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América Latina

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Como o ouro venezuelano entrou na diplomacia dos Estados Unidos

Sanções costumam ser mais sinceras quando começam a ser desmontadas. A ordem das exceções diz muito sobre o que Washington realmente quer.

7 set 2026 - 14h07
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Resumo
Os Estados Unidos flexibilizaram sanções sobre o ouro e minerais venezuelanos para atrair recursos estratégicos, religando o país a circuitos econômicos seletivos. Enquanto Caracas tenta retomar o controle de áreas tomadas pelo crime para atrair capital estrangeiro, a medida preocupa especialistas. Sem mecanismos eficazes de rastreabilidade, essa reabertura corre o risco de legitimar e lavar o ouro extraído ilegalmente da Amazônia, incluindo reservas do Brasil e das Guianas.

Thiago de Aragão, analista político

Na Venezuela, o petróleo veio primeiro. Era previsível. Agora, os Estados Unidos começam a montar uma arquitetura parecida para o ouro, os minerais e o carvão. O subsolo venezuelano entrou, de vez, na diplomacia de Washington.

Isso não encerra as sanções. Longe disso. A abertura é controlada, seletiva e, sobretudo, reversível. Ainda assim, muda o lugar da Venezuela no cálculo norte-americano: o país deixou de ser visto somente como um problema político ou uma reserva petrolífera e passou a ocupar espaço na disputa por recursos estratégicos, cadeias de suprimento e influência sobre a Amazônia e o Escudo das Guianas.

O desenho começou em 6 de março, quando o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos (OFAC) publicou a Licença Geral 51, autorizando determinadas atividades relacionadas ao ouro de origem venezuelana. Três semanas depois, Washington ampliou a autorização para outros minerais, permitiu o fornecimento de alguns bens e serviços ao setor e abriu a possibilidade de negociar contratos condicionais de investimento.

Em 2 de setembro, o OFAC mexeu novamente nessa estrutura. As licenças 51D, 54C e 55A passaram a incluir expressamente carvão, minerais e ouro, assim como serviços e negociações ligadas a investimentos futuros. A linguagem continua estreita de propósito: Washington autoriza "determinadas atividades", não o comércio inteiro, e mantém de pé o restante do regime de sanções.

A Venezuela não foi normalizada. Está sendo religada a circuitos econômicos escolhidos pelos Estados Unidos, tomada por tomada.

A produção venezuelana não nasce de um setor convencional, com empresas transparentes, rastreabilidade confiável e uma autoridade regulatória que chegue aonde o mapa oficial diz que ela chega. Durante anos, o Arco Mineiro do Orinoco virou uma economia paralela. Ali se cruzam autoridades políticas, oficiais militares, grupos armados, atravessadores e organizações criminosas, cada qual com seu pedaço da mina, da estrada ou do silêncio.

O metal ganhou peso quando o colapso do petróleo secou as divisas. E trouxe uma vantagem nada desprezível para quem prefere operar nas sombras: pode ser carregado em pequenas quantidades, fundido, misturado e reexportado com documentos novos. Uma barra não conta de qual mina saiu. Muito menos quem trabalhou nela ou qual território indígena ficou para trás.

Essa amnésia cabe no bolso

A história da região, aliás, já passou por isso. Quando o ouro foi descoberto no território disputado entre a Venezuela e a Guiana Britânica, Londres tentou ampliar sua presença sobre a área. A disputa escalou até a crise de 1895, quando o secretário de Estado Richard Olney invocou a Doutrina Monroe e pressionou o Reino Unido a aceitar arbitragem. Mais de um século depois, o ouro volta a puxar Washington para o Escudo das Guianas, agora pela porta das sanções, não pela linha de fronteira.

O novo governo venezuelano tenta recuperar o comando dessa economia. Em abril, Caracas aprovou uma legislação para atrair capital estrangeiro ao setor mineral. Em junho, enviou forças para Las Claritas, no estado de Bolívar, uma das principais áreas de mineração ilegal do país. Segundo a Reuters, a operação ocorreu enquanto o governo procurava reabrir um setor praticamente fechado ao investidor estrangeiro desde as nacionalizações iniciadas durante o governo de Hugo Chávez.

