"Miliciano", "Nove dedos": 10 momentos do último debate entre Lula e Flávio
O último debate presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro na TV Globo foi marcado por forte tensão e ataques pessoais. O embate acirrou-se quando o senador chamou o petista de "nove dedos", e o presidente revidou chamando-o de "miliciano". Entre trocas de acusações sobre inflação, escândalos e segurança pública, Flávio explorou o custo de vida e uma gafe de Lula sobre a polícia, enquanto Lula cobrou o rival pela defesa de um PM acusado de matar uma criança e por suas ligações controversas.
Presidente e senador voltaram a protagonizar momentos tensos em último debate na TV Globo. Flávio usa expressão "nove dedos" para atacar Lula, que revida chamando senador de "miliciano". Veja os principais momentos.Na contagem regressiva para o segundo turno, os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) travaram na noite desta sexta-feira (23/10) um último debate presidencial. A exemplo do debate da semana passada, o novo embate foi novamente marcado por perguntas que ficaram sem resposta, trocas de acusações e ataques pessoais.
Tecnicamente empatados nas mais recentes pesquisas eleitorais e a horas de um pleito que promete ser acirrado, os dois candidatos buscaram atrair eleitores indecisos.
Inicialmente, o embate começou calmo, preso a temas previamente definidos e com ambos os candidatos falando sobre propostas. Mas não demorou para que o encontro ganhasse ares de confronto, especialmente após Flávio Bolsonaro se referir a Lula como "nove dedos", o que levou o presidente a chamar o senador de "miliciano" e a exigir um pedido de desculpas.
Veja dez momentos marcantes do debate presidencial, que foi transmitido pela TV Globo e que marcou o segundo encontro cara a cara entre os dois candidatos.
"Pergunta pro Google"
Ao longo do debate, Lula instou várias vezes os telespectadores a usarem o Google para saberem mais sobre realizações do governo do PT assim como controvérsias envolvendo a família Bolsonaro.
"Galera, dá um Google aí. Dá um Google no que ele falou que vocês vão perceber que ele é aquele cara que estuda para decorar e não para saber", declarou Lula, que mencionou a ferramenta de busca pelo menos dez vezes.
Em uma das ocasiões, Lula sugeriu que o próprio Flávio usasse o Google para saber mais sobre investimentos do governo petista na região Norte.
" Acho que ele [Flávio] só ouviu falar de Manaus e da região Norte quando o pai dele apareceu na televisão rindo e imitando uma pessoa morrendo asfixiada porque não tinha oxigênio. Quando você não souber, Flávio, pergunta pro Google", disse Lula.
Em resposta, Flávio disse: "Confesso que eu estou com um pouquinho de dificuldade de entender o que ele está falando, mas vamos lá. Lula, quem é que governa o Brasil? É você ou é o Google? Tudo pergunta para o Google?"
"Lula prometeu picanha e entregou abóbora"
Repetindo um eixo da sua campanha, Flávio usou o debate para falar de custo de vida, acusando Lula de ignorar a questão por viver "isolado em um palácio de luxo".
"Nós temos uma das maiores taxas de juros do mundo. É a mesma taxa que reajusta a sua dívida. (..) É por isso que hoje você chega no mercado a dúzia de ovos virou dez. Um sabão em pó de 1 quilo agora é de 800 gramas. A barra de chocolate que antes tinha 120 gramas, agora tem só 80. (...) Quando você consegue comprar, você tá levando menos para sua casa. Esse é o legado do atual governo", disse o senador.
"Lula prometeu picanha e entregou abóbora", disse o senador duas vezes ao longo do debate, fazendo referência a uma fala de Lula na campanha de 2022, que havia dito que "o povo tem que voltar a comer um churrasquinho, a comer uma picanha e tomar uma cervejinha".
Lula contrabalanceou as críticas enfatizando que sua gestão garantiu o reajuste do salário-mínimo e das aposentadorias acima da inflação. De acordo com Lula, se não fosse pelos governos petistas, o salário-mínimo estaria estacionado na casa dos R$ 900, e não dos 1.600 atuais.
"Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos"
Enquanto os dois candidatos discutiam tarifa zero no transporte público e valor do salário-mínimo, Flávio Bolsonaro disse que "não adianta o salário-mínimo ser de R$ 1.600 se você dá com uma mão e tira com os nove dedos", disse Flávio, debochando de uma característica física de Lula.
A frase irritou Lula, que notavelmente perdeu um dedo num acidente de trabalho em 1964, quando era operário fabril. "Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos", disse o presidente.
