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Ásia

"Cemitério Talibã" sofre com abandono nos arredores de Cabul

10 nov 2009 - 15h36
(atualizado às 15h37)
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Dexter Filkins
Do New York Times, em Tarakhel, Afeganistão

Os moradores locais chamam o lugar de "Cemitério do Talibã"; ele serve como um memorial recoberto por ervas daninhas aos homens que morreram pelo movimento em suas mais ferozes campanhas, nos anos anteriores ao 11 de setembro.

O mato cresce em torno de túmulos quebrados no "Cemitério Talibã", nos limites de Cabul
O mato cresce em torno de túmulos quebrados no "Cemitério Talibã", nos limites de Cabul
Foto: The New York Times

O cemitério, perto de Tarakhel, uma pequena aldeia ao norte de Cabul, fica alguns quilômetros ao norte daquilo que um dia foi a linha de frente nas batalhas contra os rebeldes que se opunham ao Talibã depois que este capturou a capital afegã, em 1996. Esses rebeldes, então conhecidos como Aliança Setentrional, terminaram por derrotar o Talibã e capturar Cabul, com assistência norte-americana, em novembro de 2001.

Passados oito anos desde que o último combatente foi sepultado aqui, o cemitério está em clara decadência. Muitos dos sepulcros foram profanados, e as lápides foram derrubadas - como resultado do vandalismo de uma milícia inimiga do Talibã que passou pela região, segundo os aldeões. Ervas daninhas, rochas e pendões de oração rasgados obscurecem boa parte do que resta. Os aldeões de Tarakhel, se bem que adeptos entusiastas do Talibã, desistiram de tentar preservar o cemitério.

Mas basta uma breve escavação ou limpeza para que o cemitério do Talibã se revele, e revele o tempo nele preservado. Juntas, as covas remanescentes oferecem uma história dos anos iniciais do Talibã, e de uma era tumultuosa na qual os jovens jihadistas de todo o mundo viajavam ao Afeganistão para treinar e combater.

Há talvez 200 homens sepultados no cemitério, não apenas afegãos mas árabes, tchetchenos, indianos e paquistaneses. Há até mesmo o túmulo de um jovem britânico.

"Os árabes ficam sepultados ali", disse Mohamed Zahir, passando o dedo por sobre um trecho de terra irregular na porção traseira do cemitério. Zahir, que vive em Tarakhel, se aproximou quando viu um forasteiro caminhando entre as tumbas.

Os combatentes árabes, ele afirma, foram mortos no primeiro bombardeio norte-americano, em outubro de 2001. Um caminhão da ONU levou seus corpos ao cemitério e os despejou lá. Os aldeões de Tarakhel realizaram sepultamentos apressados, em túmulos sem identificação; temiam que os combatentes da Aliança Setentrional abrissem as covas e dessecrassem os cadáveres caso os descobrissem. Mesmo sem identificação, os combatentes destruíram muitas das lápides, quando chegaram à aldeia.

"Eles se comportaram como animais, naquele dia", disse Zahir. Mas muitas das lápides estão intactas, preservando as histórias dos homens ali sepultados: seus nomes, seus lugares de nascimento, os dias em que morreram. Cada um dos mortos que encontrou repouso no cemitério ao longo dos anos recebeu uma lápide própria, de granito, como tributo dos líderes do Talibã que então dominavam o país.

Perto da frente do cemitério fica o túmulo de Afghan Talib - a palavra significa "estudante", no idioma pashto -, que morreu de ferimentos sofridos em batalha contra a Aliança Setentrional em Kunduz, em 1997. Seus dados estão gravados em uma lápide de granito cinzento.

