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Como a nova missão da Nasa à Lua pode beneficiar Trump

Alguns especialistas avaliam que a missão Artemis 2 poderia replicar o que aconteceu durante os primeiros passos do homem na Lua, quando uma onda de "orgulho nacional" tomou conta dos EUA num período difícil da história

1 abr 2026 - 15h06
(atualizado às 15h37)
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Astronautas chegam ao local de lançamento da missão Artemis 2 na Flórida
Astronautas chegam ao local de lançamento da missão Artemis 2 na Flórida
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A primeira viagem ao espaço profundo - muito além da órbita da Terra - desde 1972 ocorre em um momento crucial da Presidência do americano Donald Trump.

Os Estados Unidos estão profundamente divididos em temas que vão dos ataques americanos em curso no Irã à imigração e economia.

Assim, uma bem-sucedida missão Artemis, que enviará quatro astronautas à Lua nesta quarta-feira (1º/4), pode dar impulso ao governo Trump.

Os benefícios potenciais são grandes: uma vantagem competitiva em relação à China, a possibilidade de uma corrida por recursos lunares e um raro momento de unidade nacional.

Oficialmente, a missão — que levará a tripulação mais longe no espaço do que qualquer pessoa já foi — é um passo intermediário, segundo a Nasa (agência espacial americana), rumo a uma base lunar permanente e, eventualmente, ao planeta Marte.

'Estrelas e listras no planeta Marte'

Embora o interesse dos EUA em retornar à Lua seja anterior à sua entrada na política, Trump criou diretamente o que viria a ser o programa Artemis em seu primeiro mandato (2017-2021), ao prometer "lançar astronautas americanos para fincar estrelas e listras (em referência a bandeira americana) no planeta Marte".

Ele também viu oportunidades militares e criou um novo braço do Pentágono, a Força Espacial.

Em seu segundo mandato, no entanto, o objetivo de Trump mudou para a Lua. Em dezembro do ano passado, ele assinou uma ordem executiva que prevê o retorno dos EUA à Lua até 2028 e o estabelecimento de uma base permanente no local até 2030.

A ordem afirma que a superioridade americana no espaço é uma medida da visão nacional e da força de vontade do país, contribuindo para sua força, segurança e prosperidade.

A ordem executiva não mencionou a concorrência lunar com a China, um fator que o administrador da Nasa, Jared Isaacman, destacou publicamente.

"Nos encontramos diante de um verdadeiro rival geopolítico, que desafia a liderança americana na disputa pela supremacia espacial", disse Isaacman em um evento da Nasa em 24 de março.

"Desta vez, o objetivo não são bandeiras e pegadas", acrescentou. "Desta vez, o objetivo é permanecer. Os EUA nunca mais abrirão mão da Lua."

Batalha por influência ideológica na Terra

Durante a corrida espacial na Guerra Fria (1947-1991) com os soviéticos, o objetivo de chegar à Lua era quase inteiramente geopolítico.

Com os EUA e a Rússia envolvidos em uma disputa por influência ideológica na Terra, o espaço se tornou mais uma arena para demonstrar superioridade tecnológica, algo que, para os EUA, se tornou cada vez mais urgente após o lançamento soviético do Sputnik, em 1957 — o primeiro satélite do mundo — causar impacto no país.

O lançamento soviético do Sputnik em 1957 — o primeiro satélite do mundo — foi um alerta para os EUA
O lançamento soviético do Sputnik em 1957 — o primeiro satélite do mundo — foi um alerta para os EUA
Foto: Universal History Archive/Universal Images Group via Getty Images / BBC News Brasil

O então presidente dos EUA, John F. Kennedy, tornou a missão explicitamente política, tanto em público quanto em privado.

"Isso é importante por razões políticas", disse Kennedy em uma conversa gravada na Casa Branca em 1962, posteriormente desclassificada, com o administrador da Nasa, James Webb. "Isso é, gostemos ou não, uma corrida."

Corrida espacial com a China

A nova corrida pela Lua envolve os EUA e a China, além dos planos em constante mudança para colocar astronautas na superfície lunar nos próximos anos.

A exploração da Lua pode ter um ângulo econômico potencialmente lucrativo num momento em que os dois países travam disputas comerciais.

Sean O'Keefe, ex-gestor da Nasa, afirmou à BBC que os países que pousarem na Lua terão a vantagem de explorar e desenvolver os recursos disponíveis.

"Depois de todos esses anos pensando que a Lua não passava de um monte de poeira, nós entendemos que ela tem uma quantidade enorme de hélio-3", disse O'Keefe, acrescentando que o elemento pode ser potencialmente usado para operar compactos reatores nucleares com uma certa durabilidade.

"Isso abre uma série de oportunidades."

