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Enviado de Trump manteve laços com empresa envolvida em oleoduto de US$15 bi para contornar Ormuz

9 out 2026 - 11h44
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Resumo
O diplomata dos EUA Thomas Barrack defendeu a inclusão da TI Capital, liderada por seu parceiro comercial Ziad Ghandour, na reabilitação de um oleoduto de US$ 15 bilhões entre Iraque e Síria para contornar o estreito de Ormuz. Especialistas apontam violação das normas federais de ética sobre imparcialidade, já que Barrack tem negócios imobiliários ativos com o executivo e não pediu isenção de conflito de interesses. O Departamento de Estado afirma que o embaixador não lucra com o projeto.

Thomas Barrack, um importante diplomata norte-americano no Oriente Médio, defendeu que uma empresa dirigida por seu parceiro de negócios participasse do desenvolvimento de um oleoduto do ‌Iraque à Síria, segundo três pessoas, algo que parece violar as normas federais de ética.

Em julho, o Iraque e a Síria assinaram memorandos de entendimento com um consórcio pelo grupo de investimentos californiano TI Capital, pela Chevron e pela UCC Holding, do Catar, para realizar estudos técnicos e financeiros em preparação para a reabilitação do oleoduto, que contornaria o estreito de Ormuz.

Barrack, enviado especial do presidente dos EUA tanto para o Iraque quanto para a Síria, além de embaixador na Turquia, mantém uma relação comercial de longa data com a TI Capital e seu fundador, Ziad Ghandour. Na época de suas audiências de confirmação, em 2025, ele detinha uma participação financeira que lhe dava direito a até um quinto dos lucros de um empreendimento imobiliário próximo a San Francisco, na Califórnia, administrado pela TI Capital -- tendo Ghandour como diretor executivo. Ele afirmou pretender manter essa participação, segundo mostram registros públicos.

Durante reuniões com autoridades sírias e iraquianas após o início ⁠da guerra no Irã, Barrack pressionou para que a empresa de Ghandour fosse incluída no projeto, segundo duas pessoas com conhecimento direto das discussões.

Em 16 de junho, um mês antes da assinatura do acordo do consórcio, Barrack e o primeiro-ministro iraquiano Ali ‌al-Zaidi emitiram uma declaração conjunta elogiando a decisão do Iraque de "avançar com um memorando de entendimento com a TI Capital para reabilitar o oleoduto Kirkuk-Baniyas". A declaração não fez menção à Chevron ou à UCC em relação ao oleoduto.

A Reuters não encontrou evidências de que Barrack venha a lucrar com o oleoduto ou com outros projetos. Seus laços com Ghandour não constituiriam um conflito de interesses criminal, a menos que ele viesse a lucrar diretamente com o próprio oleoduto, afirmaram ‌dois advogados especializados em ética à Reuters.

No entanto, a relação de Barrack com Ghandour torna tal defesa de interesses "um problema sério" sob a regulamentação ‌que proíbe autoridades de participar de assuntos que ponham em dúvida sua imparcialidade devido a uma relação pessoal ou comercial, disse Richard Painter, ex-advogado-chefe de ética da Casa Branca e professor da Faculdade de Direito da Universidade ⁠de Minnesota.

A regra de imparcialidade, que não é uma lei penal, pode ser acionada pelo envolvimento de um parceiro de negócios em um projeto, independentemente de o funcionário ter ou não um interesse financeiro próprio.

"A preocupação ética é a aparência de um conflito de interesses", disse Ann Skeet, diretora executiva interina do Centro Markkula de Ética Aplicada da Universidade de Santa Clara.

Questionado sobre o que Barrack teria precisado fazer para cumprir a regra, Painter disse: "Não ter nada a ver com esse oleoduto. Abster-se completamente. Declarar que esse não é um assunto no qual eu participe."

Don Fox, ex-conselheiro jurídico geral e diretor interino do Escritório de Ética Governamental dos EUA, afirmou que a promoção da TI Capital por Barrack violaria adicionalmente uma regulamentação que proíbe que autoridades usem seu cargo para endossar qualquer empresa ou para o ganho privado de pessoas às quais estejam afiliadas.

Barrack não apresentou uma isenção de conflito de interesses ao Escritório de Ética Governamental dos EUA em relação aos ‌seus laços com a empresa, uma vez que ela participa do projeto, de acordo com uma solicitação de registros feita pela Reuters. As isenções permitem que autoridades com potenciais conflitos de interesses participem de assuntos que, de outra forma, exigiriam que o funcionário ‌se recusasse a participar.

Em um acordo de ética assinado antes de suas ⁠audiências de confirmação no ano passado, ele se comprometeu a se ⁠recusar a participar de assuntos que afetassem diretamente os interesses financeiros do empreendimento imobiliário, a menos que obtivesse previamente tal isenção.

O gabinete de Barrack e a Chevron se recusaram a comentar. A TI Capital, Ghandour e a UCC não responderam aos pedidos de ⁠comentário.

