Estudantes forçam queda de ministro da Educação e desafiam governo da Índia após fraudes em exames
O ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, pediu demissão neste sábado (25), após quase uma semana de protestos estudantis contra fraudes em exames universitários. A saída é considerada a maior vitória até agora do movimento conhecido como "Partido Popular das Baratas", que nasceu nas redes sociais e mobilizou milhares de jovens em todo o país. A crise ampliou o desgaste político do primeiro-ministro Narendra Modi e abriu um debate nacional sobre desemprego e acesso à educação.
A pressão das ruas levou o ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, a deixar o cargo neste sábado (25), seis dias após o início de uma mobilização estudantil que se transformou em um dos maiores desafios políticos enfrentados pelo governo de Narendra Modi desde sua reeleição.
Em mensagem publicada na rede social X, Pradhan afirmou ter apresentado sua renúncia para preservar a unidade nacional e permitir que os estudantes retomem o foco nos estudos e nas carreiras. A decisão foi anunciada horas antes de uma reunião prevista entre representantes do governo e líderes do movimento.
A notícia provocou comemorações imediatas entre os milhares de manifestantes acampados desde segunda-feira (20) na esplanada de Jantar Mantar, tradicional ponto de protestos em Nova Délhi.
"Conseguimos", celebrou Abhijeet Dipke, fundador do movimento conhecido como "Partido Popular das Baratas", que se consolidou como principal porta-voz da mobilização.
A saída do ministro representa a mais importante concessão feita pelo governo desde o início da crise e ocorre após dias de confrontos, pressão política e críticas crescentes à condução do caso.
O movimento começou exigindo a responsabilização do ministro por sucessivas fraudes em exames nacionais, mas rapidamente ampliou sua pauta para incluir temas como desemprego juvenil, custo de vida e críticas ao estilo de governo de Modi.
Exame de medicina desencadeou revolta nacional
A origem da crise remonta a maio, quando vieram à tona denúncias de irregularidades em um exame nacional de acesso aos cursos de medicina.
Mais de 2 milhões de candidatos participaram da prova, considerada uma das mais concorridas do país. Segundo a imprensa indiana, a anulação do exame após a descoberta das fraudes teria contribuído para o suicídio de cerca de 20 estudantes.
A repercussão gerou forte indignação entre jovens que já enfrentam um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, apesar do crescimento econômico da Índia.
Desde junho, grupos estudantis organizam atos exigindo investigações, punições aos responsáveis e mudanças no sistema de seleção universitária.
O descontentamento ganhou força nas redes sociais, onde milhões de jovens passaram a compartilhar relatos sobre dificuldades para conseguir emprego e críticas ao funcionamento do sistema educacional.
Foi nesse contexto que surgiu o Partido Popular das Baratas, movimento criado na internet e que transformou a insatisfação estudantil em mobilização política.
Das redes sociais às ruas
O nome do grupo surgiu de forma provocativa.
Seus fundadores recuperaram uma declaração atribuída ao presidente da Suprema Corte indiana, Surya Kant, que havia comparado desempregados a "baratas". O termo foi apropriado pelos jovens e convertido em símbolo de contestação.
Em poucos meses, o movimento acumulou dezenas de milhões de seguidores nas redes sociais e passou a representar uma parcela da chamada geração Z indiana.
O crescimento acelerado transformou o grupo em uma força política capaz de reunir grandes multidões nas ruas e pressionar diretamente o governo.
A tensão aumentou de forma significativa na segunda-feira (20), quando milhares de estudantes iniciaram uma marcha em direção ao Parlamento.
A polícia respondeu com bombas de gás lacrimogêneo e golpes de cassetete para impedir o avanço dos manifestantes.
Confrontos ampliaram pressão sobre o governo
Segundo a polícia, os confrontos deixaram 180 feridos. Os organizadores afirmam que o número real seria de várias centenas. Mesmo após a repressão, os protestos continuaram e se espalharam por diferentes cidades do país.
Neste sábado (25), antes da renúncia do ministro, as autoridades restringiram o acesso à internet em partes da capital e fecharam 18 estações de metrô de Nova Délhi para dificultar novas mobilizações.
As medidas não impediram a continuidade dos atos nem reduziram a pressão sobre o governo.
Diante da crise, o gabinete de Narendra Modi aprovou na sexta-feira (24) um projeto de lei que prevê punições mais severas para fraudes em concursos públicos e exames nacionais. O texto cria procedimentos judiciais acelerados e endurece as sanções para participantes de esquemas de vazamento de provas.
Crise produz desgaste raro para Modi
A oposição aproveitou a mobilização estudantil para ampliar ataques ao governo.
Rahul Gandhi, líder do Partido do Congresso e principal nome da oposição parlamentar, pediu diversas vezes a saída tanto do ministro quanto do próprio primeiro-ministro.
Narendra Modi também procurou responder politicamente à crise. Na sexta-feira (24), publicou um vídeo nas redes sociais agradecendo as "contribuições positivas" dos manifestantes para o debate público.
A iniciativa, porém, não impediu avaliações de que o governo sofreu um importante desgaste.
Para o analista político Nilanjan Mukhopadhyay, a crise produziu um abalo incomum na imagem do primeiro-ministro.
Segundo ele, o governo acabou sem alternativas além de recuar diante da pressão estudantil e enfrentou um nível de desgaste político raramente visto durante a permanência de Modi no poder.
Com AFP
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.