Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Medicamento poderia prevenir trauma infantil, sugere estudo

16 ago 2026 - 12h35
Compartilhar
Exibir comentários

Camundongos tiveram primeiros dias de vida marcados por adversidades e, depois, receberam droga experimental. Não está claro se método poderia funcionar em humanos.O trauma costuma ser tratado como algo que a pessoa carrega consigo: algo a ser administrado, elaborado ou, às vezes, amenizado. Raramente é visto como algo que poderia ser impedido antes mesmo de se instalar. Foi exatamente essa hipótese que um grupo de pesquisadores de Munique, na Alemanha, e Estocolmo, na Suécia, decidiu testar.

Pesquisadores usaram camundongos em estudo de medicamento experimental que poderia beneficiar humanos
Pesquisadores usaram camundongos em estudo de medicamento experimental que poderia beneficiar humanos
Foto: DW / Deutsche Welle

Para isso, os cientistas tornaram os primeiros dias de vida de camundongos mais difíceis. As mães receberam muito menos material para construir ninhos e forrar o ambiente do que normalmente receberiam. Isso foi suficiente para tornar seus cuidados mais irregulares e os primeiros dias de vida dos filhotes mais imprevisíveis.

Os camundongos criados nessas condições adversas cresceram aparentemente saudáveis, sem sinais visíveis de doença ou qualquer problema evidente.

Mas, quando os pesquisadores os reuniram em grupos para observar seu comportamento social, surgiu um padrão recorrente.

Repetidamente, esses animais terminavam nos níveis mais baixos da hierarquia social, primeiro na adolescência e depois novamente na vida adulta. A infância difícil não deixara marcas visíveis, mas parecia ter determinado a posição social que ocupariam pelo resto da vida.

Quando alguns deles receberam um medicamento experimental, esse padrão desapareceu.

O estudo, publicado em junho, foi liderado conjuntamente por Mathias Schmidt, do Instituto Max Planck de Psiquiatria e Juan Pablo Lopez, do Instituto Karolinska.

Como o trauma na infância afeta o cérebro e o corpo?

Tudo começa com o cortisol, o principal hormônio do estresse do organismo. Quando ocorre uma situação estressante, o cortisol é liberado em grande quantidade. Trata-se de uma resposta normal e protetiva do corpo.

Mas tão importante quanto ativar essa resposta é desligá-la. O organismo precisa reconhecer que o perigo passou e reduzir gradualmente o estado de alerta.

Isso ocorre por meio dos receptores de cortisol, estruturas celulares que detectam o hormônio e enviam ao organismo o sinal para encerrar a resposta ao estresse.

Uma proteína chamada FKBP51 controla a sensibilidade desses receptores. Segundo a pesquisa, experiências adversas precoces fazem com que o organismo produza quantidades excessivas dessa proteína.

Como consequência, os receptores tornam-se menos sensíveis, o sinal para interromper a resposta ao estresse não é transmitido adequadamente e o organismo permanece em estado de alerta por mais tempo do que deveria.

Schmidt destaca que esse processo ocorre sem que a pessoa necessariamente perceba. "Sua resposta ao cortisol é algo que você não sente. Você pode acreditar que lida muito bem com o estresse, mas seu organismo está produzindo cortisol, e você não sabe disso."

Um medicamento pode bloquear os efeitos de uma infância difícil?

Os pesquisadores utilizaram um composto chamado SAFit2, que bloqueia a ação da proteína FKBP51. Administrado às mães durante o período de estresse, o composto chegou aos filhotes por meio do leite materno.

Os camundongos tratados passaram a apresentar desempenho social idêntico ao dos animais que nunca haviam sido expostos à adversidade. Em outras palavras, o custo social de um início de vida difícil desapareceu.

O efeito foi observado não apenas no comportamento, mas também no cérebro.

Os pesquisadores analisaram a atividade genética em seis regiões cerebrais relacionadas ao estresse e constataram que as adversidades precoces haviam deixado marcas amplas nesses circuitos.

O medicamento reverteu em grande parte essas alterações, especialmente em duas regiões: o córtex pré-frontal medial e o núcleo accumbens, áreas ligadas ao controle emocional e aos mecanismos de recompensa.

O trauma infantil pode ser revertido?

Não com base nas evidências deste estudo. Na pesquisa conduzida em Munique, o composto foi administrado durante o período de estresse, e não depois dele. Isto é, o trabalho demonstra um efeito preventivo, não reparador.

Outros estudos observaram efeitos comportamentais quando o medicamento foi administrado a animais adultos, mas ainda não foi comprovado que ele seja capaz de reverter completamente traumas já estabelecidos.

Além disso, a prevenção só seria possível se fosse viável identificar indivíduos em risco antes que o dano ocorresse, questão que esta pesquisa não aborda.

O medicamento funcionaria em seres humanos?

Ainda é cedo para saber. O estudo foi realizado apenas com camundongos machos, de modo que não se sabe se os mesmos efeitos ocorreriam em fêmeas.

Além disso, o SAFit2 continua sendo um composto experimental. Embora tenha mostrado resultados promissores em animais, ele ainda não foi desenvolvido nem testado quanto à segurança em seres humanos.

Mesmo assim, Schmidt vê um caminho plausível para aplicações clínicas na próxima década. Segundo ele, os mecanismos biológicos do estresse são "muito, muito semelhantes em animais e humanos".

Como o trauma é tratado hoje?

Os tratamentos atuais para transtornos relacionados ao estresse, incluindo transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depressão associada a traumas, dependem em grande medida dos antidepressivos conhecidos como ISRSs, os inibidores seletivos da recaptação de serotonina.

Esses medicamentos atuam nos sistemas ligados à serotonina. Funcionam para muitos pacientes, mas seu mecanismo de ação ainda não é totalmente compreendido e uma parcela significativa das pessoas não responde ao tratamento.

Segundo Schmidt, atuar sobre a FKBP51 permitiria atacar diretamente a origem biológica do problema.

"Não estaríamos tratando apenas os sintomas, mas também a causa do transtorno ao agir diretamente sobre um mecanismo relacionado ao estresse", afirma. "Medicamentos desse tipo ainda não existem no mercado."

A longo prazo, ele imagina uma abordagem mais direcionada: identificar pessoas geneticamente mais vulneráveis ao estresse, que já apresentem níveis elevados de FKBP51, e tratá-las especificamente após eventos traumáticos agudos.

No outro extremo estão indivíduos que, por fatores genéticos ou experiências prévias, demonstram elevada resiliência mesmo diante de condições extremas e talvez não necessitem de medicação.

Compreender quem realmente precisa desse tipo de intervenção e alcançá-lo a tempo é um dos próximos objetivos da pesquisa.

Quais são os sinais de um trauma não resolvido?

Schmidt ressalta que o trauma se manifesta de forma altamente individual, tanto do ponto de vista psicológico quanto fisiológico. Segundo ele, o principal indicador não é a intensidade da reação, mas sua duração.

Uma resposta intensa ao estresse logo após um acidente de carro ou um episódio de violência é considerada normal. Trata-se do organismo fazendo seu trabalho.

O que preocupa os especialistas é quando essa resposta persiste muito além do esperado: continuar incapaz de atravessar uma rua um mês depois ou sofrer de insônia por várias semanas são exemplos citados por Schmidt.

Esses exemplos não constituem critérios diagnósticos formais, mas ilustram um princípio importante: se a reação ao estresse não diminui com o tempo, é recomendável procurar orientação médica.

Por enquanto, essa continua sendo a principal recomendação prática. Mesmo que um medicamento como o SAFit2 venha a ser desenvolvido, ele ainda está distante.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra