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Eleições na Bolívia: quem é Luis Arce, ex-ministro de Evo Morales apontado por projeções como novo presidente do país

'Cérebro' das reformas econômicas promovidas por Evo Morales, Luis Arce Catacora acompanhou ex-presidente durante boa parte de seus 14 anos de mandato.

19 out 2020
05h41
atualizado às 07h27
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O homem considerado "pupilo" de Evo Morales e que teve o ex-presidente como seu coordenador de campanha pode estar se tornando o novo mandatário da Bolívia, de acordo com os resultados iniciais da apuração dos votos da eleição de domingo (19/10).

 

De acordo com o resultado preliminar, Luis Arce Catacora, que é ex-ministro da Economia, teria obtido ampla vantagem, de mais de 52% dos votos contra 31% de seu principal adversário, o ex-presidente Carlos Mesa.

"Todos nós bolivianos demos passos importantes, recuperamos a democracia e a esperança", disse Arce, após ficar sabendo das primeiras projeções de resultados.

"De nossa parte, nosso compromisso, (é o) de trabalhar, de cumprir nosso programa, e vamos governar para todos os bolivianos."

Uma das figuras-chave durante anos nos diferentes governos de Evo Morales, Arce é visto como o arquiteto das reformas que levaram à decolagem econômica da Bolívia durante os anos do Movimento pelo Socialismo (MAS).

Na gestão do MAS, o país sul-americano conseguiu não só reduzir a inflação e viver um boom econômico, mas também reduziu significativamente a pobreza.

A caminho do governo

Nascido em 1963 em La Paz em uma família de professores, Arce estudou Economia na Bolívia, fez mestrado no Reino Unido e no retorno ao seu país começou a trabalhar como funcionário público no Banco Central da Bolívia (BCP), onde ocupou diferentes cargos.

Ele também se dedicou ao ensino e ministrou diversos cursos em universidades, incluindo Harvard, Columbia e a Universidade de Buenos Aires.

Em diferentes ocasiões, Arce destacou que, ao longo desse período, entre os anos 1980 e 1990, manteve suas ideias socialistas, apesar do consenso neoliberal prevalecente na política e na academia da Bolívia.

Por isso, o acadêmico fez parte de grupos de análise política, com diversas publicações em revistas especializadas.

Embora se declarasse de esquerda na época, ele não era considerado um marxista ortodoxo ou um militante comunista tradicional. Durante esses anos, ele foi dando cada vez mais importância ao estudo da macroeconomia.

Em seguida, ele colocaria essa experiência e essas ideias no programa de governo do partido, que, em 2005, colocou um plantador de coca no cargo mais importante do país.

Governo Morales

Apos à ascensão de Evo Morales ao poder, Arce foi nomeado em 2006 para chefiar o ministério da Fazenda, que foi rebatizado três anos depois de ministério da Economia e Finanças Públicas.

À frente do ministério, Arce promoveu medidas de incentivo ao mercado interno, estabilidade cambial e promoção de políticas de industrialização de recursos naturais.

Em um governo que contava com muitos políticos, o economista se preocupava com a estabilidade macroeconômica, o déficit fiscal e expansão das reservas internacionais. Já seus colegas de gabinete se dedicavam à crise política que Evo Morales enfrentou durante seus primeiros anos no cargo.

Mas talvez uma de suas medidas mais importantes e polêmicas tenha sido a série de "nacionalizações", principalmente no setor de hidrocarbonetos, cuja recuperação Arce considerou como um dos pilares da economia boliviana em todos esses anos.

Arce esteve com Evo Morales durante a maior parte de seu governo
Arce esteve com Evo Morales durante a maior parte de seu governo
Foto: EPA / BBC News Brasil

O aumento das reservas internacionais, a expansão da classe média e, sobretudo, o fato de o país estar entre os que mais cresciam na região, levaram o governo Morales a promover a ideia de "milagre econômico boliviano".

Essa narrativa foi rejeitada pela oposição da época e agora pelo governo de transição de Jeanine Áñez, que diz duvidar que a pobreza tenha realmente sido reduzida. A oposição afirma que Arce desperdiçou o momento em que houve maiores entradas de recursos na economia boliviana, quando os preços dos hidrocarbonetos e minerais estavam em alta.

Outro questionamento é que o governo anterior não cumpriu a promessa de diversificar a economia e industrializar os recursos naturais, mas depois de quase 14 anos deixou o país igualmente dependente de matérias-primas exportáveis.

A caminho da Presidência

Depois de sofrer um câncer renal, ele renunciou ao cargo de ministro em 2017 e, após uma longa recuperação no Brasil, voltou à Bolívia para retomar seu cargo, até a renúncia de Evo Morales, no ano passado.

Em janeiro, o MAS o nomeou como seu candidato presidencial (e o ex-chanceler David Choquehuanca como companheiro de chapa) para as eleições que estavam inicialmente programadas para maio e que depois foram adiadas para outubro devido à pandemia de coronavírus.

Sua indicação provocou questionamentos até dentro do partido, pelo fato de Arce ser oriundo da classe média urbana e não das organizações sindicais e camponesas que compõem grande parte das bases do MAS.

Na hora de anunciar o candidato, Evo Morales — que vive na Argentina desde a crise que forçou sua renúncia — destacou que Arce era o homem capaz de "garantir a economia nacional".

O ex-presidente lembrou das conquistas que atribui à gestão do ex-ministro, como o crescimento econômico, para embasar a decisão tomada.

Arce é visto como o 'cérebro' por trás do desenvolvimento econômico que a Bolívia viveu durante o governo Morales
Arce é visto como o 'cérebro' por trás do desenvolvimento econômico que a Bolívia viveu durante o governo Morales
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Como plano de governo, Arce tem defendido as empresas estatais, os recursos naturais do país, e diz querer voltar às taxas de crescimento que a Bolívia tinha quando era ministro da Economia.

Porém, seu perfil é bastante técnico e ele fez sua carreira à sombra de personagens bem mais carismáticos como Morales e o ex-vice-presidente Álvaro García Linera. Isso, segundo seus críticos, pode pesar contra ele.

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