Antiga origem de colonos, Alemanha hoje é país de imigrantes
Embora enfrente hoje fortes tensões políticas sobre a imigração, a Alemanha tem um passado marcado pela emigração em massa de cidadãos que fugiam da pobreza rumo à América e à Rússia, onde também sofreram preconceito. A partir de meados do século 20, o país inverteu esse fluxo e passou a atrair milhões de trabalhadores estrangeiros. Hoje, apesar de quase um terço de sua população ter origens imigrantes, a sociedade alemã ainda reluta em aceitar plenamente sua realidade multicultural.
Medo da imigração descontrolada domina o debate público no país europeu. Mas muitos esquecem da época em que milhões de alemães emigraram em busca de uma vida melhor."Eles chegam em massa e jamais adotarão nossa língua ou nossos costumes (...) Em breve serão mais numerosos do que nós (...) e até mesmo nosso governo será abalado." Poderia parecer que essas palavras depreciativas sobre refugiados e solicitantes de asilo vieram de integrantes do partido populista de direita Alternativa para a Alemanha (AfD).
No entanto, quem foi duramente acusado de não querer se integrar foram os próprios alemães. A crítica foi feita no século 18 por ninguém menos que Benjamin Franklin, um dos pais fundadores dos Estados Unidos e um dos responsáveis pela famosa declaração da Independência, segundo a qual: "Todos os homens são criados iguais e dotados por seu Criador de certos direitos inalienáveis, entre os quais estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade."
Rumo ao Novo Mundo
Foi justamente essa busca pela felicidade e por uma vida melhor que levou incontáveis pessoas, ao longo dos séculos, a deixar sua terra natal. Guerras, perseguições políticas, discriminação por motivos religiosos, étnicos ou de orientação sexual, além de desastres naturais, pobreza e falta de perspectivas, continuam impulsionando movimentos migratórios.
"Portanto, a migração está longe de ser um fenômeno da modernidade; ela é uma condição normal da existência humana", afirma o historiador e pesquisador de migração Jochen Oltmer. Desde que os seres humanos modernos deixaram a África, há cerca de 100 mil a 120 mil anos, e se espalharam pelo planeta, a migração faz parte da história da humanidade.
Na época de Franklin, o número de alemães que emigravam para os EUA ainda era relativamente pequeno. Até 1820, cerca de 150 mil haviam deixado a Alemanha. Muitos eram atraídos por conterrâneos que contavam histórias de sucesso e prosperidade no exterior. O que a maioria não sabia era que esses recrutadores recebiam dinheiro por cada migrante que convencessem a partir.
Hoje falaríamos em coiotes ou atravessadores, que prometem oportunidades extraordinárias a pessoas dispostas a migrar. As perigosas viagens em embarcações superlotadas também lembram o passado.
"A travessia em um navio à vela custava aproximadamente um ano inteiro de salário de um artesão", explica Simone Blaschka, do Museu Alemão da Emigração, em Bremerhaven. "Para conseguir pagar a viagem, as famílias precisavam vender praticamente tudo o que possuíam."
Viagem ao desconhecido
Poucos imaginavam o que os aguardava durante os meses de viagem. Os passageiros eram acomodados em espaços apertados abaixo do convés, convivendo com pulgas, percevejos e ratos.
A alimentação normalmente consistia em biscoitos marítimos extremamente duros, carne salgada e mingaus estragados, acompanhados de água de qualidade duvidosa e frequentemente contaminada.
Muitos adoeciam com disenteria, tifo, varíola e escorbuto.
Em seu livro Gottlieb Mittelbergers Reise nach Pennsylvanien im Jahr 1750 und Rükreise nach Teutschland im Jahr 1754 (Viagem à Pensilvânia no ano de 1750 e retorno à Alemanha em 1754, em tradução livre), publicado em 1756, o professor e organista Gottlieb Mittelberger descreveu a experiência.
"Muitas pessoas choravam, suspiravam e clamavam desesperadamente por sua pátria. A maioria ainda sofria intensamente de saudade de casa. Em meio a tamanho sofrimento, centenas de pessoas inevitavelmente adoeciam, morriam e precisavam ser lançadas ao mar."
Ao chegar aos EUA, muitos dos companheiros de viagem de Mittelberger acabaram praticamente sendo leiloados. Eram os mais pobres, que haviam recebido passagem gratuita em troca da promessa de trabalhar por anos para quitar suas dívidas. Nos Estados Unidos, esses contratos eram comercializados, separando famílias e levando alguns pais a vender os próprios filhos.
Um convite da czarina russa
Enquanto muitos alemães seguiam para a América, outro grande fluxo migratório dirigia-se para o leste.
Eles atenderam ao convite da imperatriz russa Catarina, a Grande, que era de origem alemã. Em 22 de julho de 1763, ela publicou um manifesto convidando estrangeiros a se estabelecerem na Rússia para ocupar regiões pouco povoadas.
