Como Festival de Cannes de 2026 reflete o mundo em conflito
Edição deste ano é marcada por filmes que revisitam guerras passadas espelhando o atual avanço do autoritarismo e os conflitos contemporâneos.O Festival de Cinema de Cannes de 2026, ao que parece, está com a guerra na cabeça. Um número extraordinário de filmes na edição deste ano tratou da experiência de viver em tempos de conflitos. O evento se encerra neste sábado (23/05), com a entrega da Palma de Ouro, prêmio principal do festival.
No drama belga sobre a Primeira Guerra Mundial, Coward, de Lukas Dhont, jovens soldados nas trincheiras confrontam ideias de heroísmo e masculinidade.
Visitation, o mais recente filme de Volker Schlöndorff (de O Tambor, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 1980 e da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1979), continua a obsessão do diretor alemão com a Segunda Guerra Mundial e suas consequências, acompanhando o destino de três famílias que vivem à beira de um lago perto de Berlim ao longo de décadas de história turbulenta - da ascensão de Hitler até a queda do Muro de Berlim.
Há dois filmes franceses - Moulin e De Gaulle: Tilting Iron - sobre a resistência francesa à ocupação nazista, enquanto outro filme, A Man of His Time (coprodução entre França e Bélgica), aborda de forma rara a colaboração francesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Mas, diferentemente do que pode parecer em uma primeira impressão, esses filmes, como todos os filmes históricos, falam, na verdade, sobre o presente. A ascensão da extrema direita em toda a Europa tem assustado os cineastas europeus, que olham para o passado em busca de respostas para contar histórias sobre como uma nação sucumbe ao fascismo e como as pessoas se comportam sob regimes autoritários: algumas com coragem e heroísmo, outras de forma covarde e oportunista.
Esses filmes também refletem sobre os danos que a guerra causa à psique, sobre o trauma histórico imposto tanto àqueles que participam da violência quanto àqueles que desviam o olhar.
Uma abordagem moderna e original da história
Entre os filmes de guerra, A Man of His Time, do diretor Emmanuel Marre, é o mais original e impactante. Apesar de ser, à primeira vista, um filme de época, ele é filmado como uma produção independente moderna, com personagens na faixa dos 20 anos vestindo figurinos antigos, mas falando e se comportando como membros da Geração Z enquanto se submetem à autoridade nazista para subir na vida.
Swann Arlaud, que interpretou o advogado de Sandra Hüller no filme francês indicado ao Oscar Anatomia de uma Queda (vencedor da Palma de Ouro em 2023), dá vida a um autor desconhecido e oportunista, decidido a construir uma carreira dentro da burocracia nazista. Marre baseou o personagem em seu próprio bisavô, que escolheu trabalhar para o regime fascista de Vichy (governo autoritário que existiu na França durante a Segunda Guerra Mundial, entre 1940 e 1944).
A abordagem contemporânea do diretor pode ser desconcertante - com músicas dos anos 1980, como Life is Life, da banda Opus, ou Sounds Like a Melody, do Alphaville, sobre imagens dos anos 1940 -, mas sua mensagem sobre a banalidade e a maldade nunca foi tão atual.
Thomas e Erika Mann em uma viagem após o Holocausto
Fatherland, de Pawel Pawlikowski, é um filme pós-guerra. O drama em língua alemã do diretor polonês de Ida (2013) e Guerra Fria (2018) acompanha o escritor alemão Thomas Mann, vencedor do Nobel em 1929, e sua filha Erika Mann, romancista e ativista antifascista, em uma viagem por uma Alemanha dividida durante a Guerra Fria.
Thomas Mann busca consolidar seu legado literário na "nova Alemanha" (tanto no Leste quanto no Oeste), defendendo que a beleza da arte e da literatura alemãs pode sobreviver aos horrores do Holocausto. Já Erika acredita que as frases bem elaboradas do pai são apenas uma forma de encobrir a realidade desagradável de uma civilização que se tornou monstruosa.
Um thriller sobre corrupção na Rússia de Putin
Minotaur, do diretor russo exilado Andrey Zvyagintsev, é um dos poucos filmes em Cannes este ano que encara diretamente um conflito contemporâneo.
O thriller político acompanha, aparentemente, um empresário corrupto que descobre a infidelidade de sua esposa e decide encontrar o amante dela para confrontá-lo (trata-se de uma adaptação livre do filme francês A Mulher Infiel, de Claude Chabrol, de 1969).
No entanto, a história se desenrola no contexto da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. O empresário é encarregado de fornecer homens de sua empresa para o recrutamento militar, sabendo que serão enviados como "carne de canhão". Ele já tem sangue nas mãos muito antes de encontrar o amante da esposa e - em uma sequência cinematográfica brutal, mas virtuosa, digna de Hitchcock - assassiná-lo.
Na Rússia de Putin, uma simples conversa com o prefeito basta para encobrir a investigação do crime. O executivo retorna à sua vida confortável, enquanto sua esposa permanece presa - assim como outros cidadãos russos, sugere Zvyagintsev - ao domínio patriarcal.
Minotaur é o primeiro filme de Zvyagintsev feito fora da Rússia e o primeiro desde sua recuperação de um caso quase fatal de covid-19, que o deixou internado em um hospital em Hannover, na Alemanha, com 90% dos pulmões comprometidos e incapaz de se mover ou sentir os membros por meses. Também é sua obra mais explicitamente política.
Qualquer pessoa que não tenha percebido as críticas mais sutis à corrupção institucional nos filmes anteriores do diretor - Leviatã (2014) e Sem Amor (2017) - precisará de cegueira deliberada para não notar seu ataque direto ao regime de Putin aqui, bem como a cumplicidade de quem dentro do país prefere ignorar os crimes cometidos em seu nome.
Foi um dos filmes mais poderosos e importantes apresentados em Cannes este ano, e o principal candidato à Palma de Ouro.
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