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Falhas de construção e geografia de risco estão por trás da tragédia do terremoto na Venezuela

29 jun 2026 - 17h55
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Quando o falecido líder venezuelano Hugo Chávez construiu esse conjunto habitacional litorâneo que leva seu nome, ‌como parte de sua revolução socialista, os moradores encontraram uma nova oportunidade de recomeço depois que inundações mortais haviam devastado a região mais de uma década antes.

Mas depois que dois terremotos consecutivos destruíram partes do complexo de 1.100 unidades na quarta-feira, engenheiros estão pedindo ao governo venezuelano que faça rapidamente uma inspeção em conjuntos habitacionais públicos semelhantes que ainda estão de pé.

"Perdi meu apartamento inteiro", disse Yelsa Rojas, que desde 2015 morava no segundo andar do prédio conhecido coloquialmente como "Los Cocos", devido à sua proximidade com uma praia de mesmo nome.

"Acreditamos que todos no segundo andar estejam mortos", disse ela. A única razão pela qual ela está viva é porque estava em uma consulta médica quando os terremotos ocorreram, acrescentou.

Embora engenheiros e especialistas em construção tenham afirmado que ainda ⁠é cedo para determinar exatamente por que cada prédio desabou, décadas de negligência, falta de fiscalização das normas de construção e práticas de licenciamento precárias durante os governos de Chávez e de seu sucessor, ‌Nicolás Maduro, provavelmente agravaram o custo humano do desastre.

Eles também apontaram a instabilidade do solo no estado mais atingido, La Guaira, onde fica Los Cocos, o que torna o local especialmente arriscado para construções.

Enquanto equipes de resgate correm para encontrar pessoas soterradas nos escombros, engenheiros civis temem que outros prédios ainda possam estar vulneráveis após os terremotos e querem ajudar o governo a garantir que ‌eles estejam estruturalmente sólidos e que os moradores possam viver neles com segurança. Até o momento, o governo se ‌reuniu com a principal associação profissional de engenheiros do país, mas ainda não iniciou as avaliações, o que tem frustrado alguns.

SOB CRÍTICAS

"É criminoso que o governo não esteja aceitando as ⁠ofertas de engenheiros e universidades com mais rapidez", disse Enrique Larrañaga, arquiteto e urbanista da Universidade Simón Bolívar, que já prestou orientação ao governo sobre o desenvolvimento nacional.

O Ministério da Comunicação da Venezuela não respondeu a um pedido de comentário. No domingo, a presidente interina Delcy Rodríguez anunciou que estava formando uma comissão para avaliar as estruturas habitacionais danificadas. Ela não informou quando as avaliações teriam início.

O governo já vem sendo criticado por não ter mobilizado mais cedo os equipamentos pesados e as equipes de busca e resgate tão necessários. Isso deixou os moradores atuando por conta própria, usando as próprias mãos, pás e cordas enquanto se esforçavam para encontrar parentes nos primeiros dias cruciais após o desastre.

No sábado, a TV estatal mostrou equipamentos pesados de construção vasculhando os escombros de ‌tijolos e concreto. Moradores disseram que equipes de resgate estrangeiras os ajudaram a retirar corpos e pediram reforços.

Larrañaga disse que muitos empreendimentos, apressados pelo governo por motivos políticos, revelaram-se riscos à segurança ao longo ‌dos anos, enquanto o país também perdeu grande parte de seu ⁠conhecimento em engenharia durante o colapso econômico que começou ⁠em 2013.

"É preciso dar às pessoas que têm esse conhecimento acesso à informação e aos recursos", acrescentou ele.

SUSCEPTÍVEL À DESTRUIÇÃO

Como o governo ainda não iniciou suas próprias avaliações, engenheiros voluntários têm oferecido seus serviços aos ⁠cidadãos, disse Glennys Gonzalez, arquiteta e engenheira civil que coordena dezenas de profissionais.

