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América Latina

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Na Venezuela, a 'diplomacia do terremoto' a todo o vapor, apesar das desavenças entre os países

O duplo terremoto ocorrido na quarta-feira (24) na Venezuela deixou pelo menos 920 mortos, segundo o último balanço oficial, ainda provisório, e mais de 50 mil desaparecidos. A emergência humanitária obriga, em princípio, a comunidade internacional a se mobilizar para prestar apoio a um país afetado por uma catástrofe, independentemente de as relações diplomáticas estarem deterioradas.

27 jun 2026 - 11h16
(atualizado às 11h30)
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Christophe Drevet, da RFI em Paris

O número de vítimas deve aumentar, conforme as equipes de resgate continuam as buscas. A região de La Guaira, a 200 quilômetros ao norte da capital Caracas, foi a mais afetada pelos terremotos, de magnitude 7,2 e 7,5, os piores a atingirem o país desde 1900.

Desde o início da tragédia, afloram mundo afora ofertas de ajuda a Caracas, que vive sob um governo provisório desde a queda do regime de Nicolás Maduro, detido pelos Estados Unidos, em janeiro. O envio de ajuda humanitária é também uma oportunidade para os países reavaliarem suas relações e até promoverem uma campanha de sedução, para fins diplomáticos ou estratégicos.

Pelo menos 17 países já começaram a prestar ajuda, independentemente de suas relações por vezes complicadas com a Venezuela. As primeiras 72 horas são cruciais para salvar feridos presos nos escombros.

Corrida contra o tempo

"Não pensamos em fatores ideológicos neste tipo de situação. Trata-se de ajudar uma população", afirma Jean-Jacques Kourliandsky, diretor do Observatório da América Latina e do Caribe da Fundação Jean Jaurès, em Paris. "Nenhum país correria o risco de ser isolado ao recusar ajuda à Venezuela, especialmente porque o governo em vigor hoje não tem nada em comum com o de Nicolás Maduro."

A ajuda internacional está sendo organizada e exigirá um "enorme esforço coletivo", alertou o chefe da ajuda humanitária da ONU, Tom Fletcher. No local, o Gabinete das Nações Unidas para os Assuntos Humanitários (Ocha) dispõe de 25 unidades, incluindo 17 equipes internacionais de busca e salvamento urbano e oito equipes médicas de emergência, num total de 1.000 socorristas. Equipes do Chile, Colômbia, El Salvador, Itália, México, Suíça e Estados Unidos já chegaram à Venezuela.

Outras equipes do Reino Unido, República Tcheca, Equador, França, Alemanha, Jordânia, Catar e Espanha, entre outros, estão a caminho, e a União Europeia também declarou estar "pronta para ajudar a Venezuela".

Os Estados Unidos anunciaram na sexta-feira o envio de 250 profissionais, depois de oferecerem US$ 150 milhões e enviarem dois navios de guerra, aviões de transporte e helicópteros para apoiar o país.

Alain Coutand, coordenador para a Venezuela da ONG Solidarités International, concorda:

"Inicialmente, é a humanidade que deve prevalecer. Já há um bom sinal: as autoridades venezuelanas apelaram à ajuda internacional e estão, portanto, abertas à intervenção de equipes estrangeiras", indicou. "Num país muito centralizado e muitas vezes rígido como a Venezuela, atuamos com muita cautela. Praticamos a diplomacia humanitária."

O profissional observa que, em alguns países, a atuação de ONGs internacionais pode ser considerada uma ingerência e elas são obrigadas a negociar o acesso a determinadas áreas para poder trabalhar. "Mas não na Venezuela. Até agora, não houve qualquer interferência política na nossa ação."

Diplomacia dos países vizinhos

O país compartilha fronteiras com a Colômbia, com a qual teve uma série de episódios de tensão devido à presença de grupos armados colombianos em áreas muito próximas ao território venezuelano. Mesmo assim, uma ajuda inicial já foi enviada pelo atual presidente de esquerda, Gustavo Petro, que buscou melhorar as relações e iniciar uma nova cooperação com Caracas durante uma visita em abril de 2026, quando se reuniu com a presidente interina Delcy Rodríguez.

