Capacidade de retaliação iraniana após ofensiva dos EUA 'é limitada', diz especialista
Nos últimos dias, os Estados Unidos concentraram sua maior presença militar no Oriente Médio desde a invasão do Iraque, em 2003. Segundo especialista entrevistado pela RFI, Teerã tem uma capacidade de retaliação limitada.
Fúria Épica é o nome da grande operação militar americana lançada contra o Irã neste sábado (28). O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia anunciado anteriormente, em uma mensagem de vídeo, que havia iniciado "grandes operações de combate" contra o país e feito um apelo ao povo iraniano para "tomar" o poder. "Destruiremos seus mísseis e arrasaremos sua indústria de mísseis", afirmou, acrescentando que também iria "aniquilar sua marinha".
Trump vinha ameaçando repetidamente Teerã com uma intervenção militar caso as negociações em curso não levassem a um acordo sobre o programa nuclear iraniano. Desde o fim da segunda rodada de negociações, em 17 de fevereiro, sem resultados concretos, os militares americanos reforçaram rapidamente sua presença ao redor do Irã, mobilizando sua maior força militar no Oriente Médio desde a invasão do Iraque, em 2003.
A armada americana
Na véspera deste novo ataque contra o Irã, os militares americanos tinham cerca de doze navios de guerra posicionados no Mediterrâneo, no Mar Vermelho, no Estreito de Ormuz e no Mar Arábico. No ar, Washington também mobilizou uma grande frota, incluindo caças furtivos F-22 Raptor e F-35 Lightning, além de F-15 e F-16, aeronaves de reabastecimento aéreo KC-135 e aviões de vigilância E-3G Sentry.
Esses recursos são complementados pelo porta-aviões USS Abraham Lincoln, que chegou ao final de janeiro e está posicionado a algumas centenas de quilômetros da costa iraniana, escoltado por vários contratorpedeiros. O maior porta-aviões do mundo, o USS Gerald R. Ford, escoltado por três contratorpedeiros equipados com mísseis Tomahawk, chegou à costa israelense esta semana. Juntos, eles transportam dezenas de caças e milhares de fuzileiros navais.
Para diversos especialistas militares, a escala e a natureza dos recursos mobilizados sugerem uma operação intensiva que pode durar vários dias.
Os Estados Unidos também mantêm dezenas de milhares de soldados mobilizados em bases militares por toda a região, no Bahrein, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Catar, embora não se espere que forças terrestres participem diretamente de ações ofensivas contra o Irã. Essas instalações são, no entanto, potencialmente vulneráveis a retaliações iranianas.
Um centro no quartel-general da Quinta Frota dos Estados Unidos, no Bahrein, foi atingido por um ataque de mísseis neste sábado. Explosões também foram relatadas em diversas cidades do Golfo que abrigam bases militares americanas.
O Exército israelense indicou, em uma mensagem nas redes sociais, que o ataque ao Irã — batizado de "Leão Rugidor" — foi realizado após meses de planejamento com os Estados Unidos. Teerã, por sua vez, confirmou uma resposta que classificou como "massiva".
Nuclear e mísseis balísticos
Enquanto Washington se concentra principalmente no programa nuclear da República Islâmica, Israel demonstra há anos preocupação com o programa de mísseis balísticos do Irã. O país desenvolveu mísseis com alcances que variam de 300 a mais de 2.000 quilômetros, capazes de atingir diversas bases americanas no Oriente Médio, além do território israelense — algo que já ocorreu em junho passado.
Esse programa de mísseis balísticos foi um dos principais alvos dos ataques israelenses durante a chamada Guerra dos Doze Dias. Esses bombardeios reduziram o arsenal de mísseis do Irã e o número de lançadores. Outros projéteis foram disparados pelas forças iranianas durante o conflito. Ainda assim, fontes diplomáticas europeias e israelenses estimam que Teerã possa ter preservado um arsenal de cerca de mil mísseis.
Desde então, autoridades iranianas afirmam que o país reconstruiu suas capacidades balísticas. Em oito meses, Teerã teria inevitavelmente se preparado para um novo confronto militar, investindo novamente nesse programa. No entanto, até que ponto o Irã conseguiu reconstruir suas capacidades ofensivas ou desenvolver tecnologias que tornem seus mísseis mais difíceis de interceptar continua sendo motivo de análises divergentes.
Para Guillaume Ancel, ex-militar e especialista em operações de guerra, os iranianos dispõem de capacidades de retaliação bastante limitadas. "O fato de os bombardeios terem começado durante o dia é prova suficiente. Isso significa que o regime não possui um sistema de defesa aérea capaz de interceptar esses ataques com eficácia", afirma.
"O Irã lançou mísseis contra Israel e outros alvos, mas esses ataques eram esperados. Israel possui um sistema de defesa civil e antimíssil muito eficaz, o que significa que os danos provavelmente serão limitados", acrescenta.
População desprotegida
Por outro lado, ele ressalta que a população iraniana não está protegida pelo regime dos aiatolás. "Isso levanta a questão do que os americanos e israelenses realmente querem. Esses ataques visam forçar um retorno à mesa de negociações para obrigar Teerã a abandonar suas ambições nucleares, mesmo que isso signifique consolidar o regime? Ou, como disse Donald Trump, pôr fim a esse regime?", questiona.
O especialista lembra que, em janeiro, Washington acabou retirando seu apoio aos manifestantes após prometer ajudá-los. "Portanto, não creio que a população esteja disposta a arriscar novamente dezenas de milhares de mortes nas mãos da Guarda Revolucionária."
Segundo ele, as primeiras horas da operação indicam que os ataques visam principalmente centros de poder. "As sedes do regime dos aiatolás e da Guarda Revolucionária, além de instalações militares. Mesmo assim, ataques aéreos por si só não são suficientes para desmantelar um aparato militar. Isso sugere que outro objetivo está sendo perseguido", analisa.
Em todo caso, os Estados Unidos se prepararam para uma resposta iraniana. Washington implantou um sistema de defesa antimíssil de grande escala em todo o Oriente Médio. Interceptores estão presentes a bordo dos dois porta-aviões posicionados na região. Eles complementam o sistema THAAD, destinado a interceptar mísseis em alta altitude. Mísseis PAC-3, integrados às baterias de defesa aérea Patriot, também foram implantados em diversos países que abrigam bases americanas.