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Com ou sem cessar-fogo, guerra já redesenha o Oriente Médio

Editor da BBC explica que consequências a longo prazo da guerra vão repercutir por todo o Oriente Médio; as ricas monarquias árabes, por exemplo, estão reavaliando sua aliança com os EUA.

10 abr 2026 - 08h08
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Netanyahu ao lado de Donald Trump
Netanyahu ao lado de Donald Trump
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A esperança que sustenta as negociações no Paquistão de cessar-fogo é que tanto os Estados Unidos quanto o Irã têm fortes motivos para encerrar a guerra.

O maior obstáculo para seu sucesso, contudo, é a ausência total de confiança, a falta de um ponto em comum entre os países e o fato de que Israel, principal aliado dos EUA no conflito, intensificou significativamente sua ofensiva no Líbano.

O presidente dos EUA, Donald Trump, já fala da guerra no passado. Ele declarou vitória e precisa de uma saída.

Ele não só tem pela frente uma visita de Estado do rei do Reino Unido, Charles 3º, prevista para o fim deste mês, seguida por uma cúpula com o presidente da China, Xi Jinping, em maio, como também as eleições de meio de mandato em novembro.

Com as férias de verão se aproximando nos EUA, Trump também precisa que os preços da gasolina voltem aos níveis anteriores à guerra. Visitas da realeza, cúpulas e eleições não combinam com guerras em andamento.

O regime iraniano também tem seus motivos para encerrar a guerra. Ele continua se mostrando desafiador, ainda capaz de lançar mísseis e drones, enquanto seus apoiadores nas redes sociais divulgam vídeos gerados por inteligência artificial ironizando Donald Trump.

Mas o Irã sofreu danos significativos. As cidades entraram em paralisação econômica, e o regime precisa de tempo para se reorganizar — e deve tentar usar as negociações no Paquistão para fortalecer sua posição.

Beirute foi devastada por uma série de ataques de Israel na quarta-feira
Beirute foi devastada por uma série de ataques de Israel na quarta-feira
Foto: EPA/Shutterstock / BBC News Brasil

Os intermediários paquistaneses, que farão a ponte entre as duas delegações, terão uma tarefa difícil pela frente. As posições declaradas dos dois lados estão o mais distantes possível.

Donald Trump tem um plano de 15 pontos que não foi divulgado, mas versões vazadas fazem com que ele pareça mais um documento de rendição do que uma base para negociação. Já o plano de 10 pontos do Irã inclui uma lista de exigências que os Estados Unidos vêm rejeitando de forma consistente ao longo do tempo.

Firmar um cessar-fogo mais duradouro exigirá algum tipo de acordo, ao menos para manter o diálogo sobre as listas contraditórias de questões difíceis de resolver apresentadas por ambos os lados.

Já seria difícil avançar sobre esses pontos em tempos de paz.

Em tempos de guerra, sem qualquer nível de confiança mútua, até mesmo uma declaração verbal que mantenha o cessar-fogo — independentemente da ausência de acordo sobre questões mais amplas — já seria vista como algo positivo.

A ausência total de acordo, por outro lado, aponta para o caminho de volta à guerra.

O problema mais recente e mais urgente que eles enfrentam hoje diz respeito à reabertura do estreito de Ormuz, a afunilada saída do Golfo. Mantê-lo fechado dá ao Irã um poder de pressão enorme sobre a economia mundial.

Reabrir a rota marítima — que era utilizada por centenas de navios por dia antes dos EUA e Israel atacarem o Irã — se tornou o ponto central das negociações.

Os milhões de civis no Oriente Médio, afetados por esse conflito, esperam que essas novas conversas levem ao desfecho da guerra.

Sem desfile da vitória

Quando os americanos, ao lado de Israel, iniciaram a guerra, em 28 de fevereiro, com uma série de ataques massivos que mataram, entre muitos outros, o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, sua esposa e outros membros de sua família, eles não esperavam que chegariam a abril participando de negociações de cessar-fogo.

Donald Trump esperava por uma vitória rápida, uma versão iraniana da operação militar dos EUA na Venezuela, que em janeiro capturou Nicolás Maduro e sua esposa.

O casal está preso e sendo julgado em Nova York por acusações de narcoterrorismo, e os Estados Unidos colocaram a ex-vice-presidente venezuelana no palácio presidencial.

A esperança — na verdade, a expectativa — de que matar o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, na primeira onda de ataques aéreos levaria ao colapso do regime se mostrou completamente equivocada.

Seu filho, Mojtaba Khamenei, não é visto desde que foi apontado como sucessor. Há especulações de que ele tenha ficado gravemente ferido no ataque que matou seus pais, além de sua irmã, sua esposa e um de seus filhos, segundo relatos.

