Recorde de voto antecipado e ofensiva judicial de Trump marcam eleição de meio mandato
A poucos dias das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, a disputa pelo controle do Congresso entra na reta final marcada por uma ofensiva judicial do governo de Donald Trump e por uma participação recorde no voto antecipado. Quase 50 milhões de americanos já depositaram seus votos, número superior ao registrado antes das midterms de 2022.
As eleições de meio de mandato nos EUA batem recorde de participação com mais de 49 milhões de votos antecipados, cenário que favorece inicialmente os democratas na tentativa de controlar o Congresso. Paralelamente, o governo Trump intensifica uma ofensiva jurídica por meio do Departamento de Justiça, questionando listas eleitorais e votações em dezenas de estados, como Alasca e Califórnia, gerando tensão institucional enquanto mobiliza a base republicana para a votação presencial.
Pierre Fesnien, enviado especial aos EUA, e agências
O Departamento de Justiça intensificou ações judiciais e investigações relacionadas ao processo eleitoral, provocando preocupação entre autoridades encarregadas de organizar a votação.
No Alasca, um dos estados que podem ser decisivos para o controle do Senado, o Departamento de Justiça acelerou uma investigação criminal envolvendo a eleição para o Senado.
A apuração foi ampliada depois de uma reportagem do New York Times. O jornal revelou que colaboradores da candidata democrata Mary Peltola teriam recrutado um professor aposentado chamado Daniel J. Sullivan Jr. para disputar a eleição. O nome é praticamente idêntico ao do senador republicano Dan Sullivan, que tenta a reeleição.
O principal procurador federal no Alasca, Michael Heyman, classificou o candidato independente como um possível "candidato falso", mas não informou qual crime ele poderia ter cometido. Peltola nega ter conhecimento de qualquer tentativa de recrutamento, enquanto o professor aposentado também rejeita ter coordenado sua candidatura com a campanha democrata.
A administração Trump também entrou na Justiça para tentar impedir que o Alasca certifique o resultado da eleição para o Senado caso a disputa entre o republicano Dan Sullivan e Daniel Sullivan Jr. seja decidida por uma margem estreita.
A corrida no Alasca é considerada importante para os democratas, que tentam recuperar o controle do Senado. Atualmente, os republicanos têm 53 das 100 cadeiras da Casa, contra 47 dos democratas. Para obter a maioria, os democratas precisam conquistar quatro cadeiras a mais do que os republicanos.
Ofensiva em vários estados
A atuação da administração Trump não se limita ao Alasca. O Departamento de Justiça também processou a Califórnia para tentar impedir a contagem de votos de mais de 20 mil eleitores registrados, sob a alegação de que eles poderiam não ser cidadãos americanos.
O governo federal ainda entrou na Justiça contra cerca de 30 estados e o Distrito de Columbia para obter acesso a listas eleitorais completas. Os documentos podem conter informações pessoais dos eleitores, como números de Seguro Social, carteiras de motorista, datas de nascimento e endereços.
Na sexta-feira, um juiz federal determinou que o Departamento de Justiça pare de ameaçar autoridades eleitorais da Califórnia que não cumpram as exigências do governo federal relacionadas a eleitores supostamente não cidadãos.
Para especialistas em direito eleitoral, a ofensiva pode produzir efeitos mesmo quando o governo não consegue vencer as disputas nos tribunais. Sean Morales-Doyle, diretor do programa de direitos de voto e eleições do Brennan Center for Justice, afirmou que as ações podem gerar um ambiente de medo e desconfiança entre as autoridades responsáveis pelas eleições.
Apesar da disputa política e jurídica, uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada entre 30 de setembro e 5 de outubro mostra que 76% dos americanos confiam que seus votos serão contabilizados corretamente. O nível de confiança é semelhante entre eleitores republicanos e democratas.
Voto antecipado bate recorde
Enquanto a batalha jurídica se intensifica, a participação eleitoral cresce. Segundo o Election Lab, da Universidade da Flórida, mais de 49 milhões de americanos já votaram, seja pessoalmente ou pelo correio. Nas eleições de meio de mandato de 2022, cerca de 46 milhões haviam votado antecipadamente.
A mobilização é particularmente forte em estados onde a disputa pelo Senado promete ser apertada. Os primeiros dados também mostram uma participação proporcionalmente maior de eleitores democratas.
O resultado, porém, ainda está longe de ser conhecido. Uma forte mobilização republicana no dia oficial da eleição, terça-feira, 3 de novembro, pode alterar completamente o cenário revelado pelo voto antecipado.
É justamente para isso que Donald Trump vem intensificando sua campanha. O presidente afirmou na sexta-feira que os republicanos "têm uma chance" de obter um bom resultado, embora tenha reconhecido que historicamente o partido do presidente costuma perder cadeiras nas eleições de meio de mandato.
Trump passou o último mês percorrendo estados do país para mobilizar sua base. Neste sábado, porém, não tinha compromissos presenciais, em uma pausa que coincide com o Halloween e com a temporada de futebol universitário. No domingo, ele volta à campanha em Iowa e no Kansas, dois estados tradicionalmente conservadores onde os republicanos enfrentam dificuldades maiores do que o esperado.
Democratas tentam aproveitar desgaste de Trump
Os democratas esperam conquistar o controle da Câmara dos Representantes e, se possível, também do Senado. O partido tenta ainda ampliar sua presença entre os governadores.
Os primeiros sinais de mobilização favorecem a oposição. O voto antecipado cresce nos estados mais disputados, e os democratas aparecem à frente entre aqueles que já depositaram seus votos.
Trump, entretanto, aposta no poder de mobilização de sua base. Durante um comício na Flórida, voltou a atacar os democratas e afirmou que seus apoiadores precisam impedir que o partido adversário assuma o controle do Congresso.
O presidente também repetiu a promessa de distribuir US$ 5 mil a cada cidadão caso os republicanos vençam as eleições, embora persistam dúvidas sobre a legalidade e o financiamento da medida.
As midterms serão um teste importante para a segunda metade do mandato de Trump. Uma vitória democrata em uma ou nas duas Casas do Congresso poderia abrir caminho para novas investigações parlamentares sobre a administração republicana, que governou os dois últimos anos com amplo apoio do Congresso.
O resultado também poderá definir o grau de dificuldade que Trump enfrentará nos próximos dois anos para implementar sua agenda.
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