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Brasil mostra poder de reação com apostas de Ancelotti e ganha fôlego para seguir sonhando com hexa

O Brasil soube ser paciente diante de adversário que fechou espaços e evitou eliminação que seria traumática; Ancelotti mostrou que, às vezes, 'não fazer nada' pode ser uma virtude.

29 jun 2026 - 17h49
(atualizado às 18h43)
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Virada do Brasil contra o Japão saiu nos acréscimos do segundo tempo
Virada do Brasil contra o Japão saiu nos acréscimos do segundo tempo
Foto: EPA / BBC News Brasil

"Muito mais difícil do que a gente esperava, mas é Copa do Mundo, fazer o quê? Vamos enfrentar os melhores", disseram torcedores na saída do estádio à BBC News Brasil.

A frase resume bem a sensação que ficou no ar do NRG Stadium, em Houston, depois que o Brasil derrotou o Japão por 2 a 1 e garantiu uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 — mas longe da tranquilidade que o favoritismo histórico fazia crer.

Realmente, o jogo não começou como o esperado para a Seleção e teve um primeiro tempo inteiro de agonia para o torcedor brasileiro.

O time sofreu para encontrar seu jogo diante de um Japão muito organizado, que fechou bem os espaços, acelerou nos contra-ataques e castigou a equipe brasileira quando teve a chance.

O duelo começou equilibrado, com o Brasil dominando a posse de bola e criando as primeiras oportunidades, mas sem conseguir converter as chances em gol.

As estatísticas do primeiro tempo até favoreciam o Brasil — oito tentativas de finalização contra três do adversário —, mas de nada serviram diante da eficiência cirúrgica dos japoneses.

O sufoco brasileiro nasceu de uma falha da própria defesa. Aos 28 minutos, Danilo errou um passe pelo lado direito do campo, e Kaishu Sano aproveitou a sobra para conduzir a jogada, ajeitar o corpo e bater de fora da área, rasteiro, sem chances para Álisson.

A lição ficou clara: um simples deslize na saída de bola, em um lance que aparentava ser rotineiro, foi suficiente para o Japão mostrar sua eficiência.

Os japoneses não bombardearam o gol brasileiro durante a partida, mas souberam aproveitar a única brecha real que surgiu: converteram o erro defensivo em vantagem no placar e, dali em diante, recuaram as linhas para administrar o resultado.

Esse desequilíbrio resumiu bem a primeira etapa: o Brasil com a posse, o Japão com o gol. A seleção foi para o intervalo atrás no placar mesmo tendo levado mais perigo ao ataque rival, um contraste que ajuda a explicar por que o duelo foi sentido como tão "duro" pelos torcedores que acompanhavam o jogo nas arquibancadas e nos corredores do estádio.

A reação na etapa final

Após um primeiro tempo marcado por nervosismo, erros de passe — como o que resultou no gol japonês — e controle adversário, a equipe de Carlo Ancelotti conseguiu pressionar na etapa final e, principalmente, teve paciência para insistir até o fim.

O Japão foi eficiente defensivamente durante grande parte do jogo, acumulando oito bloqueios de defesa e 51 rebatidas, além de contar com duas defesas importantes do goleiro Zion Suzuki.

Mas o Brasil insistiu no jogo aéreo e na ocupação de espaços. Aos seis minutos da segunda etapa, Danilo cruzou da direita e Bruno Guimarães, de cabeça, exigiu grande defesa de Suzuki.

Aos oito, em nova bola alçada na área, Casemiro tentou escorar e o zagueiro Tomiyasu salvou em cima da linha. A insistência valeu a pena logo depois: Gabriel Magalhães recebeu de Vinícius Júnior pela esquerda, cruzou na medida, e Casemiro, subindo mais que o marcador Keito Nakamura, cabeceou para empatar a partida.

O gol equilibrou o jogo no placar, mas também — e talvez principalmente — no aspecto emocional: animou o Brasil e assustou o Japão, que até então parecia confortável administrando a vantagem.

Na sequência, o Brasil chegou a ter uma chance clara de virada com Vinícius Júnior, que fez jogada individual pela esquerda, passou a bola entre as pernas de Tomiyasu, invadiu a área e finalizou de bico, acertando a trave — um lance que resume bem a mistura de talento individual e falta de pontaria/sorte que marcou a tarde brasileira.

Kaishu Sano abriu o placar contra o Brasil
Kaishu Sano abriu o placar contra o Brasil
Foto: Getty / BBC News Brasil

O herói: Martinelli, saído do banco

Foi nos acréscimos que o Brasil finalmente conseguiu a recompensa pela insistência. Martinelli, que entrou no segundo tempo, recebeu uma bela bola de Bruno Guimarães e, sozinho, finalizou no cantinho de Suzuki para virar o placar e levar o Brasil às oitavas de final.

