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MicroRNAs: as pequenas moléculas que podem revelar a saúde dos rios

Para monitorar a qualidade da água, a detecção de microRNAs circulantes é uma ferramenta inovadora: essas moléculas podem ajudar a revelar se organismos aquáticos já estão apresentando respostas biológicas à exposição a contaminantes

4 ago 2026 - 10h01
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Em janeiro de 2026, o Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde, conhecido pela sigla UNU-INWEH, publicou um relatório sobre o esgotamento da água no mundo e a deterioração da qualidade dos sistemas hídricos.

O documento evita tratar o problema apenas como uma "crise", palavra que sugere uma situação temporária ou de transição, e propõe o termo "falência hídrica" para descrever um cenário em que rios, aquíferos e ecossistemas aquáticos perdem a função de provisionar água para populações humanas.

A escassez de água não se resume à queda de volumes. Também envolve a água que ainda existe, mas já não é adequada para consumo ou para sustentar ecossistemas saudáveis devido à poluição. Grandes volumes de águas residuais, vindas da indústria ou das cidades, ainda são lançados no ambiente sem tratamento ou apenas parcialmente tratados.

Essa é a realidade, por exemplo, de centros urbanos amazônicos. Banhadas pela maior bacia de água doce do mundo, Manaus e Belém estão entre as capitais brasileiras com piores indicadores de saneamento: em 2026, tratavam apenas 22,78% e 24,95% do esgoto, respectivamente.

Também na Amazônia, é alarmante a presença de metais tóxicos, como o mercúrio, muito provavelmente associados a atividades como o garimpo e o desmatamento. Essa contaminação é um dos riscos mais severos à saúde humana e animal na região. Estudos sobre o Tapajós, por exemplo, vêm mostrando há décadas a relação entre garimpo, mercúrio, peixes contaminados e exposição de populações locais.

Diante desses desafios, a ciência e a tecnologia têm se voltado para formas de proteger e fortalecer a resiliência dos nossos sistemas de água e dos ecossistemas aquáticos. Isso inclui monitorar a qualidade da água de maneiras inovadoras. Nesse sentido, os microRNAs circulantes aparecem como uma ferramenta promissora.

Encontradas no sangue de peixes, no muco e, em estudos recentes, até na água ao redor dos animais, essas moléculas responsáveis por regular a atividade dos genes podem ajudar a revelar se organismos aquáticos já estão apresentando respostas biológicas à exposição a contaminantes.

Elas não substituem outras análises tradicionais, que medem diretamente a presença de poluentes e contaminantes na água, no sedimento ou nos tecidos de animais. Mas podem acrescentar uma informação decisiva: se a contaminação já produz efeitos negativos nos organismos.

O que são microRNAs?

Os microRNAs, ou miRNAs, são como pequenos "chefes de tráfego" dentro das células de seres vivos, como humanos e peixes. São pedaços muito pequenos de material genético que não carregam instruções para construir proteínas diretamente. Em vez disso, ajudam a organizar e regular o trabalho de outras instruções dadas pelo material genético às células.

Quando uma célula recebe a ordem de fabricar uma proteína, essa mensagem passa por uma molécula chamada RNA mensageiro, ou mRNA. O microRNA pode se ligar a essa mensagem e "silenciá-la", impedindo ou reduzindo a produção daquela proteína. Como um interruptor de luz, ele ajuda a controlar a intensidade de processos que acontecem dentro da célula.

No caso de uma intoxicação por metais como mercúrio, cádmio ou chumbo, determinados miRNAs podem aumentar ou diminuir sua atividade. Essas mudanças não significam, sozinhas, que existe um contaminante específico no ambiente. Mas funcionam como pistas de que o organismo está tentando lidar com algum tipo de estresse, como inflamação, dano celular, estresse oxidativo ou alteração metabólica.

Além de atuarem dentro das células, os miRNAs também circulam pelo corpo em fluidos como sangue e urina, muitas vezes protegidos por pequenas vesículas ou associados a proteínas que impedem sua degradação. É justamente essa estabilidade que os torna interessantes para a medicina e, mais recentemente, para a ecotoxicologia, que estuda o efeito de componentes tóxicos nos ambientes naturais.

Como avaliar microRNAs tem sido útil?

