Como a guerra no Oriente Médio corrói o apoio árabe aos Estados Unidos
A guerra no Oriente Médio tem abalado o apoio aos Estados Unidos no mundo árabe. O tema é destaque nas revistas semanais francesas, que apontam uma mudança de preferência dessas populações em direção aos grandes rivais de Washington: China, Irã e Rússia.
A revista L'Express publica os resultados de pesquisas realizadas pelo Barômetro Árabe, que estuda a opinião pública no mundo árabe desde 2006. Essa mudança começou a se intensificar após a guerra devastadora conduzida por Israel, com apoio dos Estados Unidos, na Faixa de Gaza, e se prolonga até hoje. Segundo o levantamento, os habitantes do Oriente Médio "perderam quase toda a confiança na ordem regional dirigida por Washington".
Embora muitos países do Golfo Pérsico continuem a considerar o programa nuclear iraniano uma ameaça, a guerra iniciada por Israel e pelos EUA contra Teerã intensifica o sentimento antiamericano na região. Nesse contexto, colaborar abertamente com Washington pode se transformar em fonte de protestos, algo que os dirigentes autoritários do mundo árabe detestam. Ainda segundo a reportagem, com os ataques ao Irã, os Estados Unidos passam a perder a imagem de defensores dos direitos humanos.
A revista Le Point dedica uma reportagem ao sultanato de Omã, que já foi considerado a Suíça do Oriente Médio por seu papel histórico de mediador em conflitos. Foi em Mascate, por exemplo, que o enviado dos Estados Unidos, Steve Witkoff, e o genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner, se reuniram indiretamente com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em abril de 2025. O apoio americano à guerra lançada por Israel, em junho de 2025, alterou profundamente o cenário diplomático. "Omã se sentiu insultado por Trump", afirma Abdullah Baabood, professor de relações internacionais da Universidade Waseda, em Tóquio, ouvido pela revista.
Já a Le Nouvel Obs, que chega às bancas, analisa as tentativas de acordo entre os Estados Unidos e Teerã, com mediação do Paquistão. Segundo a revista, Donald Trump teria sido convencido pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, a tentar derrubar um governo que estaria "enfraquecido após a primeira guerra de doze dias", em junho de 2025. Apesar das reservas do secretário de Estado Marco Rubio, Trump apostou que o regime iraniano, no poder desde 1979, cairia facilmente após bombardeios. Quarenta dias depois, a realidade sugere que o presidente pode ter se equivocado ao envolver os Estados Unidos em um conflito sem precedentes desde a invasão do Iraque, em 2003. O Irã, por sua vez, pode sair fortalecido ao ampliar a instabilidade regional e ao bloquear o Estreito de Ormuz, o que tem impacto na economia internacional, levando as monarquias do Golfo a pressionar Washington. O resultado é uma erosão acelerada do prestígio americano no mundo árabe, em um momento de profundas recomposições geopolíticas no Oriente Médio.
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