EUA negociam acordo nuclear com sauditas e ampliam ofensiva; Irã reage e ataca no Golfo Pérsico
Os Estados Unidos voltaram a bombardear o Irã na madrugada desta quarta-feira (22), enquanto o presidente Donald Trump advertia que a guerra "ainda não terminou". Pela 11ª noite seguida, alvos iranianos foram atingidos em meio à disputa pelo controle do Estreito de Ormuz. Ao mesmo tempo, a ameaça de um bloqueio promovido pelos rebeldes houthis no Mar Vermelho amplia o risco de interrupções no comércio global de petróleo e eleva a pressão sobre a economia mundial.
Novos ataques norte-americanos acionaram os sistemas de defesa aérea em Teerã nesta quarta-feira, em uma nova etapa da guerra entre Estados Unidos e Irã, que já custou mais de US$ 37,5 bilhões e ameaça ampliar sua área de impacto para além do Golfo Pérsico.
Poucas horas antes, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que a campanha militar contra a República Islâmica está longe do fim e sinalizou que novos alvos poderão ser atingidos em breve. Entre eles estaria um complexo nuclear subterrâneo nas proximidades de Natanz, no centro do Irã. Segundo serviços de inteligência ocidentais, o local abrigaria uma instalação não declarada de enriquecimento de urânio.
O Exército norte-americano realizou sua décima primeira noite consecutiva de bombardeios, apresentados por Washington como parte da estratégia para reduzir a capacidade iraniana de ameaçar a navegação comercial no Estreito de Ormuz. Localizada entre o Irã e a Península Arábica, a passagem é considerada uma das rotas marítimas mais estratégicas do planeta e concentra cerca de um quinto do comércio global de petróleo.
As hostilidades atuais foram retomadas em 7 de julho, quando o agravamento da disputa em torno de Ormuz provocou o colapso de um acordo parcial alcançado semanas antes entre Washington e Teerã.
Escalada no Golfo atinge aliados dos EUA
Nas últimas horas, o Irã respondeu com ataques contra instalações militares no Bahrein, no Kuwait e na Jordânia, além de ações contra embarcações que transitavam pelo Estreito de Ormuz. Bahrein e Kuwait abrigam importantes bases militares norte-americanas e estão entre os aliados mais próximos dos Estados Unidos na região do Golfo.
Segundo o pesquisador Mahdi Ghuloom, do think tank independente Observer Research Foundation, ouvido pela RFI, o Bahrein e o Kuwait abrigam bases militares americanas, mas essa não é a única razão para que venham frequentemente sendo alvo de bombardeios iranianos.
"É algo que tem apelo interno no Irã, atacar Bahrein e Kuwait por causa das tensões históricas. E o segundo fator é a pequena geografia desses dois países. A população de todo o território consegue ouvir os ataques. Então, se a estratégia é acionar esse clima de medo, isso também funciona quando se trata de países menores. E não é suficiente, ao atacar esses dois países individualmente para provocar uma dissuasão coletiva do Golfo, pelo menos é o que parece. Kuwait e Bahrein não conseguem convencer de forma unânime as nações da região a retaliar contra o Irã ou a estabelecer uma dissuasão, enquanto outros caminhos estão sendo explorados pelos demais países do Golfo", resumiu.
A Jordânia informou nesta quarta-feira ter interceptado quatro mísseis iranianos. Outros dois projéteis caíram em uma área desabitada, sem deixar vítimas ou provocar danos materiais. O Kuwait anunciou ter derrubado drones considerados hostis.
Em reunião de chanceleres do Sudeste Asiático realizada nas Filipinas, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou que permitir ao Irã controlar ou bloquear uma rota estratégica como Ormuz criaria um "precedente muito perigoso" com consequências globais.
Apesar da escalada militar, Rubio insistiu que Washington continua considerando a via diplomática como a melhor solução para o conflito. "O problema que enfrentamos atualmente é que eles não estão levando as negociações a sério", declarou.
Mar Vermelho entra na equação
A guerra também ameaça alcançar outra região crucial para o comércio internacional de energia. Na segunda-feira (20), os rebeldes houthis do Iêmen, alinhados ao Irã, anunciaram um bloqueio das águas do Mar Vermelho contra a Arábia Saudita. O grupo controla áreas próximas ao Estreito de Bab el-Mandeb, passagem essencial para o acesso ao Canal de Suez.
Caso a ameaça seja efetivamente colocada em prática, navios teriam maiores dificuldades para alcançar os portos sauditas localizados no Mar Vermelho, hoje uma das principais alternativas à rota de Ormuz.
Nesta quarta-feira, o Paquistão, aliado histórico de Riad e um dos mediadores dos esforços diplomáticos entre Washington e Teerã, classificou a ameaça dos houthis como "inaceitável".
O governo Trump já advertiu que os Estados Unidos agirão contra os rebeldes caso tentem impedir a navegação na região.
O avanço das tensões aumenta o temor de que o conflito deixe de ser uma guerra concentrada no Golfo e passe a afetar simultaneamente duas das rotas marítimas mais importantes para o abastecimento energético mundial.
Pressão política cresce sobre Trump
A escalada ocorre a poucos meses das eleições legislativas norte-americanas de novembro e aumenta a pressão política sobre Trump. O conflito enfrenta resistência não apenas da oposição, mas também de setores do próprio eleitorado republicano, preocupados com os custos econômicos e humanos da guerra.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, informou ao Congresso que os gastos acumulados já alcançaram US$ 37,5 bilhões. Ao mesmo tempo, o Pentágono pediu a aprovação de mais US$ 67 bilhões para financiar operações militares futuras.
Do lado iraniano, a Guarda Revolucionária elevou o tom das ameaças. "O inimigo deve se preparar para ondas de drones e ataques com mísseis ainda mais decisivos e poderosos", afirmou a força de elite do regime.
Enquanto os dois lados endurecem o discurso, os mercados acompanham os riscos de interrupção do fornecimento global de energia.
Nesta quarta-feira, o barril do petróleo Brent voltou a superar US$ 95 pela primeira vez em quase seis semanas, refletindo a preocupação dos investidores com a possibilidade de novos bloqueios marítimos e de uma expansão do conflito.
Washington reforça parceria com sauditas
Em meio à crise, o governo norte-americano prepara um gesto estratégico em direção à Arábia Saudita. Segundo a imprensa dos EUA, Washington deve anunciar ainda nesta quarta-feira um acordo para desenvolver um programa nuclear civil no reino saudita.
De acordo com o jornal The New York Times, integrantes do governo Trump avaliam que o acordo poderá gerar bilhões de dólares em negócios para a indústria nuclear norte-americana.
A iniciativa também reforçaria a aliança entre Washington e Riad num momento em que o equilíbrio de forças no Oriente Médio passa por uma de suas fases mais instáveis desde o início da guerra.
RFI com AFP
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.