Conselho de Paz de Trump pode ofuscar uma ONU em dificuldades?
Com o Conselho de Paz, Donald Trump prometeu 'pôr fim a décadas de sofrimento'. Mas seus críticos afirmam que o organismo é apenas um projeto do presidente para seu ego.
"Juntos, temos a oportunidade de [...] encerrar décadas de sofrimento, interromper gerações de ódio e banhos de sangue e construir uma paz bela, duradoura e gloriosa para aquela região e para todo o mundo."
Esta foi a ambiciosa promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao inaugurar nesta semana o novo Conselho de Paz durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.
Mas, para muitos observadores e autoridades de todo o mundo, trata-se de mais uma prova da disposição de Trump de desmantelar a ordem internacional pós-Segunda Guerra e substituí-la por novas instituições, dominadas por ele.
"Não deixaremos ninguém nos manipular", alertou sucintamente o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, nas redes sociais.
Mas a proposta recebeu elogios efusivos do maior apoiador de Trump na Europa — o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán: "Se for Trump, então haverá paz".
O que, exatamente, irá fazer este Conselho, que tem o próprio Trump como seu presidente vitalício? Esta poderá ser realmente uma proposta de construir uma miniatura da ONU?
O poder do presidente do Conselho
A ideia nasceu no ano passado, durante as tentativas lideradas pelos Estados Unidos para pôr fim à guerra na Faixa de Gaza, endossadas por uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Agora, o Conselho de Paz tem uma ambição mais global, maior, muito mais grandiosa. E ele gira em torno do presidente americano.
Detalhes que vazaram do rascunho do seu estatuto dizem que Trump é o presidente vitalício do Conselho, mesmo quando deixar o cargo de presidente dos Estados Unidos.
Seus poderes, segundo o estatuto, seriam amplos: autoridade para convidar ou não Estados membros; criar ou dissolver organismos subsidiários; e o poder de indicar seu sucessor quando decidir deixar o cargo ou se ficar incapacitado de prosseguir.
Se qualquer outro país quiser se tornar um membro permanente, o preço é exorbitante: US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões).
Esta última bomba chega em um mês que já era alucinante.
Em poucas semanas, tivemos a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, as ameaças de Trump e as preparações de ações militares contra o Irã e sua exigência de comprar a Groenlândia, que disparou ondas de choque por toda a Europa e além.
Compareceram a Davos 19 países para a inauguração do Conselho de Paz. Eles vieram de todos os cantos do mundo — da Argentina ao Azerbaijão, de ex-repúblicas soviéticas até os reinos do Golfo. E o que se comenta é que muitos outros já "concordaram em fazer parte".
"Gosto de cada um deles neste grupo", disse Trump, sorrindo, enquanto olhava para os líderes e autoridades cujos nomes estão agora no Conselho ou nos seus órgãos executivos subordinados.
Muitos outros possíveis membros delicadamente declinaram.
"Este é um tratado que levanta questões muito mais amplas e também temos preocupações com a participação do presidente Putin em algo que fala de paz", explicou a ministra das Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper.
O governo brasileiro, até agora, não se manifestou oficialmente sobre o assunto.
Diplomatas com conhecimento do assunto confirmaram à BBC News Brasil que o governo recebeu o convite e que o país está realizando consultas internas e junto aos seus aliados sobre se irá ou não aceitar o convite do presidente Trump, mas que ainda não há prazo para que o Brasil se manifeste sobre o tema.
Trump afirma que a Rússia fará parte, mas a mensagem de Moscou indica que eles ainda estão "consultando aliados".
"Com o texto vigente atual", não iremos entrar, respondeu a Suécia.
"A proposta levanta questões não respondidas que exigem mais diálogos com Washington", foi a diplomática resposta da Noruega.
Até um grupo de sete países predominantemente muçulmanos, incluindo seis nações árabes, além da Turquia e da Indonésia, deixou claro que eles entram no Conselho por uma "paz justa e duradoura em Gaza", incluindo a reconstrução do território destruído.
Mas os detalhes que vazaram do estatuto do Conselho não mencionam a Faixa de Gaza.
Parte dos críticos, incluindo alguns dos países que relutam a entrar para o Conselho, defende que este é um projeto criado para a vanglória de um presidente que não esconde sua obsessão de ganhar a mais alta distinção — o Prêmio Nobel da Paz, vencido pelo ex-presidente americano Barack Obama em 2009, no início do seu primeiro mandato na Casa Branca.
Os líderes mundiais sabem que pode haver um preço a pagar por não entrar neste novo clube.
"Colocarei uma tarifa de 200% sobre seus vinhos e champanhes e ele irá entrar, mas ele não precisa entrar", foi a reprimenda de Trump ao presidente francês, Emmanuel Macron, ameaçando empunhar sua arma preferida.
Apenas a Eslovênia disse em voz alta o que outros mantiveram em silêncio. Seu primeiro-ministro, Robert Golob, deixou sua preocupação clara, afirmando que o Conselho de Paz "interfere perigosamente na ordem internacional como um todo".
Trump respondeu a este questionamento de cabeça erguida.
"Quando este Conselho estiver completamente formado, poderemos basicamente fazer o que quisermos, e faremos em conjunto com as Nações Unidas", explicou ele ao salão lotado, ponderando cada palavra.
Mas ele gosta de manter o mundo na incerteza.