Além disso, a Lua tem água em estado sólido, o que pode ser usado para foguetes de propulsão, e também tem terras raras como lítio, platina e outros materiais essenciais para eletrônicos e tecnologias de energia limpa.

No planeta Terra, o mercado de terras raras é dominado pelas operações chinesas de mineração, algo tido como um ponto de preocupação do governo Trump.

O valor desses recursos disponíveis na Lua ainda não foi calculado, mas pode ser gigantesco. O hélio-3 sozinho atualmente é negociado por mais de US$ 20 mil por grama (cerca de R$ 103 mil), sendo um dos recursos mais valiosos da Terra.

'Corrida ao ouro na Lua'

Clayton Swope, veterano do Diretório de Ciência e Tecnologia da CIA (agência de inteligência dos EUA) e ex-conselheiro de assuntos espaciais no Congresso americano, compara a "corrida ao ouro na Lua" à expedição de Lewis, Clark e Sacagawea pelo Oeste americano no início dos anos 1800.

"Nós não sabíamos direito o valor da porção ocidental dos EUA, do Noroeste-Pacífico, mas nós sabíamos que estavam lá", afirma Swope.

"Parte da missão lunar é tentar descobrir o valor daquilo. Nós não podemos colocar um preço ou um punhado de dólares na Lua, mas não podemos escapar da competição e da rivalidade com a China."

O governo Trump certamente vê o espaço como outra arena para os EUA exercerem seu domínio.

"Sob as políticas de 'América Primeiro' do presidente Trump, os EUA vão liderar a humanidade no espaço e entrar em uma nova era de feitos transformadores na tecnologia e na exploração espacial", afirma Liz Huston, porta-voz do governo americano.

A geração de Trump cresceu em meio às imagens do astronauta Neil Armstrong dando em julho de 1969 os históricos primeiros passos na Lua, que também estão marcados na consciência coletiva.

A geração de Trump cresceu com imagens do astronauta Neil Armstrong dando seus históricos primeiros passos na Lua em julho de 1969
A geração de Trump cresceu com imagens do astronauta Neil Armstrong dando seus históricos primeiros passos na Lua em julho de 1969
Foto: NASA/Newsmakers / BBC News Brasil

Em 1969, os EUA viviam um período conturbado.

Soldados americanos lutavam e morriam numa impopular guerra no Vietnã. Havia tensões relacionadas à luta por direitos civis. Os assassinatos do reverendo Martin Luther King e do político Robert Kennedy ainda eram sentidos pelo país. E a divisiva figura de Richard Nixon ainda ocupava a Casa Branca.

Apesar das divisões políticas, estima-se que algo entre 125 milhões e 150 milhões de americanos tenham assistido ao pouso da Apollo 11 na Lua, num raro momento de orgulho nacional num período difícil da história americana. A população dos EUA estimada em 1969 era de 202 milhões de pessoas.

Gráfico resume como será missão artemis
Gráfico resume como será missão artemis
Foto: BBC News Brasil
Foguete e nave da missão artemis
Foguete e nave da missão artemis
Foto: BBC News Brasil

Orgulho nacional

Alguns especialistas afirmam que a missão Artemis poderia replicar isso em 2026, num momento em que os americanos estão novamente polarizados e em guerra com outro país.

"O espaço é uma das poucas áreas que americanos com diferentes visões políticas pode curtir e assistir juntos", diz Esther Brimmer, pesquisadora sênior especialista em políticas para o espaço do think tank (centro de estudos e debates) Council of Foreign Relations.

"O programa espacial é algo com que muitos americanos cresceram e que é visto como um ponto de orgulho", acrescenta Brimmer. "É bastante unificador em termos de impacto social."

"O programa espacial é algo com o qual a maioria dos americanos cresceu e vê como motivo de orgulho", disse Esther Brimmer, pesquisadora sênior no Council on Foreign Relations
"O programa espacial é algo com o qual a maioria dos americanos cresceu e vê como motivo de orgulho", disse Esther Brimmer, pesquisadora sênior no Council on Foreign Relations
Foto: Joe Raedle/Getty Images / BBC News Brasil

O astrofísico David Gerdes tinha cinco anos quando Armstrong caminhou na Lua.

"Uma das minhas primeiras memórias é terem me deixado ficar acordado além da minha hora habitual de dormir, cochilando sob um cobertor em frente à nossa TV em preto e branco, assistindo Walter Cronkite reportando o pouso da Apollo 11", conta Gerdes, atualmente professor na Case Western Reserve University, em Ohio, nos EUA.

"Muitas e muitas pessoas de todas as idades foram inspiradas pela tecnologia, pela bravura e pelo espírito dos astronautas."

Por um momento, Gerdes acrescenta, aquilo transcendeu divisões partidárias.

"De fato, eu espero que o retorno à Lua por um grupo mais diverso de americanos do que aqueles que participaram da missão na década de 1960 possa realmente ajudar a unir o país."

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