Com ou sem a participação ativa do novo líder supremo, o regime do Irã demonstrou uma resiliência que surpreendeu Trump.

Mojtaba Khamenei não foi visto desde que foi nomeado líder supremo do Irã
Mojtaba Khamenei não foi visto desde que foi nomeado líder supremo do Irã
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Agora, os representantes de Donald Trump, liderados pelo vice-presidente J.D. Vance, precisam negociar com adversários que afirmam — de forma equivocada — ter derrotado.

"Uma vitória militar com V maiúsculo", como definiu o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth.

O Estreito de Ormuz

A guerra iniciada pelos EUA e por Israel já está redesenhando a geopolítica do Oriente Médio. À medida que as consequências de longo prazo do conflito se revelarem, esse processo tende a se aprofundar.

Os EUA e Israel causaram danos imensos às forças armadas do Irã, bem como à sua infraestrutura militar e civil. Ainda assim, embora o regime iraniano esteja abalado, permanece intacto. Não há mudança de regime em curso e o Irã ainda é capaz de lançar mísseis e drones.

Isso significa que, apesar das declarações enfáticas, EUA e Israel não conseguiram transformar vitórias táticas em avanços estratégicos.

O Irã, por sua vez, demonstrou que o fechamento do estreito de Ormuz lhe confere uma vantagem estratégica — algo que Donald Trump aparentemente minimizou ou não entendeu ao ouvir os argumentos do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu a favor da guerra contra o Irã.

Benjamin Netanyahu tem perseguido seus objetivos de forma agressiva
Benjamin Netanyahu tem perseguido seus objetivos de forma agressiva
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O bloqueio do estreito de Ormuz não deveria ter sido uma surpresa. O Irã já havia ameaçado fechar a rota no passado e chegou a interromper o fluxo de petróleo na região durante a guerra contra o Iraque, nos primeiros anos da República Islâmica na década de 1980.

Por décadas, simulações sobre o impacto de um eventual fechamento do estreito fizeram parte do planejamento em ministérios de Relações Exteriores e de Defesa de países que dependem dessa rota marítima, incluindo os Estados Unidos. Ainda assim, isso não impediu a decisão apressada de Donald Trump de entrar em uma guerra que, no momento, parece mal calculada.

Antes dos ataques ao Irã, navios atravessavam o estreito todos os dias transportando cerca de 20% do petróleo e do gás do mundo. Eles também levavam outros produtos essenciais da indústria petroquímica, usados na fabricação de fertilizantes agrícolas e de itens de alta tecnologia, como semicondutores.

Em uma economia global integrada, o impacto do bloqueio do estreito é amplificado, talvez mais do que até mesmo os líderes iranianos esperavam.

A capacidade de interromper o transporte marítimo em uma das rotas comerciais mais importantes do mundo é uma arma poderosa que o Irã quer transformar em um ganho estratégico de longo prazo.

Ao lado de exigências como o fechamento de bases americanas na região, reparações pelos danos da guerra, a retomada do enriquecimento de urânio e o fim das sanções, o país busca institucionalizar seu controle sobre o estreito de Ormuz.

Firmar um acordo sobre o estreito será tão difícil quanto discutir as capacidades nucleares do Irã.

O programa nuclear iraniano foi concebido para ampliar suas opções de dissuasão contra inimigos, independentemente de avançar ou não para a produção de uma bomba. Acontece que fechar o estreito de Ormuz é muito mais barato, potencialmente devastador para as economias de vizinhos e adversários, e muito mais fácil de se colocar em prática.

Durante o cessar-fogo de duas semanas já acordado, o Irã insiste que qualquer navio que queira atravessar o estreito de Ormuz precisará da autorização de suas forças armadas — caso contrário, será atacado e destruído.

Algumas das poucas embarcações autorizadas a passar já teriam sido cobradas em milhões de dólares em pedágios. Se isso continuar, o país poderá arrecadar bilhões — uma perspectiva que alarma os países árabes do Golfo.

Para agravar ainda mais a situação, os houthis, aliados do Irã no Iêmen, demonstraram durante a guerra em Gaza que têm capacidade de usar seu poder de fogo para bloquear o Bab el-Mandeb, o estreito na extremidade sul do Mar Vermelho.

A Arábia Saudita vem escoando petróleo que normalmente sairia pelo Golfo e pelo estreito de Ormuz por meio de um oleoduto até portos no Mar Vermelho, de onde é enviado para a Ásia. Esse fluxo seria interrompido caso os houthis bloqueassem a saída ao sul pelo Bab el-Mandeb.

O sentimento anti-EUA no Irã não diminuiu desde o início da guerra
O sentimento anti-EUA no Irã não diminuiu desde o início da guerra
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã morto por Israel no início da guerra, combinava uma desconfiança em relação aos Estados Unidos, a Israel e ao Ocidente com uma reputação de cautela.