O atacante, que começou a partida no banco, foi o nome que mudou a história do jogo: entrou, deu trabalho à marcação japonesa e decidiu no momento mais tenso possível, quando a sensação de "eliminação traumática" já rondava a torcida brasileira.

O empate nos acréscimos não apaga os problemas: faltou fluidez na criação, o ataque demorou a encontrar soluções e a pressão brasileira muitas vezes pareceu mais fruto de urgência do que de controle. Mas o gol no fim muda a narrativa da partida. O Brasil evitou uma eliminação precoce traumática e mostrou poder de reação justamente quando parecia mais perto do abismo.

A classificação vem com alívio, mas também com um sinal positivo: mesmo em desvantagem e pressionado por um cenário que parecia escapar, o Brasil não se desesperou. A equipe seguiu tentando, empatou, e depois encontrou forças para decidir a partida.

Foi uma vitória mais sofrida do que convincente, mas também uma demonstração de resistência — daquelas que podem pesar em mata-mata e que fazem os fãs continuarem acreditando.

"O Brasil, obviamente — e por diversos motivos —, tem uma postura de certa arrogância tradicionalista", disse o comentarista de futebol da BBC Tim Vickery, especialista em futebol sul-americano.

Ele afirma que os jogadores brasileiros ficaram perto de uma "humilhação histórica". Se o Japão ganhasse, seria a primeira vitória do país em um mata-mata de Copa do Mundo na história.

Foi então que, segundo Vickery, o técnico Carlo Ancelotti mostrou uma de suas virtudes: "Às vezes, a maior qualidade de Ancelotti é não fazer nada. Um oásis de calma em meio a todo o caos ao seu redor — e isso deu certo mais uma vez", afirma.

Ele diz que, enquanto muitos esperavam que Ancelotti substituísse Casemiro, o técnico o manteve em campo - e foi justamente o meio-campista quem empatou a partida.

O desafio de Ancelotti

Para Ancelotti, o jogo contra o Japão funcionou como um teste de caráter — e também como um alerta.

Pela primeira vez desde que assumiu a Seleção Brasileira, o treinador italiano repetiu uma escalação titular, mantendo a aposta em Rayan no lugar do lesionado Raphinha, com o time formado por Alisson, Danilo, Gabriel Magalhães, Marquinhos e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Vinícius Júnior, Rayan e Matheus Cunha.

A escolha de manter a base teve uma lógica de continuidade, mas o primeiro tempo mostrou o risco dessa aposta: a equipe titular voltou a repetir um problema recorrente da gestão Ancelotti à frente da seleção — dificuldade de criar fluidez ofensiva contra adversários bem postados defensivamente, somada a erros individuais de saída de bola, como o de Danilo que resultou no gol japonês.

O desafio do treinador ficou evidente: ele precisou recorrer ao banco — com a entrada de Martinelli sendo decisiva — para resolver o jogo, o que reforça a pressão sobre as escolhas iniciais e sobre a capacidade de a equipe titular impor ritmo desde o começo das partidas.

Repetir os mesmos sinais de fragilidade no início dos jogos é um problema que Ancelotti precisará resolver rapidamente, sob pena de pagar caro contra times com mais poder de fogo do que o Japão.

Vale lembrar, ainda, que historicamente o confronto era tratado como um duelo entre "mestre e discípulo", dado o profundo respeito que o futebol japonês tem pela tradição brasileira, e o "aluno" deu trabalho ao "mestre" até os instantes finais.

Torcida brasileira assistindo ao jogo contra o Japão em São Paulo
Torcida brasileira assistindo ao jogo contra o Japão em São Paulo
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Próximo desafio: rumo a Nova Jersey

Com a classificação, o Brasil aguarda o ganhador do confronto entre Noruega e Costa do Marfim, que se enfrentam nesta terça-feira (30/6), em Dallas.

O duelo das oitavas de final será no domingo (5/7), às 17h, em Nova Jersey, no MetLife Stadium.

A mensagem que fica do duelo com o Japão é clara: o Brasil de Ancelotti segue invicto na competição, mas está longe de ser uma máquina indestrutível.

A vitória trouxe alívio, evitou um trauma precoce e revelou personagens importantes, como Casemiro e Martinelli, mas também expôs fragilidades — erros de passe na saída de bola, dificuldade de criação contra defesas bem postadas e uma primeira etapa de muita ansiedade — que precisarão ser corrigidas antes que os adversários se tornem ainda mais fortes.

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