20 horas sem luz e a -20°C: ataques russos mudam rotina em Kiev, na pior crise humanitária desde 2022
Na Ucrânia, a série de ataques russos contra as infraestruturas energéticas continua diariamente. Desde 10 de outubro, não passou um único dia sem que mísseis ou drones atingissem usinas de energia ou centrais térmicas, mergulhando o país no escuro e no frio em pleno inverno. A situação é particularmente crítica em Kiev. Os bairros mais pobres da capital, onde a população nem sempre consegue fugir, são os que mais sofrem.
Emmanuelle Chaze, correspondente da RFI em Kiev
Oksana passeia com seu cachorro pelas ruas cobertas de neve de um dos bairros populares de Kiev. Apesar de esboçar um sorriso, ela não relata a situação que enfrenta há meses. "A gente fica sem eletricidade por dez, vinte horas seguidas. E quando ela volta, é no meio da noite, então eu me levanto para carregar todas as nossas baterias", desabafa essa mãe de família. "Sem luz, não tem água também, porque como o prédio tem vários andares, ela não chega mais aos andares superiores", detalha.
Oksana faz parte dos mais de 3 milhões de moradores da capital que, desde 2022, foram vítimas da ofensiva aérea russa. Seu prédio já foi parcialmente destruído por um ataque de drones, e as janelas dos andares inferiores foram substituídas por painéis de madeira.
A Rússia tenta enfraquecer a Ucrânia atingindo suas estruturas de fornecimento de energia. Embora Moscou negue mirar civis ucranianos, eles continuam sendo, diariamente, as primeiras vítimas desses bombardeios.
Na margem esquerda do rio Dniepre, onde os bairros populares são os mais afetados, os moradores dos grandes blocos residenciais estão particularmente expostos. Eles vivem próximos a usinas visadas pelos russos, e seu abastecimento de luz, aquecimento e água tornou-se imprevisível.
Temperaturas de até -20°C
Os moradores enfrentam, em pleno inverno, longos cortes dos serviços básicos, enquanto a Ucrânia sofre com uma onda de frio polar, com temperaturas que chegaram a -20°C nas últimas duas semanas e agora se estabilizam em torno de -10°C.
Diante da amplitude dos danos, e após um ataque devastador às centrais energéticas da cidade em 9 de janeiro, o prefeito Vitali Klitschko chegou a pedir que todos os moradores que pudessem deixassem Kiev. Duas semanas depois, ele afirma que, segundo estimativas baseadas em registros de telefonia móvel, cerca de 600 mil pessoas saíram da capital ucraniana.
Mesmo assim, Oksana não pensa em deixar Kiev: "Temos família no oeste, onde nos refugiamos no início de 2022, mas meu marido tem deficiência e está aguardando uma cirurgia, então não me vejo partindo agora. Além disso, temos aqui todos os nossos parentes, inclusive meus pais, que vivem em prédios vizinhos".
Assim como Oksana, Valentina, uma aposentada, tenta sobreviver apesar das condições difíceis: "Graças a Deus, uma parte do prédio ainda está aquecida, e em casa eu fico de casaco para não sentir frio".
Noites passadas em porões ou estações de metrô
Para os moradores que permanecem na capital, o cotidiano gira em torno das poucas horas de eletricidade disponível, nas quais é preciso carregar aparelhos e baterias, lavar roupas ou estocar água corrente. As noites, quando os ataques são mais frequentes, são passadas no frio, em porões, estacionamentos ou estações de metrô. A crise humanitária se agrava à medida que a Rússia continua atacando Kiev.
A prefeitura instalou cerca de 50 geradores móveis para tentar contornar as deficiências. Em alguns pátios de prédios afetados, equipes de emergência montaram grandes tendas laranjas que funcionam como "pontos de invencibilidade". Esses espaços são "ilhas de energia" onde os moradores podem se aquecer, trabalhar à distância ou passar a noite, se já não puderem dormir na própria casa.
Essas ilhas não são novidade. Desde o início dos ataques aéreos no inverno de 2022, edifícios públicos com geradores, como repartições, restaurantes e escolas, também passaram a funcionar como "pontos de invencibilidade".
No centro histórico da cidade, em frente à Universidade Taras Shevchenko, uma tenda instalada por uma associação ucraniano‑cazaque em 2023 reabriu como ponto de calefação e energia. Ali, Natacha, ucraniana, recebe quem chega com chá quente e doces típicos. "Os cazaques acreditam na nossa vitória, e com esta tenda eles nos trazem um pouco de amor e seu apoio. Eles não podem nos fornecer armas, mas mostram de outras formas que estão ao nosso lado."
No entanto, após vários invernos em que o pior havia sido evitado, muitos desses "pontos" já não conseguem mais acolher temporariamente os moradores da capital. No centro histórico da cidade, sede de repartições públicas, embaixadas e organizações internacionais — e até este ano relativamente poupado das quedas de energia —, a situação se deteriorou bastante.
Cafés e restaurantes ainda funcionam, mesmo que precariamente, com pequenos geradores a diesel de ruído ensurdecedor e forte cheiro de combustível, mas muitos prédios públicos listados no aplicativo municipal como abertos 24 horas para servir de abrigo de calefação e luz permanecem com as portas fechadas. Alla, zeladora de uma escola deserta, lamenta: "Aqui não tem aquecimento, nem conexão à internet ou energia, e ninguém vem abastecer o tanque do gerador, então ficamos fechados".
Em meio à crise, as escolas de Kiev permanecerão fechadas nos próximos dias: as férias escolares foram prolongadas até o início de fevereiro, para que os alunos possam permanecer fora da cidade, se tiverem essa possibilidade.
Em um de seus últimos comunicados, a empresa DTEK, maior fornecedora privada de energia, alerta seus usuários: "Os calendários de cortes de luz não valem atualmente: a rede energética da cidade ainda funciona em estado de emergência, não há energia suficiente. (...) Nunca algo assim aconteceu, em escala mundial. Há um mês, não houve um único dia sem queda de energia".
O novo ministro da Energia da Ucrânia, Denys Shmyhal, promete restaurar as infraestruturas o mais rápido possível, mas também alerta para novos ataques russos, "inclusive contra a infraestrutura que garante o funcionamento das centrais nucleares".