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Apesar do cessar-fogo, famílias libanesas deslocadas pela guerra sobrevivem na pobreza extrema

No Líbano, centenas de milhares de pessoas que deixaram suas casas por causa da guerra ainda não conseguiram retornar às aldeias de origem, apesar do cessar-fogo firmado em meados de junho. Esquecidas pelas autoridades e pela comunidade internacional, muitas famílias sobrevivem em condições de extrema pobreza.

21 set 2026 - 15h57
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Resumo
Apesar do cessar-fogo com Israel, mais de 330 mil libaneses continuam deslocados e sem perspectiva de retorno, já que dezenas de aldeias no sul do país foram devastadas e tornadas inabitáveis. Vivendo amontoadas em extrema precariedade ou em abrigos públicos, essas famílias enfrentam a escassez de recursos básicos e o enfraquecimento da rede de auxílio do Hezbollah, que restringiu seus apoios, deixando milhares de pessoas vulneráveis e dependentes apenas de seus próprios esforços para sobreviver.

Paul Khalifeh, correspondente da RFI em Beirute 

Tomates cortados de forma rudimentar são colocados em uma panela improvisada sobre um fogo a lenha, onde cozinham lentamente. Oum Moustapha mexe há horas um molho espesso que exala aromas de especiarias.

"Estamos preparando estoques de mantimentos para o inverno, como nossos antepassados fizeram durante gerações", explica a mãe de família, cercada pelas filhas gêmeas. "Amanhã faremos conserva de berinjela, e no dia seguinte, geleia de damasco."

Ela explica que essas reservas de alimentos, preparadas com recursos limitados, podem ser conservadas por meses sem refrigeração.

Deslocada da vila fronteiriça de Kfarkila, no sul do Líbano, Oum Moustapha divide dois cômodos com outra família de oito integrantes, originária da localidade vizinha de Blida. Ao todo, 16 pessoas vivem em um barraco de apenas 20 metros quadrados, em situação de extrema precariedade.

Como milhares de outros libaneses, essas duas famílias foram obrigadas a abandonar suas casas há quase dois anos devido à guerra com Israel. Apesar do cessar-fogo firmado em junho, elas ainda não conseguiram voltar para suas residências.

"Nossas aldeias foram praticamente arrasadas pelo exército israelense. Não sei se um dia voltarei para a minha terra", lamenta Oum Moustapha.

Dezesseis pessoas vivem em extrema pobreza em dois cômodos contíguos de 20 metros quadrados.
Dezesseis pessoas vivem em extrema pobreza em dois cômodos contíguos de 20 metros quadrados.
Foto: RFI

Aldeias destruídas e inabitáveis

A guerra que começou em 2 de março levou cerca de 1,5 milhão de pessoas ao deslocamento forçado, o equivalente a um em cada quatro libaneses, a grande maioria deles xiitas.

Em meados de agosto, cerca de 860 mil deslocados haviam retornado às regiões de origem, especialmente aos subúrbios do sul de Beirute e ao sul do país, segundo números das Nações Unidas e das autoridades libanesas. No entanto, retornar à região de origem não significa necessariamente voltar para a própria casa.

Em diversas localidades do sul do Líbano, as residências foram destruídas ou sofreram danos graves, enquanto algumas áreas continuam perigosas ou de difícil acesso. Mesmo assim, essas pessoas são consideradas privilegiadas em comparação com as centenas de milhares que ainda não puderam regressar às aldeias natais.

Em 1º de setembro, dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) apontavam que cerca de 330 mil pessoas continuavam deslocadas dentro do Líbano. Outras fontes mencionam um total de 360 mil deslocados.

Essas famílias são originárias de cerca de 20 localidades completamente destruídas pelo exército israelense e de outras quarenta aldeias situadas dentro da chamada "zona amarela", uma faixa de segurança de fato criada por Israel no sul do Líbano e que cobre aproximadamente 700 quilômetros quadrados.

"Mesmo que os israelenses permitam nosso retorno, será impossível sobreviver lá, porque nossa aldeia está inabitável", afirma Khaled.

Morador de Blida, localizada a apenas um quilômetro da fronteira israelense em linha reta, ele mostra fotografias aéreas da localidade. Restam apenas escombros por quilômetros.

"As estradas, as redes elétricas, os encanamentos, as casas, as mesquitas, tudo foi destruído", relata. "O objetivo dos israelenses é tornar a região impossível de habitar... e eles conseguiram."

A maioria das famílias impossibilitadas de voltar para casa alugou moradias em outras regiões do país ou encontrou abrigo junto a parentes.

"Um primo que vive na África colocou sua casa à nossa disposição", conta Abou Hussein Ghanawi, analista de informática originário da cidade de Houla. "Refizemos temporariamente nossa vida em Beirute. Conseguimos nos adaptar."

Ajuda seletiva do Hezbollah

Apesar disso, cerca de 20 mil pessoas continuam dependentes da assistência fornecida pelas autoridades libanesas e por organizações internacionais.

Esses deslocados vivem em cerca de 180 centros coletivos de acolhimento espalhados pelo país, instalados principalmente em escolas e prédios públicos. Organizações humanitárias distribuem regularmente alimentos, oferecem atendimento médico e, em alguns casos, apoio financeiro para cobrir necessidades básicas.

O Hezbollah, que mantinha uma ampla rede de assistência social, foi fortemente enfraquecido pela guerra e pelas restrições impostas às suas instituições. Diante das dificuldades, o movimento passou a concentrar seus recursos nos apoiadores mais próximos.

Os efeitos desse enfraquecimento são visíveis. Centenas de famílias foram abandonadas à própria sorte e têm dificuldades para atender às necessidades mais elementares.

"No início da guerra, o Hezbollah ajudava todos os deslocados sem distinção", afirma, em voz baixa, Fawaz, morador de Nabatiyé. "Com o passar dos meses, a lista dos beneficiários foi ficando cada vez menor. Hoje, apenas membros do partido e suas famílias continuam recebendo ajuda, e mesmo essa ajuda está cada vez mais limitada."

Oum Moustapha, Khaled e seus filhos fazem parte desse grupo de deslocados esquecidos, que sobrevivem em condições de extrema vulnerabilidade, contando apenas com os próprios esforços.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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