"Medo do ICE permanece", diz estudante brasileiro preso nos EUA em 2025
Marcelo Gomes foi convidado para observar discurso do Estado da União de Trump. Estudante ficou detido por seis dias quando foi abordado por agentes de imigração, que procuravam seu pai.Quando o brasileiro Marcelo Gomes da Silva se sentar no plenário do Congresso dos Estados Unidos, na noite desta terça-feira (24/02), como convidado para acompanhar o discurso sobre o Estado da União do presidente Donald Trump, sua presença terá um significado que vai além do protocolo político.
Há menos de um ano, ele passou seis dias detido por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE), em Massachusetts, em um episódio que o inseriu no centro do debate sobre imigração, fiscalização e direitos de estrangeiros no país.
Marcelo foi abordado no fim de maio de 2025, enquanto dirigia o carro do pai na cidade de Milford, a caminho de um treino de vôlei com colegas da escola. A ação fazia parte de uma operação do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) voltada à prisão do pai, João Paulo Gomes Pereira, descrito pelas autoridades como imigrante em situação irregular. Ao abordarem o veículo, os agentes encontraram apenas o filho.
Segundo o governo americano, Marcelo foi então detido por "presença ilegal" no país, após os agentes constatarem que seu visto de estudante havia expirado. O jovem afirma que não tinha conhecimento da irregularidade naquele momento. Sem antecedentes criminais, ele foi levado ao escritório do ICE em Burlington, onde permaneceu por seis dias.
A defesa apresentou um pedido de habeas corpus à Justiça Federal de Massachusetts, argumentando que Marcelo não representa risco à comunidade. O tribunal determinou sua liberação mediante o pagamento de uma fiança de US$ 2 mil (cerca de R$ 10 mil) e estabeleceu que ele não poderia ser deportado nem transferido para fora do estado sem aviso prévio de ao menos 48 horas.
O caso ocorreu em meio ao endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos durante o governo Donald Trump, período marcado por uma ampliação das operações do ICE, inclusive em situações de irregularidade administrativa. Ao comentar a prisão, o diretor interino do ICE, Todd Lyons, classificou o caso como uma "detenção colateral" e fez críticas públicas ao pai do estudante. Lyons mencionou o episódio ao anunciar os resultados de uma ofensiva migratória em Massachusetts que levou à prisão de cerca de 1.500 pessoas apenas no mês de maio de 2025.
"Nada disso é justo"
Marcelo diz que, no momento da detenção, não recebeu explicações claras sobre o que estava acontecendo. "Eu nunca entendi o que estava acontecendo. Fiquei muito confuso", afirma. Segundo ele, a experiência expôs a vulnerabilidade de muitos imigrantes que vivem, estudam e trabalham nos Estados Unidos, mesmo sem histórico criminal. "Nada disso é justo. Da forma como me pararam, me colocaram algema... nada disso foi justo. Eles me colocaram num estado de muito medo e estão colocando muitas pessoas num estado de muito medo. Estou gostando que muitas comunidades da América estão se levantando para falar contra eles. Eu estou de acordo. Eles estão fazendo o trabalho errado e pegando imigrantes que ajudam a melhorar a América em vez de imigrante que faz coisa errada mesmo (traficantes e pessoas más)", afirma.
As condições no centro de detenção também marcaram o período sob custódia. Marcelo relata que o espaço abrigava cerca de 30 a 40 homens, sem camas ou chuveiros. "A gente dormia no chão de concreto. Só tinha um banheiro pequeno, num canto", com quase nenhuma privacidade, diz. Entre os detidos havia brasileiros, latino-americanos, russos e turcos, e a comunicação acontecia em português, espanhol e inglês básico. Segundo ele, a maioria havia sido detida a caminho do trabalho ou no próprio local de emprego.
Detenção vira questão política
A prisão do estudante gerou reação imediata em Milford, onde Marcelo vive há mais de uma década. Alunos organizaram protestos na escola, e moradores se reuniram em frente à prefeitura pedindo sua libertação. Marcelo deveria tocar com a banda da escola na cerimônia de formatura no fim de semana seguinte à detenção.
O caso também mobilizou autoridades estaduais. A governadora de Massachusetts, Maura Healey, cobrou explicações do governo federal e criticou publicamente a atuação do ICE. Em uma mensagem publicada nas redes sociais no dia 3 de junho do ano passado, Healey afirmou que Marcelo vive em Milford desde pequeno e destacou que ele deveria estar na escola, "não em um centro de detenção". Para a governadora, o clima de medo gerado por operações migratórias desse tipo afeta comunidades inteiras.
Após a liberação de Marcelo pela Justiça, em junho, Healey recebeu o estudante oficialmente, destacando o caso como um exemplo das tensões entre políticas migratórias federais e autoridades estaduais.
Repercussão no Congresso
A repercussão também chegou ao Senado. Na época da detenção, o senador democrata por Massachusetts Ed Markey divulgou um vídeo cobrando a libertação do jovem. "Marcelo Gomes deveria ter participado da formatura da Milford High, e não estar em um centro de detenção do ICE. Isso não é segurança pública. É crueldade. É incutir medo em nossas comunidades", afirmou.
A mobilização política em torno do caso acabou culminando no convite para o discurso sobre o Estado da União. O deputado democrata Seth Moulton, que está em campanha por uma cadeira no Senado, afirmou que decidiu levar Marcelo como convidado por considerar sua história representativa das falhas do sistema migratório americano. "Convidei Marcelo porque a história dele mostra o que está quebrado no nosso sistema de imigração hoje", disse. Para Moulton, o apoio recebido pelo estudante após a detenção reflete o reconhecimento de sua integração à comunidade. "Ele é exatamente o tipo de jovem em que os Estados Unidos deveriam investir, não prender."
Marcelo afirma que, inicialmente, não compreendeu a dimensão do convite. "No começo eu nem sabia direito o que era o evento", conta. Só depois, com explicações sobre Washington e a presença das principais autoridades do país, percebeu o peso simbólico da participação. "Eu tenho um propósito, algo do que correr atrás, tenho uma responsabilidade de defender os imigrantes, ajudá-los, e fico muito feliz por isso", relata.
No plano pessoal, a família tenta manter a normalidade, mas o receio permanece. Marcelo segue em processo judicial e acompanhado por uma advogada, que informou que ele não deve ser detido novamente pelo ICE. Ainda assim, a incerteza persiste. "Eles estão fazendo o que eles querem hoje em dia", diz.
Marcelo chegou aos Estados Unidos aos seis anos de idade e nunca voltou ao Brasil. Ele afirma se reconhecer culturalmente como americano, sem abrir mão das raízes brasileiras. "Sou brasileiro porque está no meu sangue, mas também sou muito americano. Aprendi muitas coisas aqui. Nunca vou perder minha cultura", afirma.