Em uma postagem de 17 de julho no X, Barrack disse que o envolvimento de empresas norte-americanas no Iraque e na Síria era "um novo paradigma" que visava ‌trazer clareza e oportunidades para a região.

Um quarto advogado especializado em ‌ética afirmou que caberia ao Departamento de Estado decidir se os ativos financeiros de seu funcionário criam um potencial conflito de interesses.

"O embaixador Barrack não tem nenhuma afiliação, função ou interesse financeiro no projeto do oleoduto Kirkuk-Baniyas", disse um porta-voz do Departamento de Estado à Reuters, ao mesmo tempo em que reconheceu a relação de Barrack com o empreendimento imobiliário da TI Capital.

Seus comentários públicos sobre o oleoduto refletem "o interesse político de longa data e publicamente declarado dos EUA na integração energética regional", disse o porta-voz, acrescentando que Barrack foi certificado como estando em conformidade com as regras de ética.

INTERESSE DIVULGADO

Em uma declaração financeira apresentada ao Escritório de Ética Governamental dos ⁠EUA em março de 2025, antes de assumir suas funções diplomáticas, Barrack declarou uma participação acionária na ACD-TI Oakley Investment LLC, uma empresa que está construindo um grande projeto habitacional próximo a San Francisco.

O documento não revelou o tamanho da participação, mas indicou que ele teria direito a 20% dos lucros da empresa quando os ganhos atingissem um mínimo estabelecido.

A ACD-TI é administrada pela TI Capital e liderada por Ghandour, segundo registros corporativos do Estado da Califórnia. A Reuters não conseguiu localizar dados de contato de um representante da empresa e não obteve resposta às perguntas enviadas para seu endereço postal.

O documento informou que o acordo de participação nos lucros era em troca de serviços que ele prestou à empresa. Barrack também divulgou ao OGE que exerceu uma função de consultoria remunerada na empresa em 2024. O documento não especifica se ele foi remunerado ‌nem o valor recebido.

Em um acordo de ética separado, assinado em 7 de março de 2025 -- três semanas antes de sua audiência de confirmação no Senado --, Barrack listou a ACD-TI Oakley entre os ativos que ele manteria, em vez de vender.

CONTORNANDO O ESTREITO

O histórico oleoduto Kirkuk-Baniyas, que por décadas transportou petróleo bruto iraquiano até a costa mediterrânea da Síria, enfrentou paralisações esporádicas desde o início da década de 1980 e está fora de operação desde a invasão ⁠dos EUA ao Iraque em 2003. Planos arquivados para reativá-lo receberam novo impulso este ano quando, sob ataque dos EUA, o Irã restringiu o tráfego pelo Estreito de Ormuz, elevando os preços do petróleo.

Várias pessoas disseram à Reuters em agosto que a construção do oleoduto levaria pelo menos quatro anos e custaria US$15 bilhões.

A ideia de trazer a TI Capital para o projeto regional foi levantada por Barrack em maio, na Conferência Global do Milken Institute, em Los Angeles, segundo informou à Reuters uma terceira pessoa com conhecimento direto da conversa. A discussão, acrescentou a fonte, ocorreu à margem do evento.

Com a guerra dos EUA contra o Irã em pleno andamento, Barrack e Ghandour também participaram de um painel exclusivo para convidados na conferência, onde discutiram, em termos mais gerais, a necessidade de novas linhas de abastecimento de energia no Oriente Médio, disse a fonte.

Um porta-voz do Milken Institute se recusou a fornecer detalhes sobre o painel de discussão, alegando que o evento era fechado à imprensa.

Barrack mantém relações comerciais com Ghandour desde pelo menos 2020, quando os dois criaram uma SPAC (empresa de aquisição de ativos) do tipo "cheque em branco" no valor de US$250 milhões, que foi dissolvida após a prisão de Barrack em 2021 sob a acusação de atuar como agente não registrado dos Emirados Árabes Unidos. Ele foi absolvido em 2022.

O gabinete iraquiano nomeou a TI Capital no final de julho como parte de outro consórcio com a UCC Holding e a ConocoPhillips para avaliar o campo de gás de Akkas, uma das maiores reservas não exploradas do Iraque. Em seu site, a empresa afirma ter participação em projetos no porto de Tartous, na Síria, sem fornecer detalhes. A autoridade portuária da Síria não respondeu a perguntas sobre a TI Capital, e a Reuters não conseguiu verificar seu papel em Tartous. A ConocoPhillips não respondeu a um pedido de comentário.

Uma pessoa próxima a Barrack disse que o embaixador confiava em Ghandour para ajudar a implementar a estratégia regional do presidente Donald Trump, de aproximar o Iraque e a Síria dos EUA. "Ziad é o homem escolhido. Escolhido a dedo por Barrack", disse a pessoa.

A Casa Branca encaminhou as perguntas da Reuters ao Departamento de Estado.

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