Enviado de Putin e partido de extrema-direita alemão devem discutir retomada de fornecimento de gás, dizem fontes
O principal enviado econômico de Vladimir Putin e líderes do partido de extrema-direita alemão AfD planejam se reunir em 2024 para discutir a retomada do gás russo e a reabertura do gasoduto Nord Stream. Condicionado a um prévio acordo de paz na Ucrânia, o encontro teria caráter simbólico, já que a legenda não integra o governo da Alemanha, mas evidencia a forte aproximação entre Moscou e a sigla ultradireitista, gerando duras críticas e temores de uma nova dependência energética alemã.
O principal enviado econômico do presidente da Rússia, Vladimir Putin, e a liderança do partido alemão de extrema-direita AfD começaram os preparativos para se reunir no próximo ano a fim de discutir o reinício do fornecimento de gás russo à Alemanha, segundo duas pessoas a par do plano.
As discussões para uma reunião já em março destacam as relações estreitas entre Moscou e a AfD, que, embora impedida de chegar ao poder por uma coalizão de seus rivais, é o partido mais popular entre os eleitores alemães.
A reunião contaria com a presença de Kirill Dmitriev, assessor próximo de Putin e que chefia o fundo soberano da Rússia, bem como dos co-líderes da AfD, Alice Weidel e Tino Chrupalla, disse uma das fontes.
Um porta-voz da AfD e um representante de Dmitriev se recusaram a comentar.
Antes das sanções impostas devido à invasão em grande escala de Moscou à Ucrânia em 2022, a Rússia fornecia mais de um terço das importações de petróleo bruto da Alemanha e mais da metade de seu gás natural.
A reunião só ocorreria se um acordo de paz fosse previamente firmado entre a Rússia e a Ucrânia, e os organizadores esperavam que ela reunisse a AfD, a Rússia e os Estados Unidos, disse a fonte. Entre os locais possíveis para a cúpula estão Israel, os Emirados Árabes Unidos ou a Índia, acrescentou.
Weidel defendeu o fim do boicote ao petróleo e ao gás russos para impulsionar a economia alemã em declínio, em uma entrevista à Reuters em junho.
Dmitriev esteve presente em uma reunião neste mês em Moscou com os representantes dos EUA Steve Witkoff e Jared Kushner.
Os organizadores esperavam que Witkoff e Kushner também participassem da reunião sobre gás, que examinaria a reabertura dos gasodutos russos Nord Stream, disse a fonte.
Uma autoridade graduada dos EUA disse à Reuters que Witkoff e Kushner não foram informados nem convidados para a cúpula proposta.
Qualquer encontro teria caráter simbólico, já que a AfD não faz parte do governo alemão. Mas os preparativos destacam a fragilidade do sistema político da Alemanha, onde a recusa de longa data dos partidos tradicionais em colaborar com a extrema-direita está sendo posta à prova pelo sucesso eleitoral da AfD.
A AfD acaba de conquistar uma grande vitória ao se tornar o maior partido em uma eleição estadual na Saxônia-Anhalt e enfrenta outro teste de popularidade no domingo, em uma eleição no Estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Os gasodutos russos Nord Stream entram na Alemanha nesse Estado.
A Câmara de Comércio norte-americana em Moscou acolheu a ideia como "um passo positivo e oportuno".
"Envolver a Alemanha, como uma economia europeia de destaque, pode criar uma plataforma mais ampla para discutir questões que são significativas tanto para esses países quanto para o resto do mundo", disse Robert Agee, presidente da AmCham Rússia.
A Alemanha tem enfrentado dificuldades para se recuperar do choque causado pelo fechamento dos principais gasodutos submarinos do Nord Stream, alguns dos quais foram danificados por explosões em setembro de 2022.
Mas qualquer esforço para retomar o fornecimento de gás russo ou a operação do Nord Stream encontraria forte resistência, tanto na Alemanha quanto entre seus aliados, especialmente na Europa Oriental.
"A Alemanha não pode voltar a depender da Rússia", disse Michael Kellner, deputado do Partido Verde que foi responsável pela política energética alemã no governo durante a crise desencadeada pelo corte do gás russo após a invasão da Ucrânia.
"Não podemos repetir os erros da crise energética", disse ele. "Isso nos custou 50 bilhões de euros. Não podemos querer voltar a isso. Seria traição. Putin está usando a AfD para seus próprios fins."
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