Bombardeios e repressão marcam Ano Novo Persa no Irã e no exílio
A guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã abala a atmosfera festiva que deveria envolver a região: o Ano Novo Persa, Nowruz, e o fim do jejum muçulmano, Eid al-Fitr. A data cai nesta sexta-feira (20) na Arábia Saudita e na maioria dos países muçulmanos, e no sábado (21) no Irã.
Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, e Siegfried Forster, da RFI em Paris
Ao amanhecer, em algumas ruas de Teerã, faixas comemorativas do Nowruz substituíram os retratos do aiatolá Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro, no primeiro dia dos ataques aéreos israelenses e americanos. "Vitória no Nowruz", proclamam as faixas, contrastando com o clima sombrio que reina na capital.
Em um pequeno mercado ao norte da cidade, poucos clientes faziam compras neste dia de celebração. Marsa e sua filha, Faride, escolhiam flores para decorar a casa.
"Apesar dos acontecimentos terríveis que estamos enfrentando, tentamos manter a esperança", disse a mãe à RFI. "Dizem que, conforme o estado de espírito com que entramos no ano, o resto do ano será igual. Então, eu espero receber boas vibrações, se eu começar o ano de maneira positiva", complementou.
Sua filha também tentava manter o otimismo, apesar dos bombardeios sobre seu país não darem trégua. "Embora eu esteja muito triste e a situação esteja muito ruim, acho que nós não temos escolha. Perdemos entes queridos, mas precisamos continuar. É só o que podemos fazer", comentou ela. "Eu estava morando na Alemanha e voltei para o Irã há um ano. Apesar de tudo, eu acho que vale a pena estar aqui e passar o Nowruz aqui."
Hoda, moradora de Saveh (no oeste do Irã), afirmou à AFP que queria ir a Teerã para ver sua família, na esperança de que a celebração não fosse afetada pelos bombardeios. "Não sabemos o que vai acontecer, mas a vida continua", acrescentou a mulher de 44 anos.
Iranianos em Paris
Longe dos confrontos, os iranianos que vivem no exílio acompanham a situação com apreensão. O Ano Novo Persa é celebrado nesta sexta-feira precisamente às 15h46 em Teerã, no equinócio da primavera, por mais de 300 milhões de pessoas no antigo Império Persa - incluindo o Afeganistão e o Paquistão.
A data representa um símbolo de renovação e esperança, mas, desta vez, é diferente, afirma o diretor e ator iraniano Hamidreza Javdan. "Ontem, a casa do meu irmão em Teerã foi bombardeada, e meu irmão está soterrado sob os escombros, aguardando que seu corpo seja recuperado. Não é apenas meu irmão que me deixa inconsolável. Estou assim por todos esses horrores ao redor do mundo", disse ele.
Com lágrimas nos olhos, Hamidreza Javdan conta a história de um harpista atravessando uma cidade em chamas: "Ele começou a tocar e cantar: 'Com tanta tristeza na casa do coração, um pouco de alegria é necessária, pois é a época do Nowruz'."
O escritor e cineasta afegão Atiq Rahimi, vencedor do Prêmio Goncourt de Literatura em 2008 por seu romance Pierre de patience (A Pedra da Paciência), reconhece que este Ano Novo persa será triste para ele. "É um Nowruz sangrento. Então, infelizmente, será um Nowruz triste", comentou.
Nascido em Cabul, Rahimi teve que fugir do Afeganistão após o assassinato de seu irmão, buscando refúgio primeiro no Paquistão, depois na França. "Talvez os tiranos sejam derrubados em alguns dias e tenhamos um Nowruz de verdade, um renascimento para o povo iraniano, para o povo afegão, para o povo palestino e também para o povo israelense. É o que eu espero."
Resistência persa
Para Tahoura Tabatabaï-Vernet, autora da coletânea O Grito da Pérsia, a poesia é um ato de resistência. Seu poema narra a dura realidade dos iranianos que desafiaram o terror do regime iraniano: "Nos funerais, os pais começavam a dançar e a distribuir bolos, criando um evento festivo em torno da morte de seus filhos. Isso demonstra verdadeiramente a resiliência deste povo, que sempre se reergue", explica ela.
Nascida no Irã, Tabatabaï exilou-se com sua família na França aos 11 anos. Hoje poeta e designer de interiores, ela se dedica à preservação das tradições iranianas. Dois dias antes do equinócio da primavera, ela já tinha preparado uma mesa adornada com sete itens tradicionais da data. Há sementes germinadas de leguminosas ou grãos, chamada sabzeh, que simbolizam o renascimento, além de outros seis itens que também começam com a letra S do alfabeto persa: alho, maçãs, vinagre e moedas, dependendo da região.
Este ano, a mesa está decorada com uma bandeira iraniana. "A Pérsia sempre enfrentou muitas provações ao longo dos séculos e, se ainda resiste, se ainda existe e é tão forte, é graças à sua cultura. Estamos todos de luto, mas decidimos celebrar o Nowruz mesmo assim: de forma simples, não necessariamente com danças e alegria como de costume, mas com muita sobriedade e muitos pensamentos para aqueles que estão lá, com muita esperança e muitos votos de felicidades."
Fim do Ramadã no mundo árabe
Da mesma forma que o Ano Novo persa, também os festejos pelo fim do Ramadã, o período de jejum e orações dos muçulmanos, são afetados em toda a região. Em Jerusalém Oriental, o acesso à Mesquita de Al-Aqsa permaneceu fechado.
O terceiro local mais sagrado do Islã, situado no Monte do Templo, "foi confiscado de nós. É um Ramadã triste e doloroso", lamentou Wajdi Mohammed Choueiki, um homem de cerca de 60 anos. "É uma situação catastrófica para os moradores de Jerusalém, para os palestinos em geral e para todos os muçulmanos do mundo."
Com AFP