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Como é passar o Natal na Antártica

Quatro britânicas relatam à BBC rotina em Port Lockroy, cerca de 1.466 quilômetros ao sul das Ilhas Malvinas.

24 dez 2022 - 14h13
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Quando a britânica Clare Ballantyne chegou ao lugar que ela chamaria de lar pelos próximos cinco meses, o encontrou coberto de neve. "Nos aquecemos muito rapidamente cavando muito", diz ela com um sorriso no rosto.

Clare foi escolhida junto com outras três mulheres, Mairi Hilton, Lucy Bruzzone e Natalie Corbett, para cuidar do remoto porto de Port Lockroy, cerca de 1.466 quilômetros ao sul das Ilhas Malvinas.

Elas superaram milhares de candidatos que também se inscreveram para administrar a base durante o verão antártico para o Fundo do Patrimônio Antártico do Reino Unido, que ajuda a conservar locais históricos e monumentos britânicos na Península Antártica.

O que antes era uma base militar britânica e uma estação de pesquisa hoje consiste em uma agência dos correios, museu e loja de souvenires.

A equipe dá as boas-vindas aos navios de cruzeiro que passam e monitora a população da ilha de cerca de 1 mil pinguins-gentoo.

Falar com as mulheres é extremamente difícil, mas Clare e Mairi conseguiram relatar à BBC sua experiência por meio de uma linha telefônica via satélite irregular.

"Retiramos a neve do acesso aos edifícios, certificando-nos de que os painéis solares estão desbloqueados e funcionando, temos água e gás suficientes e estamos seguras para ficar na ilha", diz Clare.

A Marinha Real Britânica veio ajudar a equipe a consertar o telhado do museu, que havia sido danificado pelo peso da neve. Clare se lembra da época em que os marinheiros partiram e a equipe ficou sozinha na ilha, cercada apenas por pinguins e icebergs flutuando silenciosamente no canal. "Foi simplesmente incrível", diz ela.

Pinguins-gentoo são espécie comum em Port Lockroy
Pinguins-gentoo são espécie comum em Port Lockroy
Foto: Lucy Bruzzone/UKAHT / BBC News Brasil

A função de Clare, como agente dos Correios, é enviar os postais dos turistas que visitam a ilha para países ao redor do mundo.

"A correspondência que envio daqui leva cerca de quatro semanas para chegar ao Reino Unido", explica. 

A equipe está em Port Lockroy há várias semanas e estabeleceu uma rotina bem exaustiva. 

"Acordamos às 7h", diz Mairi, responsável por monitorar a vida selvagem. "Tomamos café da manhã e descemos para tirar a neve do local aonde chegam os viajantes."

"Temos um cruzeiro pela manhã. Os turistas vêm visitar o museu, a loja e ver os pinguins. Depois almoçamos e um segundo grupo de turistas chega à tarde até as 18h. À noite jantamos, supervisionamos os pinguins e fazemos qualquer outra tarefa que seja necessária", acrescenta.

Relação simbiótica

Port Lockroy é o destino turístico mais popular da Antártica, com cerca de 18 mil visitantes por ano. Mas é uma relação simbiótica: a equipe depende muito da ajuda dos barcos que passam.

Clare despacha correspondência dos Correios mais ao sul do mundo
Clare despacha correspondência dos Correios mais ao sul do mundo
Foto: Lucy Bruzzone/UKAHT / BBC News Brasil

 "Não temos água corrente, então pegamos nossa água potável nos navios de cruzeiro", diz Mairi, "e tomamos banho lá também".

"Recebemos frutas, legumes e pão frescos dos navios que visitam. As tripulações cuidam muito bem de nós", acrescenta Clare.

Como não há conexão de internet em Port Lockroy, a principal forma de a equipe manter contato com suas famílias e acompanhar o que está acontecendo no mundo exterior é usando o Wi-Fi dos navios.

E embora tenham recebido treinamento em primeiros socorros, se precisarem consultar um médico, têm que esperar por um a bordo dos navios visitantes.

Mas nem sempre é tão simples. A imprevisibilidade do clima antártico pode, de repente, manter a equipe isolada por dias.

"Você nunca sabe o que vai acontecer", diz Clare. "Você não sabe se um barco está chegando de manhã, se vai haver uma tempestade. Você tem que ser muito flexível."

Mesmo assim, e apesar dos desafios, elas ainda estão maravilhadas com o que as rodeia.

"Todas as manhãs, quando você sobe os degraus cheios de neve do edifício, as montanhas e os icebergs no canal ao nosso redor, é simplesmente lindo… Ver os pinguins faz você sorrir", assinala Clare.

Clare e Mairi em Port Lockroy com suas câmeras
Clare e Mairi em Port Lockroy com suas câmeras
Foto: Luzy Bruzzone/UKAHT / BBC News Brasil

Questionada sobre como é viver em meio aos pinguins, Mairi diz: "Não são tão barulhentos quanto esperava. São realmente bons vizinhos, e é muito divertido assisti-los."

A principal tarefa da equipe em relação à fauna é contar os ovos que costumam ser postos nesta época do ano, embora Mairi afirme que a mudança nas condições climáticas parece ter atrasado a época de reprodução.

"Há muita neve e também não temos gelo marinho fixo na baía, o que é incomum. Os ovos de pinguim não sobreviverão se forem postos na neve, então, se continuarmos tendo esses invernos mais quentes e amenos, isso prejudicará os pinguins."

Clare e Mairi dizem que ainda não tiveram muito tempo livre, mas estão tentando aproveitar cada momento que passam na ilha.

E o Natal?

"Tiraremos o dia de folga", diz Mairi. "Vamos fazer um pudim de Natal, mince pies (doce tradicional britânico) e biscoitos de gengibre. Vamos apenas relaxar, cear, enfim, fazer muitas coisas que você normalmente faria em casa, só que na Antártica", conclui.

- Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-64087369

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