"Se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando da noite quando não podia trabalhar. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos. Não vou permitir. Ele nunca trabalhou na vida. Não sabe o que é uma carteira [de trabalho]. O primeiro emprego que ele teve foi emprego foi falso, pelo pai dele. Ele trabalhava com o pai, mas ficava em Brasília", disse Lula, fazendo referência à acusação de que Flávio atuou como funcionário fantasma de Jair Bolsonaro quando este era deputado.
"Você vai ter que pedir desculpas. Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal, que obriga a gente a trabalhar em jornada que a gente não tem que trabalhar", reforçou Lula.
Na sequência, Flávio fez um pouco convincente pedido de desculpas. "Lula, se eu te ofendi por ter te chamado de nove dedos, eu te peço desculpas, de verdade. Não queria te ofender", disse Flávio, que, porém, logo emendou: "Agora eu quero saber se você vai pedir desculpas aos moradores de rua que dobraram durante seu governo", disparando na sequência uma série de perguntas do mesmo tom sobre temas de segurança e política social.
Lula deixa tempo sobrando
Em pelo menos três momentos do debate, Lula se atrapalhou com a contagem de tempo reservada para cada candidato. Nessas ocasiões, o presidente encerrou ou tentou encerrar suas falas antes de gastar o tempo reservado no cronômetro, provocando alertas do mediador, o jornalista César Tralli.
O primeiro episódio ocorreu já no primeiro bloco, quando os candidatos discutiam temas ligados à região Sudeste. Lula encerrou sua réplica com uma sobra de um minuto e meio e Flávio tomou a palavra, provocando a primeira intervenção de Tralli e levando o petista a voltar a falar.
Uma situação similar voltou a ocorrer ainda no primeiro bloco, com o petista deixando de utilizar um minuto, provocando novo alerta de Tralli e reclamações de Flávio.
A terceira ocasião ocorreu no terceiro bloco. Desta vez, Lula deixou inicialmente de gastar dois minutos restantes. Após ser novamente alertado, Lula retomou a palavra, provocando novos protestos de Flávio.
Flávio foge de pergunta sobre "Bolsa-farelo"
Lula cobrou explicações de Flávio Bolsonaro por antigas declarações em redes sociais nas quais o senador chamou o programa Bolsa Família de "bolsa-farelo".
Nos últimos dias, a campanha do petista passou a explorar antigas publicações de Flávio críticas ao Bolsa Família na rede X (ex-Twitter) feitas entre 2011 e 2013, quando o atual candidato do PL era deputado estadual no Rio de Janeiro. Nos últimos dias, as publicações foram excluídas da conta do candidato.
"Por que você chamou o Bolsa Família de bolsa-farelo? Sabe o que é isso? É a falta de respeito com o povo pobre", questionou Lula no debate.
Flávio evitou o questionamento e tentou desviar com uma pergunta sobre reajuste do benefício.
"Pai do tigrinho" e "irmão do tigrinho"
Os dois candidatos trocaram acusações sobre o chamado "jogo do Tigrinho", modalidade viciante de cassino online que se espalhou pelo Brasil nos últimos anos.
"O atual presidente da República tem dois filhos que fizeram muito mal ao país, o Lulinha e o tigrinho. Ele é o pai do tigrinho", disse Flávio Bolsonaro.
Lula rebateu ligando a família Bolsonaro à modalidade de jogo.
"O cinismo chega a uma coisa absurda, que o tigrinho foi criado por vocês em 2022. Não só o seu pai é o pai do tigrinho, como você é o irmão. Não só que você é irmão, é filho do mesmo DNA. O tigrinho foi seu pai que criou", rebateu Lula.
Apesar das falas dos candidatos, a história do jogo do tigrinho no Brasil é mais complexa. A legalização das bets no Brasil ocorreu em 2018, durante o governo Michel Temer (MDB). Uma medida provisória sobre o tema foi transformada em lei no mesmo ano e previa que uma regulamentação ocorresse num prazo de 2 anos (com possibilidade de prorrogação por mais dois).
Isso deveria ter ocorrido no governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), mas sua administração não agiu no prazo, deixando um vácuo no qual os jogos, incluindo o tigrinho, se espalharam pelo Brasil sem nenhum controle. Em 2023, já sob Lula, o governo federal finalmente se debruçou sobre a regulamentação das bets, mas quando o tema passou a ser avaliada pelo Congresso, os parlamentares também incluíram a liberação do cassino online, como o tigrinho.
"O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina?"
