China defende condenação de dono de mídia Jimmy Lai; Reino Unido promete intervir
A China considerou "legítima" a pena de 20 anos de prisão aplicada ao magnata da mídia pró-democracia Jimmy Lai, dono do jornal Apple Daily, fechado em 2021. A avaliação foi feita pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian. O jornalista foi condenado por um tribunal de Hong Kong por sedição e "conluio com forças estrangeiras", crimes enquadrados na lei de segurança nacional. Segundo a Justiça local, os artigos publicados pelo empresário teriam instigado a desestabilização do governo e colocado em risco a segurança nacional.
A China rejeita qualquer ingerência estrangeira, acrescentou o porta-voz durante uma coletiva de imprensa. A Justiça de Hong Kong "exerce suas funções de acordo com a lei. Isso é razoável, legítimo e legal, e não há motivo para debate", declarou.
Ele pediu que a comunidade internacional "respeite a soberania da China, o Estado de Direito em Hong Kong, se abstenha de fazer declarações irresponsáveis e evite interferir no sistema judicial de Hong Kong ou nos assuntos internos chineses", ao ser questionado sobre as reações estrangeiras à condenação.
Vários países criticaram a condenação de Jimmy Lai. O Reino Unido prometeu intervir a favor do magnata, que possui passaporte britânico, e condenou o caráter "político" do julgamento. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, disse ter mencionado o caso durante sua visita à China no fim de janeiro, em conversas com o presidente chinês, Xi Jinping. A ministra britânica das Relações Exteriores, Yvette Cooper, prometeu "intervir e sem demora". "Estamos ao lado do povo de Hong Kong", acrescentou Cooper.
O presidente americano Donald Trump e a União Europeia também pediram a libertação do magnata. "As ações judiciais de caráter político movidas contra Jimmy Lai e os ex-dirigentes e jornalistas do diário Apple Daily prejudicam a reputação de Hong Kong", denunciou a porta-voz Anitta Hipper."O território foi devolvido pelo Reino Unido aos chineses em 1997.
Com essa sentença, China e Hong Kong buscam "semear o terror" entre os defensores da democracia, afirmou o governo taiwanês.
Apesar da pressão dos EUA e do Reino Unido, a pena contra Jimmy Lai é a mais pesada desde a imposição da lei de segurança nacional, criada pela China em 2020, após as manifestações pró-democracia de 2019. Para o chefe do Executivo de Hong Kong, John Lee, a condenação foi "satisfatória". Segundo ele, "os crimes de Jimmy Lai são odiosos e extremamente graves. Sua pena de 20 anos de prisão demonstra a força do Estado de Direito e faz prevalecer a justiça", afirmou em comunicado.
Saúde debilitada
O filho de Jimmy Lai, Sebastien, disse estar preocupado com o estado de saúde debilitado do pai, de 78 anos.
"Condenar meu pai a essa pena de prisão draconiana é uma tragédia para nossa família e coloca sua vida em perigo. Isso marca a destruição total do sistema judiciário de Hong Kong e o fim da justiça", disse Sebastien.
Após a condenação, Jimmy Lai cumprimentou com um gesto as pessoas que aguardavam do lado de fora, entre elas sua esposa, Teresa, e ex-jornalistas do Apple Daily, jornal pró-democracia hoje fechado e que ele fundou.
O empresário foi considerado culpado, em 15 de dezembro, de três acusações. De acordo com o veredicto de 856 páginas, o magnata de 78 anos "alimentou seu rancor e ódio contra a China durante grande parte da vida adulta" e buscou "derrubar o Partido Comunista Chinês".
A acusação também descreve Lai como o cérebro de complôs que tinham como objetivo "provocar atos hostis" de países estrangeiros contra Hong Kong ou a China, além de instaurar sanções ou um bloqueio.
Jimmy Lai poderia ter sido condenado à prisão perpétua. O tribunal afirmou, porém, ter levado em conta o fato de que "a idade avançada de Lai, seu estado de saúde e sua manutenção em regime de isolamento tornariam a prisão perpétua mais severa do que para outros detentos". O jornalista se declarou inocente. Ele está preso desde 2020 e permanece em isolamento, "a seu pedido", segundo as autoridades.
ONGs reagem à prisão
"A pena de prisão imposta a Jimmy Lai é um ataque a sangue-frio à liberdade de expressão e ilustra perfeitamente o desmantelamento sistemático dos direitos que antes caracterizavam Hong Kong", escreveu a Anistia Internacional em comunicado.
"A pesada pena de 20 anos de prisão infligida a Jimmy Lai, de 78 anos, equivale, na prática, a uma sentença de morte", afirmou a Human Rights Watch.
As autoridades de Hong Kong asseguram que o caso de Lai "não tem nada a ver com liberdade de expressão ou de imprensa". Para a ONG Repórteres Sem Fronteiras, "a cortina se fecha sobre a liberdade de imprensa em Hong Kong".
Com agências