Um dia antes, questionado por um jornalista da rede de TV americana Fox se o seu Conselho substituiria as Nações Unidas, Trump respondeu: "Bem, talvez. A ONU não tem sido de muita ajuda".
Ele acrescentou em seguida: "Sou um grande admirador do potencial das Nações Unidas, mas ela nunca utilizou seu potencial. A ONU deveria ter posto fim a cada uma das guerras que eu concluí".
Novo concorrente ao cargo de pacificador-chefe?
Com seus 193 membros, a ONU, de fato, perdeu há muito tempo seu papel como "pacificador-chefe".
Em 2016, entrevistei o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, no primeiro dia do seu primeiro mandato, poucas horas depois de uma rara aprovação unânime do Conselho de Segurança.
Ele prometeu "uma escalada da diplomacia pela paz".
Na última década, os esforços das Nações Unidas foram bloqueados pelo travado Conselho de Segurança, pelo número cada vez maior de organizações e Estados que promovem guerras em todo o mundo e pela constante deterioração da sua própria posição em relação aos países mais poderosos do mundo, incluindo os Estados Unidos.
"Todos nós precisamos aplaudir as iniciativas de Trump para pôr fim às guerras", declarou Martin Griffiths, veterano das Nações Unidas. Ele acredita que esta nova tentativa é "obviamente, um reflexo do fracasso do Conselho de Segurança da ONU e das Nações Unidas como um todo".
Griffiths foi vice-secretário-geral de assuntos humanitários e coordenador de assistência emergencial. Ele alerta que "o que aprendemos ao longo destes últimos 80 anos, com muitos fracassos e inépcia, foi o valor da inclusão, de representar a comunidade global, não apenas os amigos de Trump".
O próprio Guterres lamentou recentemente que existam "pessoas que acreditam que o poder da lei deva ser substituído pela lei do poder".
Questionado em entrevista ao programa de TV Today, da BBC, sobre as constantes afirmações de Trump de ter posto fim a oito guerras, ele respondeu de forma muito prática: "São cessar-fogos".
E alguns deles já foram rompidos.
O acordo de paz temporário entre Ruanda e a República Democrática do Congo foi rompido logo em seguida. O Camboja e a Tailândia começaram a trocar acusações e muito mais pelas suas fronteiras. E a Índia contesta o papel central de Trump para o fim do seu conflito com o Paquistão.
Mas a firme mediação de Trump, sozinha, poderá ter posto fim à guerra de 12 dias entre o Irã e Israel.
Seu envolvimento pessoal também garantiu finalmente, em outubro passado, um cessar-fogo no destrutivo confronto na Faixa de Gaza reduzindo o sofrimento dos palestinos e a agonia dos reféns israelenses.
Sua decisão de se concentrar por completo neste desastre, parcialmente em resposta aos pedidos dos seus aliados árabes próximos e das famílias israelenses enlutadas, o levou a pressionar o Hamas e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a chegar a um acordo.
Mas até o primeiro teste do Conselho de Paz (avançar da primeira fase do acordo para pôr fim à guerra em Gaza) é assustador.
Mesmo agora, quando começa lentamente a tomar forma, o novo Conselho inclui Netanyahu, que se comprometeu a impedir o estabelecimento de um Estado palestino, e líderes árabes que insistem que o único caminho para uma paz sustentável deve levar à autogovernança palestina e ao fim da ocupação israelense.
E a outra grande guerra na agenda da Europa e dos Estados Unidos é a Ucrânia. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, hesitou a se sentar à mesma mesa que a Rússia e Belarus.
Três organismos se enfileiram abaixo do Conselho, dois deles dedicados especificamente à Faixa de Gaza: um Conselho Executivo, um Conselho Executivo de Gaza e o Comitê Nacional para o Governo de Gaza.
Eles reúnem uma mescla de altos oficiais americanos, bilionários e respeitados ex-políticos e ex-enviados da ONU que conhecem bem o território. Ao lado deles, ministros e chefes de inteligência árabes, além de tecnocratas palestinos.
Até alguns críticos dão crédito ao presidente Trump por ter colocado sobre a mesa uma antiga e diferente batalha: a incessante exigência de reforma da arquitetura da ONU construída no pós-guerra, incluindo seu Conselho de Segurança atualmente desalinhado com o mapa político das principais potências em cada região do mundo.
O Conselho de Segurança da ONU simplesmente é inadequado para o fim a que se destina.
"Talvez uma boa consequência inesperada das ações de Trump é que estas questões serão levadas para o topo da agenda internacional", refletiu o ex-vice-secretário-geral da ONU Mark Malloch Brown.
Para ele, "estamos saindo de um período de liderança extremamente fraca das Nações Unidas e acho que este poderá ser um chamado à ação".
Ironicamente, a proposta de Trump de liderar o mundo em direção à paz surge enquanto aumentam as discussões em muitos países sobre a substituição de Guterres, que termina seu segundo mandato no final deste ano.
O presidente americano, que antes declarava que poderia encerrar a guerra na Ucrânia em um dia, aprendeu, no seu último ano no poder, que a construção da paz é um processo prolongado e perigoso.
Mas, esta semana, ele exaltou uma região do Oriente Médio onde, agora, há apenas "pequenos incêndios". E prometeu que o acordo de paz na Ucrânia "está por vir, muito em breve".
E Trump se divertiu com seu novo cargo como possível pacificador-chefe.
"Isso é para o mundo", exclamou ele.