Com apoio a Trump em queda, evangélicos brancos seguem como base sólida entre republicanos
Apesar da queda de popularidade de Donald Trump devido à inflação e à guerra contra o Irã, os evangélicos brancos permanecem como sua base mais sólida, registrando 63% de aprovação. Priorizando pautas morais e religiosas em detrimento da economia, esse eleitorado fiel é considerado crucial para conter perdas republicanas nas eleições de meio de mandato, impulsionando candidaturas conservadoras ao Senado, como a de Darline Graham na Carolina do Sul, em disputas acirradas contra os democratas.
O presidente norte-americano, Donald Trump, está perdendo apoio entre muitos dos eleitores que o reelegeram para a Casa Branca em 2024. Mas pesquisas Reuters/Ipsos e entrevistas com cristãos evangélicos brancos mostram que eles continuam sendo seu eleitorado mais fiel e podem se revelar cruciais nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro.
Com os republicanos na defensiva em meio a índices de aprovação de Trump em níveis historicamente baixos, uma forte participação dos evangélicos poderia ajudar o partido a limitar as perdas causadas pela frustração dos eleitores com o custo de vida e a guerra contra o Irã.
Essa lealdade ficou evidente na semana passada na Village Church, uma congregação evangélica em Blythewood, na Carolina do Sul, onde centenas de fiéis se reuniram para o sermão semanal "Bíblia e Política", ministrado pelo pastor Erik Estep. O pano de fundo: uma disputa inesperadamente acirrada por uma vaga no Senado dos EUA, atualmente ocupada por um republicano.
Falando no salão principal de culto, emoldurado por uma tela gigante de vídeo e iluminação no estilo de show, Estep não endossou nenhum candidato ou partido. Mas, ao se pronunciar contra o jogo, após sermões sobre aborto e socialismo, ele exortou seus fiéis — predominantemente brancos — a enxergarem a política por uma lente bíblica.
"Acredito que a igreja é o baluarte da verdade para nossa nação", disse Estep do palco. "E serão necessárias pessoas como vocês e igrejas como esta para proteger esta nação espiritual e moralmente."
A mensagem ressoou em Karen Whiting, uma executiva aposentada do setor farmacêutico de 72 anos que planeja votar na republicana Darline Graham em vez de Annie Andrews, a democrata. Graham foi nomeada pelo governador para ocupar a vaga de seu falecido irmão, o senador Lindsey Graham.
Whiting citou preocupações de que os democratas permitam que meninas e mulheres transgênero participem de esportes femininos, ecoando outros evangélicos brancos entrevistados pela Reuters na Carolina do Sul na semana passada, que priorizaram questões sociais e religiosas em detrimento das preocupações econômicas.
Andrews, no entanto, afirmou em um anúncio de campanha recente que se opõe à participação de mulheres transgênero em esportes femininos e às cirurgias de afirmação de gênero para menores de idade.
"Estou votando em favor dos princípios bíblicos e não acredito que o Partido Democrata defenda esses princípios", disse Whiting. "Sem Deus, este país está fadado ao fracasso."
Se os presentes na Village Church precisassem de orientações mais explícitas sobre como votar, um guia de candidatos disponível no saguão da igreja não deixava dúvidas. Produzido pelo grupo conservador cristão Palmetto Family Council e distribuído a igrejas em toda a Carolina do Sul, o guia atribuiu a Graham marcas de verificação verdes em todas as sete questões avaliadas, incluindo restrições à medicação abortiva e aos cuidados de afirmação de gênero, enquanto Andrews recebeu principalmente Xs vermelhos.
Em um sinal da crescente competitividade da disputa pelo Senado, Trump fez campanha por Graham em um comício na noite de quarta-feira na Universidade de Clemson, na Carolina do Sul, concentrando grande parte de suas críticas em questões transgênero e acusando falsamente Andrews de apoiar a "mutilação sexual" de crianças.
Andrews apresentou uma interpretação diferente das prioridades dos eleitores evangélicos. Em declaração à Reuters, ela disse ter visitado igrejas evangélicas e se encontrado com eleitores de várias religiões, orientações políticas e origens, constatando que a principal preocupação deles era a economia. "Eles estão enfrentando dificuldades com o custo de tudo. É por isso que estou concorrendo", afirmou ela.
LAÇOS FORTES
Pesquisas Reuters/Ipsos mostram que o apoio a Trump entre os evangélicos brancos caiu para 63% neste mês, ante 77% em janeiro de 2025. A queda é ligeiramente menor do que a observada entre o eleitorado como um todo, de 47% para 31%, e os evangélicos brancos continuam sendo o único grande grupo demográfico monitorado pela Reuters/Ipsos em que seu apoio ultrapassa 60%.
