Deputados iranianos se mobilizam para exigir respeito ao uso do véu islâmico
Mais da metade dos deputados do Parlamento iraniano pediu à Justiça que aja contra o que eles chamam de movimento organizado em favor do "desrespeito ao véu e da nudez", informou um veículo estatal nesta terça-feira (2). Embora a lei do país obrigue, desde 1979, todas as mulheres a cobrir totalmente os cabelos em público, muitas iranianas nas grandes cidades, especialmente em Teerã, agora saem sem véu. Algumas chegam a usar decotes ou roupas leves que deixam o umbigo à mostra, trajes inimagináveis há alguns anos.
Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, com agências
Dos 290 deputados do Parlamento iraniano, 155 assinaram uma carta destinada ao chefe do Poder Judiciário. Nela, eles denunciam a inação de alguns membros do governo e também da Justiça em fazer cumprir as regras vigentes para garantir o uso do véu. "Essa negligência favoreceu a nudez, o desrespeito ao véu e outros comportamentos anormais", escreveram na carta citada pela agência Icana. O termo "nudez" no Irã geralmente se refere a roupas consideradas inadequadas.
Figuras do clero e conservadores também se opõem firmemente ao que consideram a generalização da "nudez" e um avanço da influência ocidental, vista como uma ameaça. Nos últimos meses, as autoridades fecharam vários cafés e restaurantes por descumprimento da obrigatoriedade do véu ou por servir álcool, proibido no Irã.
O véu islâmico é obrigatório desde a Revolução Islâmica de 1979, e seu uso cristaliza tensões no país, especialmente desde os protestos que se seguiram, em 2022, à morte de Mahsa Amini. A jovem havia sido detida pela polícia da moral por usar um véu supostamente mal ajustado, em desacordo com o código de vestimenta vigente, e morreu durante a detenção. Desde então, em Teerã e também em outras regiões do país, vê-se cada vez mais mulheres sem véu, em sinal de protesto.
Presidente iraniano contesta véu obrigatório
Desde que assumiu o poder em julho de 2024, o presidente iraniano Massoud Pezeshkian afirma que "não se pode obrigar uma mulher a usar o véu". Há um ano, ele se recusou a promulgar uma lei aprovada pelo Parlamento que previa um endurecimento das penas contra mulheres que não usam o véu de forma correta.
Segundo uma fatwa (decreto religioso) de 2014 do guia supremo, o aiatolá Ali Khamenei, autoridade máxima no Irã, o véu tradicional deve ser usado de forma que apenas o contorno do rosto e as mãos fiquem visíveis. Mas o próprio gabinete do Guia tem sido alvo de críticas de ultraconservadores nos últimos dias, após a publicação em seu site de uma foto de uma iraniana sem véu, morta na guerra contra Israel em junho. Na imagem, a jovem aparece usando apenas um boné, com os cabelos à mostra.