Os homens mais jovens, em sua maioria ligados à Guarda Revolucionária Islâmica, que agora estão no comando, compartilham da mesma opinião, mas não necessariamente de inclinação de Khamenei de agir com prudência.

Para eles, a mera sobrevivência já equivale a uma vitória — uma narrativa amplamente propagada pelos porta-vozes do regime. Agora, eles também podem ter a chance de reconstruir o que foi perdido durante a guerra.

A ambição de Netanyahu

Benjamin Netanyahu também tinha reputação de ser cauteloso, apesar de anos de retórica agressiva — até os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023. Desde então, passou a adotar uma doutrina de guerra.

Ele tem dito repetidamente aos israelenses que está usando seu poder e engenhosidade para redesenhar o Oriente Médio de uma forma que fortaleça o país.

A busca agressiva de Netanyahu por seus objetivos transformou Israel, aos olhos de seus vizinhos, na principal força desestabilizadora da região.

Destruir a capacidade do Irã de ameaçar Israel — diretamente ou por meio de aliados — tem sido uma das principais prioridades de Netanyahu ao longo de sua longa trajetória política.

Seu desejo de continuar atacando o Hezbollah, aliado do Irã no Líbano, pode comprometer as negociações de cessar-fogo no Paquistão, mesmo que Donald Trump exija uma pausa nos bombardeios contra o Irã.

Durante o primeiro dia do cessar-fogo, Israel realizou uma série de ataques aéreos no Líbano que mataram mais de 300 pessoas, segundo o Ministério da Saúde em Beirute.

Depois disso, o Irã disse aos americanos que eles tinham uma escolha: cessar-fogo ou retornar à guerra.

A imprensa israelense noticiou que Donald Trump pediu moderação a Benjamin Netanyahu. Ele concordou com o pedido do Líbano por negociações diretas, ao mesmo tempo em que ordenou novos ataques aéreos.

Irã e Paquistão afirmam que o cessar-fogo inclui o Líbano. Israel e os Estados Unidos dizem que não.

O Reino Unido e outros países observadores, preocupados e com pouca capacidade de influenciar os acontecimentos, dizem que a trégua também deveria abranger o Líbano.

A confusão em torno dos termos das negociações no Paquistão reflete a falta de clareza nos objetivos de guerra de Trump.

1,1 milhão de pessoas foram deslocadas no Líbano
1,1 milhão de pessoas foram deslocadas no Líbano
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Israel afirma que está mirando o Hezbollah. Um número crescente de libaneses, porém, acredita que o alvo real é o próprio Líbano, já que o país ocupa atualmente uma ampla faixa de território no sul. Milhares de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas, que em alguns casos estão sendo destruídas, assim como grande parte de Gaza foi reduzida a escombros.

As consequências a longo prazo da guerra vão repercutir por todo o Oriente Médio e além.

As ricas monarquias árabes do Golfo investiram anos e bilhões para se transformarem em centros globais de negócios, turismo e transporte aéreo. Algumas semanas de ataques iranianos já causaram danos irreparáveis a essa estratégia de modernização e desenvolvimento.

Esses países também estão reavaliando suas alianças com os Estados Unidos. Não romperão com Washington — dependem demais dos americanos —, mas buscam diversificar sua segurança futura. O antigo modelo de estreitar laços com os EUA não funcionou.

A China observa de perto, assim como a Rússia, enquanto Trump ameaça mais uma vez os aliados da Otan que, segundo ele, não estavam presentes quando os Estados Unidos precisaram.

A China pressionou os iranianos a concordarem com um cessar-fogo e deve continuar incentivando o diálogo. O país depende do petróleo do Oriente Médio — e o Irã tem permitido a passagem de seus próprios navios rumo à China pelo estreito de Ormuz —, mas também estará pronta para explorar quaisquer brechas deixadas pela política externa errática de Trump.

E quanto ao povo iraniano? Está isolado, sob um apagão de internet, após semanas de bombardeios, mortes e medo, independentemente de suas opiniões sobre o regime.

Em 28 de fevereiro, Donald Trump e Benjamin Netanyahu prometeram aos opositores do regime uma chance de retomar o controle país. Essa promessa foi esquecida.

Hegseth declarou vitória, mas o processo de negociação não será fácil
Hegseth declarou vitória, mas o processo de negociação não será fácil
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Até pouco antes do cessar-fogo, Donald Trump oscilava entre promessas de proteção aos opositores do regime e ameaças de bombardear o Irã "de volta à Idade da Pedra".

Agora, a única certeza que os iranianos têm sobre o futuro é que será difícil — e que o regime que controla suas vidas há quase meio século permanece entrincheirado, ressentido e determinado, mais do que nunca, a esmagar qualquer desafio ao seu poder e ao sistema islâmico do país.

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