Como incentivos, ofereceu transporte gratuito até o destino escolhido, concessão de terras, isenção de impostos por vários anos, dispensa do serviço militar, acesso à educação e ampla autonomia política.
Os colonos podiam continuar falando alemão e administrar suas próprias comunidades.
A América volta a ser o principal destino
No século 19, porém, a América voltou a ser o grande sonho dos emigrantes alemães. "A população da Alemanha quase dobrou durante o século 19, e é fácil imaginar o impacto disso sobre o mercado de trabalho", explica Simone Blaschka.
Colheitas fracassadas e períodos de fome agravaram ainda mais a situação. "Muitas pessoas não viam futuro para si nem para seus filhos e decidiram emigrar."
Cerca de seis milhões de alemães partiram para o Novo Mundo, motivados também por obras como o guia de emigração publicado em 1832 por W. E. Eggerling, que exaltava as oportunidades existentes nos Estados Unidos: "O homem honesto, inteligente e trabalhador não vive em lugar algum tão bem, tão livre e tão feliz quanto na América."
Migração: problema ou solução?
Os alemães estavam longe de ser os únicos a deixar a Europa.
Segundo Jochen Oltmer, entre o início do século 19 e a Primeira Guerra Mundial, cerca de 60 milhões de europeus emigraram para outras partes do mundo, inclusive para o Brasil- sendo que no país a chegada dos colonos alemães começou em 1824.
Já em meados do século 20, o cenário se inverteu: a Europa deixou de ser um continente de emigração e passou a ser um continente de imigração.
Para Oltmer, a percepção sobre os migrantes está fortemente ligada às perspectivas econômicas da sociedade. "Quando as expectativas em relação ao futuro são positivas, a visão sobre a imigração também tende a ser mais favorável. Quando as perspectivas são negativas, aumenta a rejeição aos migrantes."
Os trabalhadores convidados
Durante o milagre econômico da Alemanha Ocidental, nas décadas de 1950 e 1960, o futuro parecia promissor.
A partir de 1956, os chamados "trens dos trabalhadores convidados" chegavam a cidades como Stuttgart, Dortmund e Colônia trazendo italianos, gregos, espanhóis, portugueses, iugoslavos e turcos recrutados para trabalhar na indústria alemã.
Até o encerramento oficial desse programa, em 1973, cerca de 14 milhões de pessoas chegaram à Alemanha Ocidental como trabalhadores convidados, e aproximadamente 3 milhões permaneceram definitivamente no país.
A falsa premissa "não somos um país de imigração"
Apesar disso, a Alemanha demorou a se enxergar como um país de imigração. "Durante muito tempo predominou a ideia de que, independentemente do motivo de terem vindo, essas pessoas não pertenciam à sociedade alemã porque acabariam retornando aos seus países", explica Oltmer. "E, como se acreditava que elas iriam embora, não se considerava necessário investir em sua integração."
Segundo o Departamento Federal de Estatísticas, em 2025 mais de 30% da população alemã tinha algum histórico de imigração. Ainda assim, muitos descendentes de imigrantes continuam sem se sentir plenamente aceitos. "O reconhecimento social foi muito limitado e, quando existiu, precisou ser conquistado com muito esforço", afirma o pesquisador.
Quem é bem-vindo e quem não é?
Atualmente, a Alemanha busca atrair profissionais qualificados, enquanto refugiados só recebem asilo caso sejam perseguidos politicamente ou estejam fugindo de conflitos armados.
Para Oltmer, a aceitação dos migrantes varia conforme sua origem. Ele cita a crise migratória de 2015. "Dizia-se aos sírios 'vocês têm direito à proteção por causa da guerra civil'. Mas, ao mesmo tempo, a sociedade alemã olhava para pessoas vindas do Afeganistão com muito mais desconfiança."
Debate permanente
Migração e asilo continuam sendo temas centrais no debate político alemão e europeu.
Segundo Oltmer, os políticos têm a responsabilidade de conduzir essa discussão de maneira equilibrada. Ele destaca que os pedidos de asilo representam apenas cerca de 10% da migração para a Alemanha, enquanto a maior parte dos movimentos migratórios ocorre por motivos de trabalho, estudo ou reunião familiar.
"Quando a discussão pública se concentra apenas em imagens negativas e escândalos, ocorre uma enorme distorção da realidade."
Os descendentes daqueles alemães que Benjamin Franklin certa vez chamou de "camponeses rudes do Palatinado" estão hoje plenamente integrados à sociedade dos EUA.
Na Alemanha, porém, o processo de integração ainda enfrenta obstáculos. Segundo Oltmer, há um enorme atraso na regularização da situação de muitos imigrantes que vivem há anos no país.
Por isso, ele defende um debate amplo sobre o futuro da sociedade alemã. "Essa não é uma discussão que possa ocorrer apenas de forma confortável dentro da própria bolha. Às vezes será um debate duro e até doloroso. Mas não há alternativa."
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