Mulheres acima de 40 têm mais bebês que adolescentes, diz estudo
Estudo revela mudança no perfil das mães brasileiras e acende alerta sobre a sobrecarga emocional e profissional
O perfil das famílias brasileiras está mudando de forma drástica. Se há algumas décadas a maternidade precoce era uma preocupação central, hoje o cenário mostra um novo fenômeno: o número de mulheres 40+ que se tornam mães já supera o de adolescentes. Essa mudança reflete o desejo feminino de consolidar a carreira, buscar estabilidade financeira e maturidade emocional antes de dar esse passo.
No entanto, essa "maternidade madura" traz consigo desafios que vão muito além do biológico. Ao adiar a chegada dos filhos, muitas mulheres acabam acumulando, simultaneamente, o auge de suas responsabilidades profissionais com os cuidados da primeira infância e, muitas vezes, o suporte a pais idosos. O resultado? Uma pressão estrutural que impacta diretamente o bem-estar.
A realidade por trás do "superpoder": saúde mental em xeque
Embora a maturidade traga mais segurança nas decisões, ela não blinda a mulher contra a exaustão. Segundo o Check-up de Bem-Estar 2025, conduzido pela Vidalink com mais de 11 mil colaboradores, 7 em cada 10 mulheres relatam ansiedade, angústia ou desmotivação frequente. Entre os homens, esse índice cai para 51%.
Essa discrepância revela que a famosa "dupla jornada" ainda pesa muito mais para o lado feminino. Cerca de 38% das mulheres vivem essa realidade de conciliar casa, filhos e trabalho, superando em 14 pontos percentuais o índice registrado entre os homens.
"Esse acúmulo de responsabilidades impacta a qualidade de vida e o sentimento de pertencimento das trabalhadoras", analisa Magali Frare Corrêa, Head de Capital Humano da Vidalink.
Para Taty Nascimento, especialista em liderança inclusiva, esses dados não indicam uma fragilidade da mulher, mas uma falha no sistema. "Não estamos falando de fragilidade individual, mas de uma falência na forma como o trabalho e a vida social são organizados. O modelo atual ainda premia quem pode terceirizar o cuidado e penaliza quem precisa conciliar carreira com a vida real", afirma.
Carreira e maternidade tardia: o desafio corporativo
As mulheres 40+ que decidem ser mães muitas vezes se deparam com um mercado de trabalho que ainda valoriza a disponibilidade 24/7 (24 horas por dia, 7 dias por semana). Esse modelo é inequitativo por natureza, pois muitas trabalhadoras acabam recusando promoções ou desacelerando suas carreiras por não conseguirem equilibrar as expectativas irreais das empresas com as demandas da maternidade.
Além disso, para aquelas que estão chegando perto da fase da menopausa, o estigma se intensifica: 47% das brasileiras relatam prejuízos profissionais devido aos sintomas e preconceitos associados a esse período. É um ciclo de cobranças que gera o que os especialistas chamam de "exaustão de combate".
Sinais de alerta: você está exausta?
Muitas mulheres tentam "dar conta de tudo" e acabam não percebendo quando o cansaço vira algo mais sério. Fique atenta a estes sinais:
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Supercompensação: Aumento excessivo do perfeccionismo para provar que a maternidade não afetou sua competência.
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Presenteísmo: Você está no trabalho, mas tem falhas de memória e dificuldade de foco.
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Resistência a desconectar: Dificuldade em tirar folgas ou férias, sentindo-se culpada por parar.
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Silêncio em reuniões: Evitar discussões estratégicas por puro esgotamento mental.
Como mudar o jogo?
A solução para esse cenário de sobrecarga das mulheres 40+ passa por uma mudança na cultura das empresas e na divisão de tarefas em casa. O bem-estar não deve ser um luxo, mas parte da infraestrutura da vida.
Estudos mostram um paradoxo interessante: embora sejam as que mais sofrem com a sobrecarga, as mulheres são as que mais buscam ajuda — 16% fazem terapia e 18% utilizam medicamentos para suporte emocional. No entanto, o apoio individual não resolve barreiras estruturais.
"Equidade não é um tema periférico, é estratégico. As mulheres não deveriam precisar abrir mão do próprio bem-estar ou do crescimento para conciliar múltiplas demandas", conclui Magali Frare Corrêa, da Vidalink.
A maternidade após os 40 é uma conquista de liberdade, mas para que ela seja plena, a sociedade precisa evoluir na mesma velocidade que a coragem dessas mulheres.