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Brasil sobrevive como o Real Madrid de Carlo Ancelotti

29 jun 2026 - 18h16
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Carlo Ancelotti vem alertando há semanas que a garra ‌e a resiliência serão decisivas em uma Copa do Mundo longa e complicada. A julgar por isso, o Brasil tem dado ouvidos — mesmo que, durante grande parte da partida contra o Japão, parecesse determinado a testar essa teoria até o limite.

Pode-se argumentar que essa não foi simplesmente uma vitória do Brasil por 2 x 1. Pareceu uma produção típica de Ancelotti: controle, hesitação, problemas criados por si mesmo ⁠e, quando a lógica já estava fazendo as malas para a prorrogação, um ato tardio de rebeldia que ‌emanou tanto do coração quanto da prancheta tática.

Ancelotti conhece muito bem os torneios longos e complicados dos seus anos no Real Madrid. Seus melhores times do Real nem sempre foram impecáveis, mas carregavam algo ‌mais perigoso do que a perfeição: a certeza de que ‌a história nunca acaba.

É difícil não notar as semelhanças.

Em 2022, o Real se recuperou contra o ⁠Paris Saint-Germain, o Chelsea e o Manchester City a caminho do título da Liga dos Campeões, sobrevivendo a situações que pareciam irremediáveis até, de repente, deixarem de ser.

Nem sempre foi perfeito, longe disso. Mas foi brutalmente eficaz, impulsionado por nervos de aço, clareza em meio ao caos e uma recusa em aceitar a conclusão óbvia. Mesmo quando não fazia sentido.

O Brasil, por muito tempo, teve essa mesma aura na ‌Copa do Mundo. A cada quatro anos, o torneio parecia se tornar sua propriedade, seu palco, seu habitat ‌natural. Assim como o Real Madrid ⁠na Liga dos Campeões, ele ⁠não se limitava a disputá-lo. Ele o dominava. E sempre havia aquela sensação entre os rivais de que era ⁠preciso derrotá-lo para ter um lugar na competição.

Contra o Japão, ‌essa seleção de amarelo mostrou os ‌dois lados da moeda de Ancelotti.

O Brasil dominou desde o início e foi a melhor equipe, mas também ficou exposto a erros que pareciam previsíveis, familiares e perigosos. Danilo, lateral que já atuou por Real Madrid, Manchester City e Juventus, mas agora um zagueiro que completará 35 anos ⁠em duas semanas, errou um passe simples enquanto o Brasil tentava sair jogando.

CONFIANÇA NA VELHA GUARDA

Casemiro, outro membro da velha guarda de confiança de Ancelotti, não conseguiu acompanhar a velocidade de um jogador japonês, um lembrete de que a experiência pode trazer autoridade, mas nem sempre pernas.

Por um tempo, o Brasil pareceu preso entre seu passado e seu presente: grande ‌demais para entrar em pânico, imperfeito demais para se sentir à vontade.

No entanto, é aí que as equipes de Ancelotti tendem a se tornar mais interessantes. O italiano nunca foi obcecado por um ⁠domínio estéril. Seus melhores times costumam atuar nos limites, onde o jogo se torna emocional, confuso e primitivo.

E quase na última jogada, com o Japão olhando ansiosamente para a prorrogação, o Brasil encontrou a saída.

O jovem Rayan pressionou de maneira incansável, roubou a bola e serviu Bruno Guimarães, o coração da máquina de Ancelotti.

Guimarães encontrou o reserva Gabriel Martinelli se infiltrando por entre uma floresta de defensores japoneses, e ele deu aquele tipo de finalização implacável que esmaga um time e convence o outro de que ele tem algo especial.

Para o Japão, foi devastador. Para o Brasil, foi algo próximo de uma redenção.

Este não foi o Brasil em sua versão mais bonita ou mais completa. Mas as Copas do Mundo raramente são vencidas pela pureza. Como lembrou Ancelotti, elas são vencidas por times que sobrevivem aos seus momentos ruins, absorvem seus próprios erros e ainda acreditam que resta mais um momento.

Ancelotti já viu esse filme antes. Agora, o Brasil está tentando torná-lo seu.

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