Entre os convidados de Lula no estúdio da rede Globo estava Cristiane Gomes da Silva, mãe da menina Ana Clara Machado, que foi morta em 2021 em Niterói (RJ) aos cinco anos. O assassinato foi atribuído ao PM Bruno Dias Delaroli, que foi preso e formalmente acusado de homicídio doloso. Flávio Bolsonaro, paralelamente à sua atividade como senador, atuou gratuitamente como advogado do PM acusado.
"O que leva um senador a defender um policial que deu um tiro de fuzil numa menina de cinco anos?", questionou Lula durante o debate.
Relaxado em outros momentos do debate, Flávio se viu na defensiva neste momento, hesitando e cometendo uma gafe, se referindo à mãe da menina assassinada como "senhora Ana Clara".
"Ana Clara, eu quero falar pra senhora prestar de verdade a minha solidariedade por uma tragédia que aconteceu. Eu não consigo imaginar o que é perder uma filha de 5 anos de idade", disse Flávio. Foi possível ouvir Cristina no estúdio gritando "ela está morta" em resposta à gafe do senador.
Na sequência, Flávio disse acreditar na inocência do policial acusado. "Foi uma tragédia o que aconteceu. (...) Era uma troca de tiros numa comunidade conflagrada. A senhora sabe que tem o tráfico de drogas ali. Eu quero ajudar a senhora a saber quem foi o autor desse disparo. Tenho confiança que não foi esse policial, que sequer foi julgado", afirmou o candidato do PL.
Lula comete ato falho ao falar em "acabar com a polícia"
No mesmo segmento e numa discussão sobre o tema de segurança pública, Lula cometeu um ato falho ao dizer que pretende "acabar com a polícia", em vez da milícia. "Aprovada a PEC de segurança, eu vou criar o Ministério [da Segurança Pública], e aí você vai ver o que é um governo acabar com a polícia e deixar o território livre", disse o presidente.
O deslize foi imediatamente capturado por aliados e apoiadores de Flávio nas redes sociais, que logo passaram a disseminar o trecho da fala.
Uísque, Vorcaro, festa em barco
O quarto e último bloco do debate foi reservado e um embate livre no qual cada candidato dispôs de 8 minutos. Não demorou para o tema da corrupção dominar essa etapa e trazer lembranças do tenso debate da rede Bandeirantes na semana passada.
Lula iniciou cobrando explicações de Flávio sobre a disputa do senador e do advogado Willer Tomaz com o jogador Richarlison em relação à propriedade de uma ilha no Rio de Janeiro. O jogador acusa publicamente Flávio e Tomaz, que seriam sócios ocultos, de tramarem para tomar a propriedade.
Flávio respondeu acusando Lula de receber uma garrafa de whisky avaliada em R$ 500 mil, que segundo a revista Veja teria sido ofertada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master. "Você ganhou um uísque Macallan que vale R$ 500 mil. Meio milhão de reais. Conta aqui para o público, que nunca vai ter oportunidade de experimentar um uísque desse. Qual é o gostinho desse uísque, hein, Lula? Conta para eles aqui".
Foi a deixa para que Lula, por sua vez, falasse das relações entre Flávio e Vorcaro, lembrando que o senador pediu ao banqueiro fraudador R$ 134 milhões para supostamente financiar um filme sobre o pai. "Esse cidadão e a turma dele criaram um banqueiro chamado Banco Master. Esse cara corrompeu a República. E ele é um deles", declarou Lula.
Lula ainda citou reportagem da revista piauí que afirma que Flávio teria participado em 2020, em plena pandemia de uma festa num barco com lobistas interessados em vender vacinas. Lula, porém, evitou mencionar que a reportagem também apontou que os lobistas e Flávio estiveram acompanhados de prostitutas durante a festa na embarcação.
"Ou a gente mantém a democracia funcionando, ou teremos um miliciano governado esse país"
Nas considerações finais, Lula mais uma vez instou os telespectadores a usarem o Google para comparar seu governo com o de Jair Bolsonaro, pai de Flávio.
Lula ainda lançou um alerta: "Ou a gente mantém a democracia funcionando, ou a gente vai ter um miliciano governando esse país dentro do Palácio do Planalto, o que não é bom para ninguém. Não faça essa experiência", disse.
Já Flávio encerrou batendo novamente nas teclas do poder de compra e do combate ao crime. "A sua vida melhorou ou piorou nos últimos quatro anos? Eles tiveram oportunidade de fazer, por quase 20 anos, e não fizeram", disse, fazendo ainda um apelo para que telespectadores rezassem "um Pai-Nosso para que a nação brasileira possa se sentir tocada por Deus e tomar a decisão correta no domingo".
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