Oficialmente, é uma ofensiva contra o crime organizado. Economicamente, a lógica é outra e bastante simples: ninguém oferece uma concessão séria sobre um território que não controla. Antes de atrair investidores, Caracas precisa provar que manda nas minas, nas estradas e nas rotas de exportação. A região antes tolerada como fonte informal de renda agora precisa virar ativo negociável.

Washington quer criar canais legais para o ouro venezuelano antes que a Venezuela tenha mostrado capacidade de separar produção formal, extração ilegal e interesses de atores sancionados. A licença chega antes da rastreabilidade. O mercado, sabemos, não costuma esperar a papelada alcançar a realidade.

Um estudo publicado em março pela Global Initiative Against Transnational Organized Crime identificou uma inversão nas rotas do ouro ilegal da Amazônia. O metal já não sai somente da Venezuela. Ouro extraído no Brasil e na Guiana passou a entrar em território venezuelano, enquanto Boa Vista se consolidou como centro logístico de fluxos alimentados por rodovias, aeronaves pequenas, pistas clandestinas e fronteiras onde a presença estatal oscila entre escassa e decorativa.

Investigadores brasileiros chegaram a conclusão semelhante. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o aumento da fiscalização no Brasil empurrou redes criminosas para Venezuela, Guiana e Suriname. O ouro retirado ilegalmente de terras indígenas cruza a fronteira, ganha novos documentos e pode reaparecer no mercado internacional com uma biografia perfeitamente limpa.

Para o Brasil, destruir pistas e equipamentos dentro do território nacional resolve uma parte visível do problema. A rede aprende rápido. Quando a repressão aperta de um lado, ela muda a rota, o comprador e o papel que acompanha o metal. A fronteira não interrompe o negócio; apenas encarece a travessia.

Para a França, tudo isso está bem mais perto do que parece. A Guiana Francesa convive há décadas com uma economia ilegal do ouro conectada ao Brasil e ao Suriname. Um estudo da Fondation pour la Recherche Stratégique estimou em cerca de € 70 milhões por ano o custo das operações francesas de repressão, enquanto as perdas econômicas associadas à mineração ilegal superariam € 500 milhões. Essas redes teriam capacidade para ocultar ou lavar aproximadamente dez toneladas de ouro por ano.

Caiena está na Amazônia. Bruxelas também, embora nem sempre se lembre disso.

A Guiana Francesa é a fronteira amazônica da União Europeia e uma linha de contato direta entre o mercado europeu, as redes criminosas brasileiras e as economias informais do Escudo das Guianas. O ouro que atravessa essa geografia não respeita as categorias confortáveis de política externa. Ele mistura segurança, meio ambiente, crime organizado, sanções e disputa por recursos numa mesma barra.

A abertura norte-americana pode atrair investimento, tecnologia e algum grau de transparência para a mineração venezuelana. Pode ainda dar a Caracas um incentivo para substituir grupos armados por operadores formais e voltar a exercer autoridade em áreas abandonadas pelo Estado.

Esse é o cenário otimista. O outro é menos elegante. Se a demanda legal crescer antes que existam mecanismos confiáveis de rastreabilidade, o novo mercado autorizado poderá absorver ouro extraído ilegalmente no Brasil, na Guiana ou na própria Venezuela. A flexibilização não desmontaria a economia criminosa. Daria a ela uma porta nova, com placa oficial e acesso ao sistema financeiro internacional.

A pergunta, portanto, não é se o ouro venezuelano pode voltar ao mercado. É outra: quem o extraiu, quem controlou o caminho e quantas vezes sua origem foi reescrita até a exportação?

Washington está abrindo uma rota legal para os minerais venezuelanos. O ouro ilegal já sabe viajar.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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