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Acordo entre Líbano e Israel cria expectativas, mas implementação ainda é incerta

Após o acordo firmado entre Líbano e Israel para tentar encerrar anos de tensão na fronteira, ainda há dúvidas sobre como os principais compromissos assumidos pelas partes serão implementados na prática. Questões centrais, como a retirada das tropas israelenses do sul do Líbano e o desarmamento do Hezbollah, continuam cercadas de incertezas.

2 jul 2026 - 09h40
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Henry Galsky, correspondente da RFI em Israel

Israel mantém uma presença militar no Líbano desde 2024, quando passou a ocupar cinco pontos no sul do país.
Israel mantém uma presença militar no Líbano desde 2024, quando passou a ocupar cinco pontos no sul do país.
Foto: REUTERS - Amir Cohen / RFI

Há um marco histórico importante neste acordo, na medida em que os dois países declaram que reconhecem o direito mútuo de viver em paz e segurança. Israel e Líbano não mantêm relações diplomáticas, mas este pode ser um passo inicial nesse sentido.  

O fato é que as negociações mediadas pelos Estados Unidos têm como foco resolver as questões mais urgentes, principalmente a ocupação israelense no sul do Líbano e também a demanda de segurança por parte de Israel, em especial do norte do território. 

Israel mantém uma presença militar no Líbano desde 2024, quando passou a ocupar cinco pontos no sul do país. Mas, após o início da guerra contra o Irã e os ataques do Hezbollah, ampliou sua presença militar no sul do Líbano. A ofensiva destruiu boa parte dos vilarejos, provocou o deslocamento interno de mais de um milhão de libaneses e resultou na criação de uma faixa de segurança que avança entre cinco e dez quilômetros pelo território.

Sobre esse ponto, há duas narrativas distintas. Segundo o Hezbollah, os ataques com foguetes e drones iniciados em março deste ano são uma resposta às violações israelenses do acordo de cessar-fogo firmado em 2024.

Já Israel afirma que o Hezbollah intensificou os ataques em apoio ao Irã. Na avaliação israelense, a ofensiva está ligada à guerra iniciada no fim de fevereiro por Israel e Estados Unidos, que, em um primeiro momento, tinha como objetivo provocar a queda do regime iraniano. Como o Hezbollah é um "proxy" do Irã, um grupo aliado a Teerã, a ação do Hezbollah é considerada um ato de vingança pelos ataques contra o regime de Teerã.

Inclusive, internamente no Líbano, há o debate sobre até que ponto o Hezbollah tem interesse real na defesa da soberania libanesa ou se age para favorecer seu "patrão" iraniano.

Dúvidas sobre a retirada israelense

Israel afirma que irá permanecer no Líbano até que o Hezbollah seja desarmado. Trata-se de um processo complexo, que requer muito mais do que boa vontade entre as partes.

O Hezbollah não aceita abrir mão de suas armas. Ao mesmo tempo, o Irã afirma que o Memorando de Entendimento assinado com os Estados Unidos determina o fim das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano.

Para Israel, porém, o Hezbollah continua representando uma ameaça permanente às comunidades do norte do país, o que justifica a manutenção de tropas israelenses em território libanês.

O acordo assinado entre Líbano e Israel prevê o estabelecimento de zonas-piloto em vilarejos atualmente ocupados pelas tropas israelenses. Dessas áreas, os soldados deverão se retirar para dar lugar ao Exército regular libanês, que passará a ter a missão de conter e desarmar o Hezbollah.

Como o acordo deverá funcionar

Segundo a TV pública israelense, haverá um fórum conjunto entre militares israelenses e libaneses para estabelecer os passos de forma a que este plano saia do papel. 

Os Estados Unidos deverão aprovar os nomes dos envolvidos, em especial do lado libanês, porque temem que as informações sejam encaminhadas ao Hezbollah. 

Em Israel, há a expectativa de que este mecanismo permita uma coordenação em maior nível com os libaneses. 

No entanto, ainda de acordo com a TV pública israelense, a avaliação de fontes do exército é que o processo de retirada das tropas vai levar mais tempo do que se imaginava inicialmente porque as autoridades do país ainda aguardam esclarecimentos de Washington sobre como os norte-americanos vão se envolver neste mecanismo. 

A visão israelense sobre as negociações entre Irã e Estados Unidos

Segundo informações obtidas pela RFI, o temor das autoridades israelenses é de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seja arrastado pelos iranianos para negociações intermináveis e improdutivas. Uma das técnicas seria a burocratização do processo, com debates, avanços e recuos sobre os termos do Memorando de Entendimento assinado entre EUA e Irã em 17 de junho. 

Os serviços de inteligência de Israel não acreditam que o Irã esteja realmente interessado em chegar a um acordo final com os EUA. Ou seja, um acordo ao final do prazo de 60 dias de negociações inicialmente estabelecido pelo Memorando de Entendimento. 

Na visão israelense, o objetivo do regime iraniano seria o de liberar os ativos financeiros congelados pelas sanções norte-americanas - ou parte desses ativos -, impedir a continuidade da guerra aberta com os EUA e Israel, cujo cessar-fogo foi declarado em 7 de abril, garantir a consolidação do Estreito de Ormuz como ativo do Irã e salvar o Hezbollah, no Líbano.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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