Corina Machado desafia eixo Trump-Rodríguez ao querer voltar à Venezuela
Debates entre oposição e chavistas crescem; mas ninguém quer mais 'sangue'
A líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, anunciou sua intenção de retornar ao país "o quanto antes", após os terremotos que devastaram a nação na última semana.
"Chegou a hora de voltar. É meu dever estar ao lado do meu povo", disse Machado em entrevista à Fox News.
Com essa intenção, ela desafia, na prática, o eixo formado pelo governo americano de Donald Trump e da presidente interina de Caracas, Delcy Rodríguez, depois da captura do então chefe de Estado venezuelano pelos EUA, Nicolás Maduro, em janeiro.
Diante dos recentes fenômenos naturais que abalaram ainda mais a já frágil situação econômico-social no país, é provável que Machado perceba que o atual clima de unidade nacional na Venezuela possa consolidar a liderança de sua rival de longa data, adiar as eleições e tornar ainda mais distante qualquer perspectiva de transição política.
No entanto, seu retorno irritaria Washington. A relação entre Trump e Rodríguez ? já bem consolidada ao longo dos últimos meses ? fortaleceu-se ainda mais durante esses últimos dias dramáticos: os EUA foram os primeiros a chegar em peso para ajudar o governo chavista depois dos abalos sísmicos na quarta-feira (24). Seis meses após a captura de Maduro, helicópteros dos Fuzileiros Navais retornaram à Venezuela ? desta vez não para disparar, mas para remover escombros. Isso sem falar na ajuda financeira enviada pelos americanos a Caracas, avaliada em cerca de U$S 300 milhões.
Um apoio total de Washington, não apenas material, mas também político: em entrevista à Univision, o encarregado de negócios dos EUA na capital venezuelana, John M. Barrett, defendeu firmemente as ações do governo do país sul-americano diante da onda de críticas surgida nos últimos dias, refutando alegações de atrasos na entrega de ajuda e de minimização do número de mortos.
"O compromisso do governo venezuelano é total. As Forças Armadas da Venezuela estão trabalhando lado a lado com as dos EUA. A administração Rodríguez tem sido totalmente transparente em suas comunicações", afirmou Barrett.
Dito isso, as palavras de Machado agitaram o debate público na Venezuela: Indira Urbaneja, analista considerada muito próxima da presidente, chegou a anunciar que a líder da oposição já estaria em um país vizinho, buscando uma maneira de chegar a Caracas.
"Ao invés de mobilizar ajuda e doações, ela [Machado] vem aqui para montar um espetáculo, posicionando-se contra Trump e [o secretário de Estado americano, Marco] Rubio", acusou Urbaneja.
Segundo a Bloomberg, a última vencedora do Prêmio Nobel da Paz já havia tentado entrar no país nos últimos dias, mas sem sucesso. Alguns temem que sua chegada possa desencadear confrontos nas ruas.
Ao mesmo tempo, a realidade mostra que até mesmo ativistas do Vente Venezuela ? o partido de Machado ? estão se unindo aos esforços de toda a população para ajudar os desalojados diante da tragédia causada pelos fortes terremotos. E ninguém quer mais derramamento de sangue.
Por outro lado, cresce uma oposição genuína ao regime vinda da base: o descontentamento popular explode na internet ? um espaço que é, pela primeira vez, livre. Essa abertura foi concedida pelo governo devido à pressão pública que exigia informações sobre os mortos; no entanto, a situação agora parece ter escapado ao controle dos chavistas: muitos civis denunciaram policiais e militares, acusando-os de exigir dinheiro apenas para permitir que as famílias recuperassem os corpos de seus entes queridos.
A polêmica também envolveu a emissora estatal Venezolana TV, que vem exibindo entrevistas com ministros de Rodríguez em um ciclo repetitivo há dias. No YouTube, muitas pessoas têm criticado a cobertura jornalística deficiente.
"Por que só mostram ministros e a polícia, e não a tragédia em si? Vocês não estão entrevistando as pessoas", escreveu o usuário Miguel Guerrero.
Já Dolarcitos é direto: "Você não está entrevistando as pessoas para esconder o fato de que ninguém gosta do governo?".
Mas há também apoiadores da atual chefe de Estado interina.
"Devemos todos nos manter unidos, orar e estender a mão às nossas famílias afetadas por essa terrível tragédia. Este é um momento de unidade nacional, não de ódio", disse Gutierrez Moreno.
Elis Alexander faz coro a esse sentimento: "Como o governo pode ser culpado por um terremoto?".
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