Na medicina, o monitoramento de miRNAs ganhou força como uma possibilidade para diagnóstico e acompanhamento de doenças, especialmente em câncer, mas também em condições associadas à gestação e a doenças intestinais, renais, cardiovasculares e metabólicas.

A incorporação no dia a dia da prática clínica ainda depende de maior validação, padronização de métodos e estudos com grandes populações. Mesmo assim, o interesse é grande porque são moléculas estáveis e podem ser obtidas por métodos pouco invasivos, como amostras de plasma e soro sanguíneo.

Em relação à contaminação por mercúrio, por exemplo, um trabalho já demonstrou que mulheres que trabalham em uma fábrica de termômetros, que utiliza mercúrio, apresentaram modificações na expressão de alguns microRNAs no sangue relacionados à contaminação por mercúrio. O que demonstra seu papel como biomarcador.

No monitoramento ambiental, os miRNAs ainda não são usados amplamente. Mas testes em laboratório e algumas experiências de campo têm demonstrado um cenário favorável para sua aplicação futura.

Um estudo com enguias-europeias (Anguilla anguilla) comparou animais coletados em dois ambientes naturais da França com diferentes níveis de poluição e identificou diferenças na expressão de miRNAs no fígado desses peixes.

Em peixes, um caso importante é o da carpa-comum (Cyprinus carpio) exposta ao cádmio em laboratório. O estudo identificou 23 miRNAs diferencialmente expressos nos rins cefálicos dos animais, alguns deles apontados como candidatos a biomarcadores de exposição precoce.

Em relação a organismos aquáticos amazônicos, o papel dos microRNAs ainda é bem desconhecido, e só agora começaram as investigações em relação a isso. Estudos em andamento, realizados no âmbito do INCT-Adapta, são promissores em demonstrar seu papel na tolerância a baixos níveis de oxigênio em duas espécies de peixes amazônicos (Aequidens pallidus e Mesonauta festivus). Estes trabalhos também apontam para o seu papel em relação aos efeitos da mudança climática em tambaquis (Colossoma macropomum) e no Apistogramma agassizii.

Um trabalho em vias de publicação também já indica que alterações em microRNAs circulantes no sangue estão altamente associadas à acumulação de mercúrio em diversos tecidos do tambaqui (Colossoma macropomum). Atualmente, uma nova investigação está tentando desvendar também o efeito da contaminação por mercúrio e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA) sobre a expressão de microRNAs e sua possível relação com carcinogênese.

Além disso, para reforçar o papel dos microRNAs como biomarcadores de estresse ambiental em organismos aquáticos da Amazônia, estudos em andamento tentam revelar o papel dos microRNAs na tolerância térmica de camarões da Amazônia, Macrobrachium amazonicum.

Como a avaliação dos miRNAs podem aprimorar a saúde humana e ambiental?

Os trabalhos com miRNAs estão ainda em fase de validação, mas já mostram seu potencial. A coleta em plasma do sangue, muco e até na água pode abrir caminho para um modo menos invasivo de monitoramento, ágil e escalável, capaz de identificar problemas por poluição antes de que efeitos negativos mais graves ocorram.

Com isso, esse tipo de avaliação poderia alertar os tomadores de decisão de forma precoce, direcionar políticas de proteção ambiental e ajudar a evitar que humanos também sejam expostos ao consumir água poluída ou peixes contaminados. Este é mais um exemplo de como saúde ambiental e saúde humana estão interligadas: zelar pela saúde dos nossos rios é, também, reduzir riscos à saúde das pessoas.

Na Amazônia, por exemplo, essa abordagem pode dialogar com pesquisas sobre espécies de grande importância ecológica e alimentar. Em vez de esperar apenas por sinais visíveis de degradação, como mortandade de peixes ou perda de biodiversidade, a expectativa é identificar alterações precoces em organismos expostos a contaminantes associados à degradação dos rios.

Investir em metodologias como essa representa, também, enfrentar a falência de água no mundo de maneira mais abrangente. Não se trata apenas de aumentar o volume de água disponível por meio de grandes obras, novas represas, exploração de água subterrânea ou dessalinização. Embora essas estratégias possam ser necessárias em alguns contextos, é também necessário investir em modos de detectar poluição cedo e recuperar os valiosos ambientes aquáticos que sustentam a vida.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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