Talib

Gul Ahmed

Filho de Shams Mohammed

Morador do distrito de Yaftal, província de Badakhshan

Data de ferimento: 9/11/1997

Morreu no hospital de Quetta, Paquistão

22 anos

Os mortos afegãos parecem ser minoria no cemitério do Talibã. É possível que os talibs também constituam minoria. A maioria dos sepultados em Tarakhel parecem ser estrangeiros, ou combatentes voluntários integrados ao Talibã, ou integrantes regulares de um dos muitos grupos armados que afluíram ao país nos anos 90.

A um par de túmulos de distância da lápide de Ahmed fica o túmulo de um homem chamado Sher Khan Kashmiri. A lápide branca diz que ele nasceu na "Caxemira ocupada", o termo usado por alguns muçulmanos para designar o Estado da Caxemira, uma parte da Índia na qual a população é majoritariamente muçulmana. Os militantes islâmicos da região estão batalhando para separá-la da Índia desde que o Império Britânico dissolveu suas possessões no sul da Ásia, em 1947.

Kashmiri, segundo a lápide, era membro da Harkat-ul-Ansar, uma organização militante sediada no Paquistão e que combatia na Caxemira. Nos anos 90, o grupo também combateu em aliança com o Talibã e a Al-Qaeda. Foi um campo do treinamento da Harkat-ul-Ansar no leste do Afeganistão que serviu de alvo a mísseis de cruzeiro lançados pelos Estados Unidos em agosto de 1998 para tentar eliminar Osama bin Laden, que não estava no local.

Kashmiri, segundo a lápide, foi "martirizado" em Pul-i-Kumri, no norte do Afeganistão, em 7 de junho de 1997.

Outros grupos militantes estão representados no cemitério do Talibã, entre os quais o Exército de Maomé, outro grupo militante paquistanês, surgido inicialmente como uma ala do Harkut-al-Ansar. Os membros do Exército de Maomé estão implicados na morte de Daniel Pearl, o repórter norte-americano sequestrado e assassinado no Paquistão em 2002. E também combateram em apoio ao Talibã.

"O mártir vive para sempre", afirma uma das lápides dos militantes do Exército de Maomé, que identifica o túmulo de Hafez Mohammed Wazir, de Mansera, Paquistão, morto em 26 de junho de 2001.

Talvez a mais espantosa de todas as relíquias abrigadas no cemitério seja a tumba que guarda os restos de um homem chamado Mohamned Usman. A lápide informa que ele nasceu no Reino Unido, e foi morto em Kunduz em dezembro de 1998. As palavras que identificam Usman no granito branco da lápide estão escritas em urdu, o idioma do Paquistão, o que indica, talvez, que Usman tivesse ascendência paquistanesa. Há trechos de um poema gravados na lápide:

"Uma pessoa que passa pela vida sem se familiarizar com o significado da justiça desaparecerá das mentes dos homens".

Como demonstram as datas muitos distintas das lápides, o cemitério começou pequeno e foi sendo ampliado ampliando ao longo dos anos. Muitos dos mortos aqui sepultados provêm dos campos de batalha nas estepes do norte do país, onde o ímpeto de conquista do Talibã foi enfim detido. A primeira das tumbas data de 1996, quando os combatentes do Talibã conquistaram a capital afegã. A última data do final de 2001, no começo da guerra contra os Estados Unidos.

Além dos combatentes árabes mortos trazidos para sepultamente em Tarakhel em 2001, também vieram para a região muitos combatentes árabes ainda vivos, segundo os aldeões. Dezenas deles sobreviveram à ofensiva norte-americana de outubro e novembro de 2001, e passaram por Tarakhel em sua fuga, dispostos a sobreviver e lutar novamente.

"Nós conduzimos os árabes à fronteira e os ajudamos a escapar", disse Ayahuddin, um idoso aldeão de Tarakhel. "Nós estávamos ao lado deles, então". E continuam, ainda hoje. O cemitério do Talibã pode ter se deteriorado, mas os aldeões ainda afirmam que a causa do Talibã é justa, exatamente como faziam no passado. "Eles voltarão um dia, você precisa saber", disse Zahir.

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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