A avaliação inicial dos danos feita por seu ‌grupo sugere que, em muitos casos, normas não foram respeitadas, ‌mas é preciso realizar estudos para determinar por que algumas estruturas resistiram ao impacto e outras desabaram completamente, disse Gonzalez.

La Guaira também foi palco de outro dos piores desastres naturais da Venezuela, quando deslizamentos de terra arrasaram comunidades costeiras inteiras em 1999, matando entre 10.000 e 30.000 pessoas.

Como as montanhas íngremes descem abruptamente até uma estreita faixa costeira na região, inundações e deslizamentos de terra tendem a se canalizar diretamente por áreas povoadas, disse Richard Casanova, diretor do Colégio de Engenheiros da Venezuela, a principal associação profissional que assessora o ⁠governo.

Essa geografia apresenta solo solto, acrescentou ele, tornando a região particularmente propensa à destruição durante os dois terremotos. Mais de 50.000 pessoas morreram na Turquia e na Síria quando foram atingidas por um fenômeno semelhante em 2023.

Cinco dias após os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5, autoridades venezuelanas confirmaram na segunda-feira pelo menos 1.719 mortos, 5.034 feridos e 15.866 desabrigados. Iniciativas lideradas por cidadãos para registrar os desaparecidos já coletaram quase 50.000 nomes.

CONTROLE DE QUALIDADE

Nicolás Labrópoulos, engenheiro civil e professor da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas, disse que a areia solta, o cascalho e os detritos sobre os quais La Guaira está situada podem fazer com que as ondas sísmicas se propaguem mais lentamente, mas ‌aumentem de intensidade, amplificando o tremor.

Preso entre as montanhas e o mar, o solo pode se tornar ainda mais fluido durante um terremoto, tornando a construção na região mais arriscada, disse Casanova.

Muitos empreendimentos privados na região também desabaram, provavelmente devido a uma combinação dessas mesmas fragilidades do solo, anos de corrosão e falta de controle de qualidade, acrescentou ele, observando que edifícios ⁠mais antigos também podem não ter sido adaptados para suportar tal impacto após o governo ter atualizado os códigos de construção na sequência do terremoto de 1967.

"É possível construir lá", disse ele, "mas é preciso realmente seguir normas rigorosas e, considerando como o governo tem lidado com a construção nas últimas duas décadas e meia, tenho minhas dúvidas em muitos casos."

Após a catástrofe de La Guaira em 1999, o governo atualizou as leis de construção e códigos de edificação, disse Casanova. Mas o problema na Venezuela não é o código, e sim a falta de fiscalização, afirmou ele.

O governo de Chávez começou a construir complexos como Los Cocos logo antes das eleições de 2012 no país, como parte de uma iniciativa para erguer milhões de unidades habitacionais baratas em todo o território nacional. Maduro deu continuidade ao projeto, ampliando o acesso à moradia para venezuelanos de baixa renda.

Mas, à medida que Chávez e, posteriormente, Maduro centralizaram o poder, as instituições enfraqueceram, assim como os controles de qualidade sobre novas construções e a manutenção das estruturas existentes, afirmam arquitetos e engenheiros.

Empreendimentos foram construídos rapidamente por uma combinação de órgãos estatais e empreiteiras da China, Turquia e Belarus, sob supervisão militar, mas com pouca divulgação pública, afirmaram Gonzalez e Casanova.

A falta de fiscalização das normas mais rigorosas em edifícios públicos também sinalizou às construtoras privadas que elas poderiam se safar ao economizar nos custos, disse Casanova, em contraste com países como o Chile, onde tais regras foram aplicadas com mais rigor e o número de mortos tem sido relativamente baixo.

Um terremoto de magnitude 8,8 no Chile, em 2010, matou cerca de 525 pessoas, um resultado amplamente atribuído a normas de construção rigorosas e bem aplicadas. Em contrapartida, um terremoto mais fraco, de magnitude 7,0, no Haiti, em 2010, matou centenas de milhares de pessoas.

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