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Merz causa novo incômodo ao querer "devolver" 800 mil sírios

2 abr 2026 - 16h40
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Chanceler federal da Alemanha disse que presidente da Síria pediu repatriação de 80% dos asilados políticos em três anos - uma meta impraticável. Situação piorou após al-Sharaa dizer que ideia havia sido do alemão.A coletiva de imprensa em Berlim sobre a visita do presidente interino da Síria, Ahmed Hussein al-Sharaa, já se encaminhava para o fim quando o chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, resolveu responder a uma das últimas perguntas.

Não foi a primeira vez que Merz causou controvérsias ao abordar o tema da imigração na Alemanha
Não foi a primeira vez que Merz causou controvérsias ao abordar o tema da imigração na Alemanha
Foto: DW / Deutsche Welle

"Na perspectiva mais longa dos próximos três anos - esse foi o desejo do presidente al‑Sharaa - cerca de 80% dos sírios que atualmente se encontram na Alemanha deverão retornar ao seu país de origem", afirmou, de pronto, o líder de governo alemão, da conservadora União Democrata Cristã (CDU), na segunda-feira (30/03).

Atualmente, cerca de 950 mil imigrantes sírios vivem na Alemanha, grande parte deles asilado políticos desde a guerra civil que assolou o país do Oriente Médio a partir de 2011.

Ou seja, de acordo com Merz, quase 800 mil deveriam deixar a Alemanha, isso em tempo recorde - muitos deles, inclusive, já estabelecidos no mercado de trabalho local, principalmente no sistema de saúde, preenchendo postos de trabalho considerados essenciais na Alemanha, onde falta mão de obra nessa área.

As críticas vieram de todos os lados. Especialistas, representantes dos imigrantes na Alemanha e membros da oposição e da coalizão de Merz reagiram negativamente à fala do chanceler federal. O líder de governo, por sua vez, tentou se livrar da responsabilidade, atribuindo o número a al-Sharaa.

Um dia depois, em um evento em Londres, o presidente interino da Síria deu uma versão diferente. Segundo ele, a declaração foi "exagerada". "Eu não disse isso. Foi o chanceler. O retorno dos refugiados está diretamente ligado à reconstrução da Síria", afirmou al-Sharaa.

"Não devemos fazer isso apenas colocando pessoas em aviões e as mandando de volta. A generosidade desses países [europeus] não deve ser tratada negativamente, mas os refugiados têm o direito de retornar voluntariamente e com dignidade."

Mais um deslize, em meio à queda de popularidade

As polêmicas proferidas por Merz têm sido constantes desde que o político conservador assumiu o governo da Alemanha em maio de 2025. Em novembro passado, após passar por Belém (PA) para participar da COP30, o chanceler federal disse que estava contente por estar de volta ao país natal - o que gerou reações do prefeito de Belém, do governador do Pará e do presidente Lula.

Naquele mesmo mês, tinha declarado também que, com o fim da guerra na Síria, os refugiados sírios não tinham mais motivo para asilo na Alemanha.

Em outubro, sugeriu que os refugiados causavam um "problema de paisagem urbana" no país europeu. Em 2022, o alvo foram os ucranianos, os quais, segundo ele, estariam fazendo "turismo de bem-estar social" na Alemanha.

Críticos veem nas repetidas controvérsias de Merz sobre a imigração uma sinalização ao eleitorado do partido de ultradireita e anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD), que tem avançado e se aproximado da CDU na preferência do eleitorado.

Na mais recente pesquisa do instituto infratest-dimap, publicada nessa quarta-feira (01/04), a AfD aparece com 25% das intenções, um ponto percentual a menos que o partido do chanceler federal.

A mesma pesquisa mostra que a popularidade do governo de coalizão entre a CDU e o Partido Social-Democrata (SPD) chegou ao pior nível de avaliação, com 84% dos entrevistados declarando estarem "insatisfeitos" com a gestão liderada por Merz.

