No fundo do poço há décadas, cidade mostra sinais de vida
David Streitfeld
Enquanto os norte-americanos preocupados tentam determinar até onde a economia pode piorar, Braddock, uma pequena cidade siderúrgica da Pensilvânia, oferece uma perversa mensagem de esperança: as coisas não podem ser piores do que aqui. À beira do rio Monongahela, apenas alguns quilômetros distante de Pittsburgh, Braddock é uma mistura de lojas fechadas, casas em estado avançado de decadência e terrenos baldios. "Todo mundo no país quer saber onde fica o fundo do poço", diz o prefeito John Fetterman. "Acho que chegamos a ele".
O Estado a define como "cidade-problema" - mais ou menos falida, portanto - desde a presidência de Ronald Reagan. A base tributária desapareceu. A maioria dos moradores se foi. A população, que atingia cerca de 18 mil pessoas nos anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, caiu para menos de três mil, muitos dos quais desempregados. Os preços dos imóveis caíram em 50% no ano passado.
Fetterman tenta transformar em vantagem a falta de vantagens de sua cidade, classificando-a como "um laboratório de soluções para os males que começam a bater à porta de todas as comunidades". Um de seus primeiros atos como prefeito, depois de sua eleição em 2005, foi criar um site, que ele paga com seu dinheiro pessoal, para divulgar Braddock - se é que se pode definir como "divulgação" fotos e edifícios destruídos por negligência e vandalismo.
Ele encorajou a criação de fazendas urbanas nos terrenos baldios, que empregam os jovens da região e servem para alimentar a comunidade. Fundou uma organização sem fins lucrativos para salvar alguns dos principais edifícios da cidade.
No passado, Braddock era uma próspera cidade industrial. O barão da siderurgia Andrew Carnegie criou nela sua primeira usina, que se tornou a fundação de um império que ajudou a construir os Estados Unidos modernos. Com a riqueza e o sentimento de culpa que Carnegie acumulava, ele também decidiu construir uma biblioteca na cidade, a primeira das mais de 1,5 mil bibliotecas Carnegie instaladas nos Estados Unidos. Imigrantes chegaram a Braddock para trabalhar nas siderúrgicas, e se mobilizaram incansavelmente até que conquistassem para seus filhos o direito à sindicalização, o que - com a ajuda da biblioteca no topo da coluna - ajudou a nova geração a construir uma vida melhor.
Um menino local, Thomas Bell, celebrou o sucesso da cidade no autobiográfico Out of This Furnace saído da fornalha, um romance que conta a luta de três gerações de uma família que trabalha nas siderúrgicas de Braddock, e a transformação dos imigrantes do leste europeu em cidadãos plenos dos Estados Unidos. Este ano, a cidade estará associada a mais uma obra-prima da literatura, já que parte da versão cinematográfica de The Road, romance de Cormac McCarthy, foi filmada lá. A história se passa em um país pós-apocalíptico cujos moradores se vêem reduzidos ao canibalismo.
Uma cidade que nasceu ajudando a construir um país melhor para os norte-americanos e cujo futuro, ao menos na ficção, aparentemente envolve comer cidadãos norte-americanos como jantar é difícil de promover, e por isso Fetterman, cujo salário mensal como prefeito é de US$ 150, quer divulgar sua cidade como um local no qual é possível comprar imóveis a preços muito baixos.
Erik e Shannon Gustafson ouviram esse apelo. O casal estava vivendo em Chicago e Gustafson trabalhava em tempo parcial como corretor de commodities quando eles ouviram falar de Braddock, no ano passado. Compraram por US$ 4,75 mil uma casa de dois quartos cuja proprietária os alertou de que a madeira estava podre e que não via saída exceto a demolição. O casal descobriu que a situação estrutural da casa não era assim tão precária, depois da compra. "O espaço é barato aqui", disse Gustafson, "e isso permite que nos concentramos em nossos hobbies". Ele está estudando design gráfico, e Shannon é fotógrafa.
O marceneiro Joel Rice adquiriu uma antiga concessionária de automóveis de 1,4 mil metros quadrados, e a converteu em oficina, loja e moradia, com uma estufa no telhado. O edifício custou US$ 70 mil, talvez 10% do que ele pagaria por uma loja minúscula no Oregon, o Estado onde morava. Vai demorar mais dois anos para que ele consiga renovar o encanamento e a rede elétrica, mas Rice, 38 anos, não se deixa abalar. "Se o nosso esforço aqui fracassar¿, ele diz, "não vai ser por falta de dedicação".
Ao contrário da maioria das cidades siderúrgicas em crise, a usina de Braddock não fechou. Parte do sistema da U. S. Steel, ela ainda emprega quase mil operários. Mas eles já não vivem na cidade, e o comércio que os servia os acompanhou quando se transferiram aos subúrbios. Por fim, só restaram os teimosos e os desprovidos de recursos.
"Até os bares e as lojas de bebidas fecharam", diz Ron Kutnansky, nascido em Braddock em 1953 e morador na cidade e no subúrbio de North Braddock por décadas. Kutnansky deixou a cidade três anos atrás, depois que sua casa foi arrombada e roubada pela terceira vez. "É uma grande vergonha, o que aconteceu com Braddock", diz. Ele vendeu sua casa por US$ 1, e não se arrepende.
Apesar dos pequenos avanços na direção de uma recuperação promovidos desde que Fetterman, novato na política, se tornou prefeito, as construções inabitadas continuam a cair. Dezenas têm suas demolições programadas. "Se as comunidades em crise não preservarem sua arquitetura, não poderão ressurgir no futuro", diz Fetterman. A preocupação dele é que, em breve, Braddock passe do ponto em que a recuperação se tornaria impossível.