Modelo de comunicação pós-pandemia das plataformas digitais dificulta acesso universal à informação
A ascensão das plataformas digitais alimentou a promessa de uma comunicação em rede, com a informação circulando livremente. Mas elas apenas deslocaram os mecanismos de centralização, e tornaram ainda menos visíveis quem organiza, seleciona e hierarquiza a informação que chega até cada usuário
A pesquisa da Unicamp revela que a pandemia agravou a crise no acesso à informação no Brasil. Apesar da aparente democratização digital, as plataformas mantêm a centralização ao ditar a visibilidade dos conteúdos via algoritmos e interesses comerciais. Entre desertos de notícias, dados móveis limitados e vieses algorítmicos, o direito à informação foi restringido, mostrando a urgência de encarar a comunicação como política pública essencial para a própria sobrevivência e para a democracia.
Caro leitor, se você é um vivente do século XXI, provavelmente já se deparou com o desafio de buscar informações em meio à coexistência do excesso e da falta informacional. Afinal, o "rolar do feed" não significa, necessariamente, estar informado.
Essa não é uma questão que surgiu em 2026. A pandemia mostrou não só que ela já estava presente mas também evidenciou que, em meio ao caos, informar-se não dizia respeito apenas à qualidade do debate público, mas à própria possibilidade de participação social e de sobrevivência. Informar-se, portanto, é um direito.
E esse é o debate que propõe a minha pesquisa recém-publicada pela Unicamp: [Crises entrelaçadas em um Brasil pandêmico: como se configura a permacrise no Brasil durante a Covid-19. ](https://pecim.unicamp.br/evento/2025/10/03/crises-entrelacadas-em-um-brasil-pandemico-como-se-configura-a-permacrise-no-brasil-durante-a-covid-19/)
O que aconteceu com a informação durante a pandemia da covid-19 no Brasil?
Para responder a essa pergunta, a pesquisa partiu da complexidade de produzir e consumir informação no século XXI, marcado pelo digital, que naquele momento aparecia como resposta ao isolamento e à necessidade de conter o contágio.
Informar-se parecia, a princípio, um ato simples e de acesso "universal". Mas, para quem, como nós, sobreviveu àquele período mórbido, ficou evidente que estávamos diante de um ambiente de disputa. Para compreender esse processo, reconstruímos o dia a dia da busca por informações em veículos de jornalismo e divulgação científica, formando uma linha do tempo informacional do primeiro ano da pandemia no Brasil.
Esse processo trouxe à tona não apenas as condições de produção e circulação das informações, mas também revelou que não estávamos diante de uma problemática apenas sanitária. Diferentes crises emergiram, entrelaçaram-se e reforçaram-se mutuamente, produzindo um estado persistente de instabilidade — o que, na pesquisa, chamamos de Permacrise.
O conceito de Permacrise é mobilizado para compreender como diferentes crises se articulam e estabelecem parâmetros para reconhecer e analisar esse e outros cenários semelhantes. Isso exige do pesquisador um olhar atento às particularidades de cada contexto, capazes de ampliar e prolongar seus efeitos. Afinal, como debate Sueli Carneiro, embora a pandemia tenha sido um fenômeno global, ela foi vivenciada de maneiras muito diferentes ao redor do planeta.
E quais eram essas condições? Em 2021, 47% dos acessos à internet no país eram feitos por celulares com planos pré-pagos. Para uma parcela significativa da população, portanto, estar conectado dependia da capacidade de pagar pelos dados móveis. Na prática, buscar notícias, acompanhar orientações e consultar diferentes fontes estava condicionado a essa disponibilidade. A conexão, apresentada como uma das principais respostas ao isolamento, revelava seus limites: estar conectado não significava ter, necessariamente, as mesmas condições para se informar.
E nem mesmo o acesso a outras fontes estava garantido. O país já enfrentava um apagão jornalístico, com o fechamento de 602 veículos de comunicação nos últimos 30 anos. Desses, 61 encerraram suas atividades apenas em 2020.
Quem decide o que vemos?
Para além do acesso, há outra questão especialmente relevante neste momento eleitoral e nos debates de saúde: a centralidade da lógica midiática. Ela não surgiu em 2026, mas a pandemia ajudou a aprofundá-la. É o que chamamos de subversão do modelo de comunicabilidade. Sim, eu também vou explicar!
