Trump oscila entre escalada e recuo na guerra contra o Irã em meio a riscos políticos e estratégicos
Mesmo após ameaçar destruir a infraestrutura energética iraniana, presidente teria dito a assessores que está disposto a encerrar guerra
As explosões que deixaram áreas de Teerã sem eletricidade nesta terça-feira, 31, voltam a expor o impasse estratégico no qual o presidente dos Estados Unidos se encontra. Mesmo após ameaçar "destruir" a infraestrutura energética iraniana caso as negociações não avancem, Trump teria dito a assessores que está disposto a encerrar a guerra contra o Irã. A manobra, no entanto, implicaria o risco político de parecer recuar diante de Teerã.
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Entre autorizar operações terrestres de alto custo, como as discutidas na Ilha de Kharg, ou interromper uma ofensiva que inquieta mercados e aliados, Trump se vê cada vez mais limitado por uma guerra cujas consequências estratégicas se tornam difíceis de controlar.
Segundo o Wall Street Journal, Trump poderia interromper sua campanha militar por acreditar que forçar a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa um quinto do petróleo mundial, prolongaria o conflito "além do prazo de quatro a seis semanas" que ele imaginou ao embarcar na ofensiva aérea ao lado de Israel.
Caso a diplomacia falhe, Trump planeja pedir a seus aliados na Europa e no Golfo que forcem a reabertura, disseram autoridades americanas ao jornal.
Diante da imprevisibilidade do americano, a diplomacia internacional se reorganiza fora de Washington. Segundo apuração do site Político, o Japão tem atuado como canal indireto de comunicação com o Irã. O ministro das Relações Exteriores japonês, Toshimitsu Motegi, e o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, já conversaram ao menos duas vezes desde o início da guerra.
O movimento reflete preocupações diretas com energia. O Japão depende do Estreito de Ormuz para cerca de 90% do petróleo que consome e já iniciou a maior liberação de reservas estratégicas de sua história. A primeira-ministra Sanae Takaichi afirmou que pode avançar diplomaticamente. "Vou avaliar o momento adequado para abrir negociações com base no interesse nacional, de forma abrangente", disse ao indicar que considera dialogar diretamente com Teerã.
Outro ator que entra nesse cenário é o Paquistão, que afirmou estar disposto a sediar negociações entre Estados Unidos e Irã nos próximos dias, após reuniões com líderes regionais. A iniciativa reforça a percepção de que os principais canais de diálogo estão se deslocando para fora da Casa Branca.
Trump envia mensagens contraditórias
Apesar dessas movimentações, o discurso do presidente Donald Trump segue marcado por idas e vindas, alternando sinais de negociação com ameaças de escalada.
No domingo à noite, falando a jornalistas a bordo do Air Force One, Trump chegou a afirmar que já haveria uma espécie de mudança de regime no Irã. Segundo ele, "o regime foi destruído, eliminado, todos estão mortos" - uma declaração que não se confirma na prática.
Já em entrevista ao Financial Times, o presidente elevou o tom e disse que considera inclusive assumir ativos estratégicos iranianos. "Talvez a gente tome a ilha de Kharg, talvez não. Temos muitas opções", afirmou, ao mencionar o principal polo de exportação de petróleo do país.
Em uma publicação nas redes sociais, Trump foi ainda mais direto ao ameaçar destruir infraestrutura energética iraniana caso não haja acordo, incluindo usinas, campos de petróleo e a própria ilha de Kharg.
Desconfiança em Teerã
Do lado iraniano, o discurso é de desconfiança. Em um comunicado, o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que há um descompasso entre discurso e prática. Segundo ele, "o inimigo fala em negociação em público, mas em segredo planeja um ataque terrestre".
O impasse também aparece nas propostas formais. Os Estados Unidos apresentaram um plano com cerca de 15 pontos que inclui o desmantelamento do programa nuclear iraniano, limites ao desenvolvimento de mísseis e a redução da atuação regional de Teerã, em troca do alívio de sanções.
O Irã rejeitou a proposta e exige o fim imediato dos ataques, compensações pelos danos e garantias contra novas ofensivas, ampliando a distância entre as posições.
Enquanto isso, a presença militar americana continua a crescer. Milhares de tropas foram mobilizadas para a região, incluindo cerca de 3.500 militares adicionais nos últimos dias. Ainda assim, analistas avaliam que uma invasão por terra seria altamente complexa e arriscada, com grande potencial de baixas.
Luciana Rosa, correspondente da RFI em Nova York