tibete, depois que a ruptura de uma geleira causou uma enxurrada devastadora nas montanhas do Himalaia, serve de alerta para outras cordilheiras do planeta. Nos Alpes, cientistas europeus chamam a atenção há anos para os riscos do derretimento das glaciares, acelerado pelas mudanças climáticas.
Após a trágica ruptura de uma geleira no Nepal, cientistas colocaram os Alpes sob vigilância máxima devido ao risco de novos desastres. O aquecimento global tem acelerado o degelo e a instabilidade de geleiras como a de Taconnaz, na França, aumentando a probabilidade de avalanches e inundações por rompimento de lagos glaciais (GLOF). Diante da ameaça às comunidades locais, governos da região alpina já estudam a construção de novas obras emergenciais de proteção.
A capa do jornal francês Le Parisien desta sexta-feira (28) informa que as geleiras alpinas estão "sob alta vigilância", em meio à comoção internacional gerada pela catástrofe com epicentro em Bhothe Koshi, na Ásia. O glaciologista Antoine Rabatel afirma ao diário que os riscos "não podem ser ignorados".
O cientista é o principal autor de um atlas de referência das cerca de 220 mil geleiras do globo, das quais aproximadamente 500 estão na França, onde o foco das atenções é a geleira de Taconnaz, no monumental Mont-Blanc, maior pico da Europa.
"As mudanças climáticas estão alterando o regime térmico desta geleira suspensa, e a altitude do seu ponto de fusão está subindo cada vez mais, o que expõe as comunidades dos vales adjacentes a quedas massivas e destrutivas de gelo", explicou o especialista.
Incidentes no passado causam preocupação
A reportagem visitou o vilarejo de Bossons, onde, em 2023, o degelo parcial da geleira de mesmo nome levou à formação de um lago, obrigando as autoridades a realizar uma operação para esvaziar a água. Em 2024, a comunidade de Bérarde, mais ao sul, foi devastada por uma enxurrada inédita, lembra Le Figaro.
"Foi um evento pouco previsível, ocorrido depois de chuvas intensas e do derretimento rápido de uma espessa camada de neve", disse ao jornal Olivier Gagliardini, glaciologista do Instituto de Geociências do Meio Ambiente de Grenoble.
A tragédia no Nepal leva os governos locais a examinarem "a construção de novas obras de proteção das populações", conforme indicou o prefeito da cidade de Chamonix ao Parisien.
Ao Libération, Jacob Steiner, geocientista da Universidade de Graz, na Áustria, explica que a erosão de rochas é um processo natural das montanhas, mas o derretimento das coberturas de gelo e neve deixa as paredes rochosas menos protegidas, aumentando os riscos de desabamentos. Além disso, a elevação das temperaturas também aquece as próprias rochas, o que amplia a ocorrência de erosões.
Especialistas indicam que uma gigantesca avalanche de gelo e rochas nas encostas norte de Langtang Lirung, no Nepal, provavelmente levou ao desastre. Uma grande parte da língua glacial se rompeu a uma altitude de cerca de 5,2 mil metros, antes de desabar por mais um quilômetro abaixo, segundo especialistas.
As hipóteses iniciais concentram-se na possibilidade de uma inundação repentina causada pelo rompimento de um lago glacial, conhecida como "GLOF" (sigla em inglês para Glacial Lake Outburst Flood), um evento cuja frequência e risco vêm aumentando com as mudanças climáticas.
Um GLOF ocorre quando uma barragem natural frágil, composta por detritos e que retém um lago formado pelo degelo de geleiras, rompe-se subitamente, liberando a água represada.
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