Gelo pode não ter sido causa de desastre aéreo em Nova York
A. G. Sulzberger
Matthew Wald
The New York Times
Informações divulgadas na quinta-feira pelo Conselho Nacional de Segurança dos Transportes (NTSB) dos Estados Unidos, na quinta-feira, lançam dúvida sobre a teoria de que o acúmulo de gelo tenha sido a causa da queda de um avião de transporte regional perto de Buffalo, Nova York, que causou a morte de 50 pessoas no mês passado.
Informações recolhidas da caixa preta do avião sugerem, em lugar disso, que talvez as ações dos pilotos tenham influenciado na queda. Mas a organização afirmou que não estava pronta para afirmar que um erro humano ¿ou qualquer outro fator definido- causou o desastre com o voo 3407 da Continental Connection quando o aparelho estava se aproximando do Aeroporto Internacional Buffalo Niagara, em 12 de fevereiro, causando a morte das 49 pessoas que estavam a bordo e de uma pessoa em terra.
O conselho anunciou que conduziria uma audiência de três dias sobre o acidente, a partir de 12 de maio.
"A tragédia do vôo 3407 é o mais grave acidente nos transportes dos Estados Unidos em sete anos, em termos de número de fatalidades", afirmou Mark Rosenker, presidente interino do conselho, em uma atualização sobre a investigação postada no site da organização, www.ntsb.gov. "As circunstâncias da queda suscitaram diversas questões que vão além da debatida possibilidade de acúmulo de gelo na estrutura do aparelho, e exploraremos essas questões em nossa audiência de investigação e esclarecimento."
As informações divulgadas na quarta-feira indicam que o avião, um bimotor turboélice Bombardier Dash 8 Q400, operado pela Colgan Air para a Continental, caiu devido a um estol aerodinâmico ¿ o que significa que a combinação entre a velocidade de vôo e o ângulo da asa com relação ao vento resultou em uma perda de sustentação aerodinâmica. O estol não parece ter sido causado pela provável presença "de leve a moderada" de gelo no aparelho.
O gelo "teve impacto mínimo sobre a velocidade de estol", de acordo com a atualização, que acrescentava que "o aparelho continuou a responder da maneira esperada aos impulsos dos controles de vôo durante todo o período do acidente".
O estol parece, em lugar disso, ter sido causado por um movimento vertical do nariz do aparelho, de acordo com esforços de simulação e modelagem do desempenho do avião. A investigação indica que o nariz do aparelho subiu quando um dos dois pilotos puxou a coluna de controle com força equivalente a 11 quilos, o que resultou na ativação de uma seção da cauda que moveu a cauda para baixo e o nariz para cima.
À medida que crescia o "ângulo de ataque" ¿ o ângulo das asas com relação ao vento - o fluxo de ar por sobre as asas começava a se separar. As asas deixaram de gerar sustentação aerodinâmica, e o aparelho rolou para um lado, fora de controle.
No momento em que isso aconteceu, o avião estava a apenas algumas centenas de metros de altitude e um sistema de alerta automático já havia acionado um mecanismo que faz vibrar a coluna de controle, como forma de alertar os pilotos de que estão perto de um estol; o sistema também alerta um sistema de correção aerodinâmica que tenta empurrar para baixo o nariz do aparelho para ganhar velocidade e evitar o estol. Mas o nariz parece ter sido puxado para cima por ação dos tripulantes da Colgan Air, e o avião começou a rolar dois segundos mais tarde.
Porque as decisões e a reação dos tripulantes ganharam posição central na investigação, o NTSB está examinando o treinamento dos pilotos em questão. Os investigadores estão entrevistando membros de tripulações de voo que já tenham operado com os pilotos do voo 3407, ou que os tenham instruído antes do acidente, bem como o pessoal da Colgan Air responsável pelo treinamento e segurança na linha aérea regional.
Os investigadores também estão examinando os materiais de treinamento e manuais. Os corpos dos pilotos apresentaram retorno negativo quanto à presença de álcool ou qualquer medicamento não aprovado para uso por pilotos.
Howard Pettys, que vive no sul de Buffalo e cuja mulher, Mary, morreu no desastre, diz que o relatório do conselho de segurança "foi notícia aqui em Buffalo, nos jornais e na televisão". Com a voz embargada, ele disse ao telefone, sobre a idéia de que o gelo não tenha causado a queda, que "acredito que isso seja uma boa possibilidade".
Cheryl Bonner, de Pendleton, Nova York, cujo marido David Bonner, também estava entre as vítimas, diz que informações desencontradas sobre o acidente não importam muito a ela. O que importa é seguir em frente, ela diz. "Não sou a espécie de pessoa que precisa de tanta informação."
Ela diz que seus parentes e amigos a mantêm atualizada sobre as notícias referentes ao caso, de vez em quando, mas que sua preocupação principal agora é cuidar de seus filhos. Ela se animou um pouco ao falar de sua filha de 17 anos, que será a oradora de sua classe de segundo grau, e disse que seu filho de 14 anos havia assumido a responsabilidade por diversas tarefas na casa. "Para mim às vezes é difícil perceber que outras pessoas estão mais informadas do que eu", disse Bonner. "Mas estou em paz."
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME