Cabo Verde impede desembarque de cruzeiro após suspeita de foco de hantavírus
As autoridades de Cabo Verde impediram nesta segunda-feira (4) o desembarque de passageiros de um navio de cruzeiro com suspeita de foco de hantavírus. A embarcação não recebeu autorização para atracar no porto da Praia, capital do país, como medida de precaução para proteger a população, segundo informou o setor de saúde cabo-verdiano. O navio poderia seguir para às Canárias, território espanhol, onde o desembarque seria autorizado.
Por Odair Santos, correspondente da RFI em Cabo Verde, e Miguel Martins
"Em coordenação com outras autoridades, não foi concedida ao navio autorização para atracar no porto da Praia", afirmou a presidente do Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP), Maria da Luz Lima, em entrevista à Rádio de Cabo Verde, emissora pública do país.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou no domingo (3) a ocorrência de três mortes relacionadas a um possível surto de hantavírus a bordo do cruzeiro MV Hondius, que navegava pelo Atlântico. O navio havia partido de Ushuaia, na Argentina, com destino ao arquipélago de Cabo Verde.
As autoridades sanitárias acompanham a situação da embarcação, que segue parada na entrada do porto da Praia. O navio transporta 149 pessoas, de 23 nacionalidades, entre passageiros e tripulantes, e permanece sem autorização para atracar. Segundo o governo, a assistência aos ocupantes está sendo feita por equipes de saúde equipadas com trajes de proteção integral.
O MV Hondius entrou em águas cabo-verdianas no domingo, 3 de maio, após a notificação de entidades sanitárias internacionais sobre um surto de doença respiratória a bordo, com registro de casos graves e três mortes. Desde então, o navio segue em alto-mar sob monitoramento contínuo das autoridades nacionais.
De acordo com o Ministério da Saúde, após avaliação técnica e epidemiológica, foi decidida a não autorização da atracação no porto da Praia, com base no princípio da precaução e em conformidade com o Regulamento Sanitário Internacional, com o objetivo de proteger a saúde pública.
Pacientes devem ser retirados do navio
Ainda conforme o ministério, três pessoas apresentam sintomas da doença. Elas foram avaliadas por equipes médicas e se encontram clinicamente estáveis. A diretora nacional de Saúde, Ângela Gomes, informou à rádio pública que a evacuação sanitária dos pacientes deve ocorrer até o fim do dia, em aeronaves parecidas com uma ambulância aérea.
"Do ponto de vista sanitário, conduzimos toda a intervenção com o máximo de segurança para os nossos profissionais. O navio deve permanecer até hoje, dia 4, enquanto aguardamos a conclusão da operação de evacuação aérea dos pacientes", explicou a diretora.
Segundo a OMS, até agora três pessoas morreram entre os seis casos identificados nesse surto de síndrome respiratória aguda a bordo do MV Hondius. Pelo menos um dos casos teve confirmação laboratorial de hantavírus, um grupo raro de vírus associado principalmente a roedores.
Em comunicado, o Ministério da Saúde de Cabo Verde garantiu que a situação está sob controle e que, até o momento, não há risco para a população em terra.
A resposta ao incidente é coordenada entre os setores de saúde e autoridades portuárias, com apoio da OMS e em articulação com autoridades dos Países Baixos, país de origem do navio, e do Reino Unido, país de origem de ao menos uma das pessoas afetadas.
Contaminação provável na Argentina
Especialistas explicam que o hantavírus é transmitido aos humanos principalmente pelo contato com excrementos de roedores infectados. Em entrevista à RFI, o especialista brasileiro Vítor Junior, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, avaliou que roedores silvestres possivelmente tiveram contato com o navio durante operações de embarque ou desembarque de carga em algum porto da Argentina, onde há registro do vírus.
Segundo ele, a transmissão entre pessoas por via respiratória é rara.
"O mais importante agora é identificar e eliminar os roedores, entender onde estão esses animais e interromper a cadeia de transmissão", afirmou.
Vítor Junior destacou ainda que se trata de uma doença grave, que pode provocar insuficiência respiratória, exigindo ventilação mecânica em casos mais severos.
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