Comunidade pobre abre 1º asilo para idosos no Camboja
Uma pequena comunidade pobre do Camboja abriu o primeiro asilo do país para idosos que sobrevivem à base de doação perante o desamparo do Governo.
Cham Bak, na província oriental de Prey Veng, é um povoado de pequenas casas tradicionais onde seus mil habitantes dependem da agricultura e da criação de animais.
Entre as construções de madeira, se destaca um prédio de tijolos que abriga cinco cambojanos de entre 66 e 84 anos que até há poucas semanas viviam na indigência.
"Trabalhamos no centro que pertence a todos nós, mas só os idosos desamparados podem ficar aqui", disse Kim Vuthy, um jovem de 29 anos que foi o principal impulsor do chamado "povo da aposentadoria".
A maior parte da terceira idade no Camboja não recebe nenhum tipo de previdência e, sem renda, se vê obrigada a trabalhar, principalmente no campo, ou mesmo a mendigar.
O retiro mudou a vida de Pin Yon, de 84 anos, e de sua esposa, Som In, de 82.
Até pouco tempo, Pin Yon trabalhava todos os dias encurvado em uma enxada, andando a passos lentos para lavrar um pequeno pedaço de terra, onde cultivava verduras.
Sua mulher se encarregava de vender no mercado a colheita e os medicamentos especiais feitos com o tronco de determinadas árvores, mas o dinheiro que ganhavam mal dava para eles se alimentarem e a falta de proteínas prejudicou a saúde do casal.
"Quase sempre eu ficava doente e não podia trabalhar, mas agora me sinto mais forte" afirma Pin Yon com um sorriso sem nem um dente a mostra.
Embora, fossem vizinhos das filhas, a ajuda que recebiam era insuficiente e o esquelético corpo de Pin Yon tinha que aguentar o peso do orçamento familiar.
A cultura cambojana estabelece que os filhos se responsabilizem pelos pais quando estes atingem uma idade que os inviabiliza de trabalhar, mas a crise econômica levou muitos jovens a buscar oportunidades nas grandes cidades ou em outros países, deixando seus pais sozinhos.
Outros idosos não têm família porque a perderam durante o brutal regime comunista do Khmer Vermelho, no qual morreram cerca de 2 milhões de cambojanos entre 1975 e 1979.
Nun Ni, de 80 anos, nunca chegou a se casar e mal fala com suas irmãs, apesar de viverem na mesma localidade em uma aldeia próxima a Cham Bak.
Ela vivia em um pequeno anexo que um vizinho deixou à sua disposição temporariamente e mendigava para conseguir comida.
"Não era sempre que conseguia dinheiro suficiente para comer, portanto, fazia pequenos trabalhos para outras famílias", conta Nun enquanto comia um pedaço de pão que ganhou de um de seus vizinhos.
Ray é um dos camponeses de Cham Bak que dedica seu tempo livre a fazer pequenos consertos e a trabalhar na pequena horta do asilo.
"Dava-me pena de vê-los mendigando, mas eu não tenho dinheiro, só posso ajudar com o meu trabalho físico", afirma Ray, de 46 anos, fumando um cigarro após outro.
"Eu também gostaria que alguém me ajudasse quando eu ficar mais velho, caso os meus filhos não possam", continua o cambojano.
Ray não é o único que dedica seu tempo livre ao retiro, muitos são moradores que ajudam quase todos os dias para cozinhar, servir a comida e limpar as instalações.
O lucro extraído dos campos associados ao centro é compartilhado entre todos, o que ajuda a mitigar a pobreza da comunidade.
"Os idosos pedem muito pouco e com menos de um dólar por dia vivem bem. Como não ajudá-los?", concluiu Kim Vuthy.