A ascensão das plataformas digitais alimentou a promessa de uma comunicação em rede, na qual a informação poderia circular entre diferentes sujeitos e em múltiplas direções. Era uma possibilidade que se contrapunha ao modelo de comunicabilidade "unidirecional, linear e autoritário", como descreve Jesús Martín-Barbero, no qual a informação era produzida e distribuída segundo uma lógica de um para muitos. Nesse modelo, poucas e conhecidas instituições concentravam a responsabilidade pela produção e circulação da informação.
Não podemos negar que a expansão das plataformas digitais abriu, de fato, novos espaços de produção e acesso. Mas, como debatemos na pesquisa, essa promessa não significou o fim da centralização. Ela apenas deslocou seus mecanismos, tornando, inclusive, menos visível quem organiza, seleciona e dá visibilidade à informação. Afinal quem decide o que vemos e portanto, consideramos relevante e de credibilidade?
A chamada subversão do modelo de comunicabilidade discute justamente esse deslocamento: a informação, antes concentrada em poucas e conhecidas instituições, passa a ter sua circulação fortemente mediada pelas plataformas digitais. São elas que, por meio de regras, critérios comerciais e sistemas algorítmicos, interferem no que ganha visibilidade e, consequentemente, no que permanece disponível para circulação e até nas condições pelas quais um conteúdo pode ser considerado relevante ou confiável.
É uma subversão porque aparenta produzir uma mudança que, na prática, não se concretiza. Nesse processo, a responsabilidade pela informação — produzida e consumida — é transferida aos indivíduos, sustentando a promessa de um grande alcance que nem sequer pode ser verificado. Afinal, como você, caro leitor, confere se os números daquele seu post mais acessado correspondem, de fato, a pessoas que tiveram acesso ao conteúdo?
O resultado é um ambiente que se apresenta como aberto, conectado e interativo, mas no qual a circulação da informação continua atravessada por uma lógica de centralidade e por interesses comerciais. Essa mediação algorítmica produz consequências que ferem o direito constitucional à informação.
Algoritmos podem amplificar desigualdades, reproduzir vieses e produzir efeitos discriminatórios, como já discutido por Nina da Hora em diferentes espaços. Mais do que organizar o fluxo de informações: as plataformas participam da definição das condições de circulação dos discursos.
E, quando poucas empresas — sediadas fora do Brasil — concentram esse poder, decisões que afetam o ambiente informacional passam a ser tomadas longe dos espaços de debate público e das normas construídas democraticamente no país.
Informação também é política pública
É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser política pública. Tratar a qualidade do ambiente informacional como responsabilidade individual funciona, na prática, como uma forma de desresponsabilizar as empresas que estruturam esse ambiente. Isso não significa retirar das pessoas a responsabilidade por suas ações, mas reconhecer que ela não pode se limitar ao âmbito individual.
Em uma democracia, o direito à informação não termina quando um conteúdo é publicado. Ele depende das condições para que essa informação alcance as pessoas, possa ser confrontada com outras fontes, permaneça disponível e seja compreendida em seu contexto. E, como previsto pela pesquisa, essa questão se torna ainda mais complexa diante de momentos em que a informação significa a real sobrevivência das pessoas.
Quais são, afinal, as condições para manter veículos de informação em um país no qual as políticas públicas para o setor são poucas ou inexistentes? O fechamento de veículos, a redução das equipes e da cobertura local produzem os chamados desertos de notícias: espaços em que a produção profissional e sistemática de informações de interesse público se torna cada vez mais limitada ou até nula.
Por isso, defender a informação pública e brasileira não significa defender exclusivamente os veículos tradicionais. Universidades, instituições científicas, a divulgação científica, organizações da sociedade civil, projetos independentes e iniciativas comunitárias também contribuem para um ecossistema plural de produção de informação pública, ampliando as possibilidades de acesso, verificação e contextualização.
A democracia depende não apenas da possibilidade formal de escolher, mas das condições informacionais nas quais cada escolha é construída. Informar-se envolve encontrar conteúdos, verificar sua origem, compreender seu contexto e confrontar diferentes fontes. Afinal, a comunicação deve ser compreendida como um direito da humanidade.
Érica Mariosa Moreira Carneiro não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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