Estreito de Ormuz é a arma nuclear de Teerã capaz de intensificar a crise energética em todo o mundo
A crise global de março de 2026 desenha um cenário de profunda incerteza, no qual geopolítica e economia se fundem sob o impacto de um novo choque petrolífero, como constata a imprensa semanal francesa. O ataque dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, iniciado em 28 de fevereiro, desencadeou o estrangulamento do Estreito de Ormuz, um ponto nevrálgico por onde transita uma parcela significativa do petróleo mundial
Com o barril de Brent atingindo US$120, o mundo enfrenta o espectro da estagflação — combinação de crescimento estagnado e inflação persistente —, que ameaça especialmente a estabilidade da União Europeia e as estratégias de transição energética.
A revista L'Express destaca como esta crise se tornou um inesperado "balão de oxigênio" para Vladimir Putin. Segundo a publicação, a alta dos preços da energia compensa as sanções internacionais e financia diretamente a máquina de guerra russa na Ucrânia, que se aproxima dos 1.500 dias de conflito.
Além disso, a revista analisa o "mea culpa" europeu em relação a décadas de políticas equivocadas: a dependência excessiva do gás russo e o abandono precoce da energia nuclear deixaram o continente vulnerável e à mercê da volatilidade dos combustíveis fósseis, forçando governos a adotar medidas emergenciais e impopulares para conter os preços dos combustíveis.
A engrenagem econômica iraniana
Na revista Le Nouvel Obs, a análise da crise transcende a política para expor as entranhas do poder econômico e o fim do modelo de renda petrolífera no Irã. A revista destaca que o novo interlocutor diplomático de Washington, Mohammad Baqer Qalibaf, não é apenas um líder político, mas uma figura central da Khatam al-Anbiya, o gigantesco braço industrial e financeiro dos Guardiões da Revolução que controla mais de 800 empresas e detém o monopólio de contratos vitais para a infraestrutura do país. Negociar com Qalibaf é, segundo a publicação, uma "traição" ao povo iraniano, pois legitima quem detém as chaves da maquinaria econômica e energética da nação.
Por fim, o Le Point traça paralelos sombrios com os choques petrolíferos de 1973 e 1979, alertando que a França e a Europa correm o risco de repetir os mesmos erros econômicos ao responder a uma crise de oferta com políticas de subsídio à demanda.
A revista também revela o complexo "jogo duplo" do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan. Enquanto a Turquia, como membro da Otan, protege infraestruturas vitais como o terminal de Ceyhan — por onde flui o petróleo do Azerbaijão para a Europa e Israel —, Erdogan evita apoiar uma mudança de regime no Irã, temendo que um vácuo de poder resulte em crises migratórias massivas e no fortalecimento de movimentos curdos separatistas.