Outros países vizinhos, como o Brasil, se mobilizaram. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou sua "determinação em apoiar o governo da presidente em exercício Delcy Rodríguez na reconstrução das áreas afetadas.

Foi também o caso da Argentina, "apesar das diferenças com o governo de Caracas", salientou o presidente Javier Milei, ao expressar solidariedade ao povo venezuelano.

Corpos de vítimas de terremoto à espera de remoção, em Catia La Mar. (27/06/2026)
Corpos de vítimas de terremoto à espera de remoção, em Catia La Mar. (27/06/2026)
Foto: RFI

O presidente de extrema direita do Chile, José Antonio Kast, eleito com uma plataforma que previa o retorno dos refugiados venezuelanos ao seu país, pode ter interesse em estabelecer laços com o atual governo de Caracas, bem como o presidente-eleito colombiano, Abelardo de la Espriella, de extrema direita. 

Quase 8 milhões de venezuelanos deixaram seu país nos últimos anos, dos quais 6,5 milhões foram acolhidos por nações latino-americanas.

Solidariedade como 'catalisador para a reaproximação'

Outras mensagens de apoio vieram de países conhecidos pela proximidade com a Venezuela: Cuba, por exemplo, já conta com médicos no local, que estão "totalmente mobilizados", segundo o chanceler cubano. O Irã também disse estar disposto a ajudar sua aliada de longa data.

A China, que havia se distanciado de Caracas após o sequestro do presidente Maduro, sinalizou que também enviará ajuda humanitária. Pequim poderá auxiliar nas operações de socorro e "reconstrução", afirmou o presidente chinês Xi Jinping, segundo relatos da mídia estatal chinesa.

A mobilização de recursos e a solidariedade internacional tornaram-se a norma após desastres. "Essa situação lamentável e trágica para a população venezuelana também pode servir como catalisador para aproximar os pontos de vista de Caracas e de outros países, durante um período de transição altamente sensível para a Venezuela, iniciado em janeiro", comenta Alain Coutand.

Neste sentido, um caso da história recente se destaca: o da Grécia e da Turquia. A ajuda humanitária prestada por Atenas durante os terremotos devastadores na Turquia em 1999 e fevereiro de 2023 ajudou a amenizar, em certa medida, as relações tensas entre os dois vizinhos, dando origem ao termo "diplomacia dos terremotos".

Essa diplomacia ajudou a abrir caminho para vários acordos de cooperação entre as duas nações e fez avançar as negociações sobre a ilha de Chipre, cuja parte norte permanece sob ocupação turca. As discussões estão paralisadas.

Soft power e estratégia

A ajuda fornecida pelos países também representa uma oportunidade para atender a interesses ou metas específicos. As ações dos Estados Unidos são observadas de perto.

Washington anunciou imediatamente planos de liberação de US$ 150 milhões em ajuda: US$ 50 milhões para organizações humanitárias em campo e US$ 100 milhões para o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), especificou o Departamento de Estado dos EUA.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, prometeu uma resposta que envolva "todo o governo", descrevendo a ajuda como "significativa, rápida e eficaz".

Os anúncios marcam uma reversão completa da política adotada pelo governo de Donald Trump, que implementou cortes recordes nas contribuições dos EUA para agências da ONU e ONGs envolvidas em desenvolvimento e ajuda humanitária. Essa medida comprometeu a estratégia de soft power que o país construiu ao longo de décadas.

Segundo o especialista em política na América Latina Jean-Jacques Kourliandsky, "os Estados Unidos colocaram o regime venezuelano sob sua tutela em janeiro passado, transformando-o efetivamente em um regime aliado. Washington, portanto, não tem escolha a não ser fornecer assistência", ressalta.

"É também uma oportunidade para desviar a atenção do Oriente Médio e do fracasso militar do governo Trump em relação ao Irã, particularmente no Estreito de Ormuz." Desta vez, afirma o pesquisador, "o objetivo é mostrar que os Estados Unidos têm coração, que não são apenas um país que lança bombas, mas também um país que fornece ajuda quando necessário".

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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