O vínculo de Trump, que já se casou três vezes, com os evangélicos brancos resistiu a uma década de escândalos e investigações, incluindo dezenas de alegações de conduta sexual imprópria — que ele nega — e um caso de pagamento para silenciar uma atriz pornô. A questão para os republicanos é se as pressões econômicas e a insatisfação com a guerra contra o Irã, agora em seu oitavo mês, estão enfraquecendo esse vínculo.
Entrevistas da Reuters com 15 pessoas em duas igrejas da Carolina do Sul sugeriram que sua influência sobre os eleitores evangélicos brancos continuava forte. Na Village Church e na Carolina Baptist Church, na cidade de Spartanburg, a cerca de 90 minutos de carro de Blythewood, apenas 2 das 15 pessoas disseram estar considerando votar em Andrews, e nenhuma indicou que estava abandonando Trump.
Embora vários tenham expressado frustração com o conflito com o Irã e o aumento dos preços da gasolina, a maioria disse confiar que Trump impedirá o Irã de obter uma arma nuclear ou, assim como Trump, atribuiu a inflação às políticas adotadas pelo presidente democrata Joe Biden.
Chad Connelly, um ativista evangélico que lidera o grupo cristão de engajamento eleitoral Faith Wins, disse que, embora os evangélicos "não gostem de pagar preços mais altos", eles se mobilizam igualmente por questões sociais. As preocupações com atletas transgêneros estão "realmente presentes em todos os lugares" nas quase duas dúzias de Estados que ele visitou neste ciclo eleitoral, afirmou.
A lealdade dos evangélicos brancos a Trump reflete o que Robert P. Jones, presidente do Public Religion Research Institute (PRRI) — uma organização sem fins lucrativos que estuda religião e política — chama de "grande acordo" forjado durante a eleição de 2016.
Muitos evangélicos ignoraram sua conduta pessoal em troca de seu compromisso de restringir o aborto e os direitos LGBTQ, promover uma visão cristã conservadora da vida norte-americana e adotar políticas de imigração rígidas que alguns apoiadores veem como uma forma de preservar a identidade cristã branca do país, disse Jones.
"Isso provou ser mais importante para esse grupo do que o que eles estão tendo que pagar no posto de gasolina", disse Jones, que escreveu extensivamente sobre a ascensão do nacionalismo cristão na política norte-americana, à Reuters.
POR QUE OS EVANGÉLICOS SÃO IMPORTANTES
Os evangélicos brancos representam cerca de 13% dos adultos dos EUA, mas quase um terço da coalizão vencedora de Trump em 2024, de acordo com uma pesquisa do PRRI e uma análise de eleitores validados realizada pelo Pew Research Center, uma instituição apartidária. Mais de 80% votaram em Trump em cada uma de suas três campanhas presidenciais, segundo o Pew. Eles diferem acentuadamente dos evangélicos protestantes negros, que apoiam de forma esmagadora os democratas.
A lealdade dos evangélicos também pode se mostrar decisiva nas disputas pelo Senado fora da Carolina do Sul, que podem ajudar a determinar o controle do Congresso, inclusive em Iowa e no Kansas, onde os evangélicos brancos representam uma parcela significativa do eleitorado.
Pesquisas de opinião sugerem que a disputa na Carolina do Sul está acirrada. Nesta semana, o Trafalgar Group, uma empresa de pesquisa com tendência republicana, divulgou uma pesquisa mostrando Andrews 3 pontos percentuais atrás de Graham.
Parte do desafio de Graham decorre do mal-estar persistente entre alguns conservadores em relação à sua indicação para a vaga no Senado. Mesmo após receber o apoio de Trump, a novata na política derrotou por uma margem estreita o deputado federal Ralph Norman no segundo turno do partido, em agosto, o que reforçou as dúvidas de alguns republicanos sobre sua experiência e suas credenciais conservadoras.
Um porta-voz da campanha de Graham não respondeu a um pedido de comentário.
No entanto, mesmo evangélicos pouco entusiasmados com Graham, como Kevin Thomas, de 53 anos, disseram sentir que tinham poucas opções. Thomas, que participou do sermão na Village Church e apoiou Norman, afirmou que, mesmo assim, não confiava em Andrews em questões relacionadas a pessoas transgênero.
"Estou inclinado a tapar o nariz e votar em Graham", disse Thomas. "Não estou disposto a sacrificar seis anos tendo uma democrata nos representando na Carolina do Sul."
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