De acordo com a advogada Nahla Osman, especialista em direito migratório e presidente da Federação de Associações de Auxílio Alemão-Sírias (Dachverbandes deutsch-syrischer Hilfsvereine), a sugestão de mandar 80% dos refugiados de volta para a Síria em apenas três anos é impraticável, além de causar raiva e desespero nos imigrantes do país árabe que vivem na Alemanha.

"Seria necessário deportar cerca de 730 pessoas por dia, o que é um cenário logístico sem base realista. Esse debate parece menos uma estratégia política viável e mais um sinal para a política interna no contexto de forças em ascensão, como a AfD", declara ela à DW.

É uma opinião que o deputado Roderich Kiesewetter, colega de partido de Merz, parece concordar. Em entrevista ao jornal Handesblatt, ele, que é especialista em política externa, afirmou que os números são problemáticos, apontando o grande montante de sírios que trabalham em profissões de enfermagem e medicina na Alemanha. "Se eles retornarem, teremos um desafio", disse Kiesenwetter.

Integração no mercado de trabalho

A grande presença de refugiados, em especial da Síria, deve-se principalmente à correligionária e ex-chanceler federal Angela Merkel, que decidiu acolher os migrantes de países em crise a partir de 2015. Mais de uma década depois, essas pessoas criaram raízes no país, assumindo posições importantes na sociedade alemã e no mercado de trabalho.

Cerca de 60% dos sírios na Alemanha com empregos formais trabalham em profissões essenciais para o funcionamento da sociedade. O número é maior do que o de trabalhadores alemães (48%), segundo o instituto de pesquisas da Agência Federal do Trabalho. Além disso, cerca de 6 mil médicos sírios trabalham em hospitais alemães.

Na pesquisa de opinião publicada na quarta, os entrevistados também responderam se eram favoráveis a uma medida que diminuísse o tempo de reconhecimento de diplomas de qualificação profissional para integrar refugiados mais rapidamente ao mercado de trabalho. A grande maioria, 74% responderam positivamente. Na divisão por preferência partidária, os eleitores identificados com a AfD ficaram em último, com 48% das respostas afirmativas.

"Se nós mandássemos tanta gente de volta assim, isso prejudicaria ainda mais o nosso potencial de produção", disse Timo Wollmershäuser, do Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de Munique, à emissora pública ARD. Segundo ele, a chegada desses imigrantes diminuiu os impactos da mudança demográfica e, consequentemente, reduziu a falta de trabalhadores qualificados.

O diretor da organização de refugiados Pro Asyl, Karl Kopp, também criticou duramente Merz em entrevista à ARD. Segundo ele, o jogo do "quem disse o quê" entre o alemão e o presidente sírio causa insegurança na comunidade de refugiados, além de ignorar a "difícil realidade na Síria", e serve apenas para fomentar a ultradireita.

País devastado

A Síria continua sofrendo os efeitos da longa guerra civil que assolou o país por 15 anos - e por um terremoto que destruiu parte do país em 2023. A nação no Oriente Médio sofre com falta de serviços básicos, como hospitais, escolas e habitação. Além disso, mesmo com a queda de Bashar Al-Assad, ainda há conflitos entre o exército governista e grupos dissidentes como os curdos.

"Em Harasta, subúrbio de Damasco, não existe uma única casa que ainda possa ser habitada ou que tenha condições mínimas para viver. Mais de 80% das escolas na Síria estão destruídas. Ao mesmo tempo, falta tudo, principalmente medicamentos e equipamentos médicos", relata a advogada síria Nahla Osman.

A situação faz com que poucos refugiados tenham vontade de retornar voluntariamente para o país. Desde o início de 2025, o governo alemão iniciou um programa que prevê, entre outras coisas, o pagamento das passagens e uma ajuda inicial de mil euros para cada adulto que decidir recomeçar a vida na Síria. No ano passado, segundo o Departamento Federal de Migração e Refugiados, apenas 3.678 cidadãos sírios participaram da iniciativa.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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