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Mulheres são mais inteligentes emocionalmente que homens, e isso é um problema, revela estudo

Nova pesquisa é um dos maiores estudos sobre inteligência emocional realizados até o momento, abrangendo dados de mais de 600 mil pessoas ao longo de quase 30 anos

13 out 2026 - 08h03
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Resumo
Um amplo estudo com 600 mil pessoas revelou que as mulheres têm maior inteligência emocional que os homens, destacando-se na empatia com os sentimentos alheios. Essa vantagem decorre da criação e da prática social desde a infância, e não da biologia. Contudo, essa habilidade feminina costuma ser vista como natural e vira uma sobrecarga não remunerada no trabalho e na vida pessoal. Por ser treinável, defende-se que ela seja incentivada nos homens e devidamente valorizada pelas empresas.
Apesar de os dados indicarem uma superioridade feminina em inteligência emocional, eles também mostram que é uma habilidade moldada pela prática, que também faz dela um potencial inexplorado pelos homens. PeopleImages/Shutterstock
Apesar de os dados indicarem uma superioridade feminina em inteligência emocional, eles também mostram que é uma habilidade moldada pela prática, que também faz dela um potencial inexplorado pelos homens. PeopleImages/Shutterstock
Foto: The Conversation

Quem vem à sua mente quando você pensa em alguém emocionalmente inteligente? Alguém capaz de perceber o clima de um ambiente, acalmar uma discussão e que sabe exatamente o que dizer quando um amigo está passando por dificuldades? Para muitas pessoas, essa pessoa é uma mulher. Essa crença é tão difundida que a psicologia popular a trata como um fato.

Decidimos assim colocar essa suposição à prova. Nosso novo estudo analisou quase três décadas de pesquisas, de 1995 a 2023, em 76 países e com mais de 600 mil pessoas. Queríamos responder a uma pergunta simples: as mulheres são realmente mais inteligentes emocionalmente do que os homens? A resposta principal é sim: em média, as mulheres obtêm pontuação mais alta de inteligência emocional que os homens.

Mas a descoberta mais útil é o tipo de inteligência emocional em que as mulheres parecem se destacar e o que isso pode custar às pessoas que a possuem.

Inteligência emocional é a capacidade de reconhecer, compreender e regular as emoções em si mesmo e nos outros. Ao analisarmos cada elemento da inteligência emocional, verificamos que a vantagem feminina se concentrava na parte da equação relacionada aos "sentimentos dos outros".

Isso significa reconhecer o que outra pessoa está sentindo, compreender o motivo e ajudá-la a lidar com isso. Uma criança tem uma crise de choro, um colega fica em silêncio depois que sua ideia é rejeitada em uma reunião, uma negociação fica tensa. Muitos homens também são excelentes nisso, e muitas mulheres não são. Nosso estudo traz médias calculadas a partir de centenas de milhares de pessoas, não previsões sobre qualquer pessoa específica na sala.

Mas essa diferença se deve simplesmente à biologia? Não podemos descartar totalmente os fatores biológicos ou hormonais. Mas dois padrões em nossos dados apontam para outra direção. A vantagem feminina é muito menor em crianças do que em adultos, e essa diferença vem diminuindo ao longo das três décadas abrangidas por nossos dados. Isso não é o que se esperaria de algo determinado desde o nascimento. Embora os dados de nosso estudo não possam nos indicar as razões exatas pelas quais essas diferenças surgem, esse padrão se alinha ao que se esperaria de algo moldado pela prática.

O fardo de ser a pessoa mais emocionalmente inteligente na sala. Pavlova Yuliia/Shutterstock
O fardo de ser a pessoa mais emocionalmente inteligente na sala. Pavlova Yuliia/Shutterstock
Foto: The Conversation

Há também uma origem plausível para essa prática. Outras pesquisas descobriram que os pais usam um vocabulário mais amplo de palavras relacionadas a emoções com as filhas do que com os filhos, e com mais frequência incentivam as meninas a refletir sobre seus sentimentos e a expressá-los.

Os meninos, por sua vez, são mais frequentemente orientados a lidar com as emoções suprimindo-as. Suas irmãs são incentivadas a lidar com isso junto com outras pessoas — exatamente o tipo de habilidade social e emocional na qual, segundo nossos dados, as mulheres se destacam.

Em termos simples, as meninas desde cedo parecem ter mais prática em interpretar e responder às emoções alheias. Como qualquer habilidade desenvolvida por meio da repetição, seja aprender um novo idioma ou tocar um novo instrumento, quanto mais você pratica, mais natural ela se torna.

De fato, uma meta-análise de 2019 com 58 estudos constatou que a inteligência emocional pode ser treinada. O gênero não pareceu afetar a eficácia do aprendizado de como ser mais inteligente emocionalmente.

Essa é uma boa notícia. Se a inteligência emocional é uma habilidade que pode ser treinada em vez de um traço fixo, a diferença entre os sexos não é um destino inevitável. Isso significa que os homens também podem se beneficiar dessas habilidades, inclusive em negociações e no trabalho.

Mas há também uma implicação menos confortável. Se a vantagem das mulheres nesse aspecto não for reconhecida como uma habilidade e for tratada, em vez disso, como "algo próprio das mulheres", torna-se muito fácil considerá-la algo natural. A colega que é boa em amenizar tensões passa a ser aquela de quem sempre se espera que faça isso. Uma capacidade transforma-se silenciosamente em uma obrigação: não remunerada e sem recompensa.

Isso ocorre no ambiente de trabalho todos os dias. As organizações se beneficiam quando as funcionárias lidam com a tensão na equipe, apoiam colegas estressados e amenizam conflitos. É um trabalho que mantém a equipe funcionando, mas que quase nunca aparece em uma avaliação de desempenho.

Duas mudanças práticas precisam acompanhar as conclusões do nosso estudo. Primeiro, os empregadores devem nomear esse trabalho e recompensá-lo, tanto nas avaliações quanto nas decisões de promoção. Segundo, investir no desenvolvimento dessas habilidades em todos os funcionários.

A mesma lógica se aplica fora do escritório. Nas famílias e nas amizades, a pessoa que se lembra de que um amigo está tendo uma semana ruim e entra em contato sem que lhe peçam, que percebe quando alguém para de responder no chat em grupo, que sempre pergunta a um membro da família como foi o dia, também está realizando um trabalho real, e esse trabalho é frequentemente dado como certo justamente porque parece não exigir esforço.

Nada disso significa que as mulheres não tenham um ponto forte real nessa área. Nossos dados mostram uma vantagem feminina nas habilidades emocionais. Mas um ponto forte que é dado como certo em vez de treinado, e esperado em vez de compartilhado, não é algo que deva ser reforçado. É um potencial inexplorado para os homens. A pessoa a quem todos recorrem quando as coisas ficam difíceis não tem sorte nem é simplesmente assim por natureza: provavelmente teve mais prática.

O que não fizemos foi dar a todos os outros essa mesma oportunidade ou incentivo para praticar, nem deixar claro que a inteligência emocional era uma habilidade que valia a pena desenvolver desde o início.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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