Mata Atlântica avança na regeneração florestal e revela potencial de restauração em larga escala
Boa notícia para um dos biomas mais ameaçados do planeta: a Mata Atlântica volta a crescer após o abandono de atividades agropecuárias ou a adoção de formas mais sustentáveis de uso da terra. Mas esse ainda é um processo muito frágil
A Mata Atlântica ganhou 1,67 milhão de hectares de vegetação nativa entre 2011 e 2021 no Brasil. O dado, revelado em estudo publicado na revista científica Perspectives in Ecology and Conservation, mostra que a regeneração florestal em larga escala já está em curso em um dos biomas mais ameaçados do planeta, reduzido hoje a cerca de 23% de sua cobertura original.
Este levantamento reúne 16 pesquisadores da Força-Tarefa Geoespacial do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica — rede de restauração multi-atores com mais de 370 membros — e sugere que boa parte dessa recuperação ocorreu por meio da regeneração natural. Em muitas áreas, a floresta voltou a crescer após o abandono de atividades agropecuárias intensivas ou a adoção de formas de uso da terra menos degradantes.
O avanço acontece em um momento em que o mundo acelera metas de restauração ambiental. A Década das Nações Unidas para a Restauração de Ecossistemas, iniciada em 2021, estabeleceu a recuperação de áreas degradadas como prioridade global.
Já o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG) prevê restaurar 12 milhões de hectares até 2030, enquanto o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica trabalha com a meta de recuperar 15 milhões de hectares até 2050.
E a regeneração pode acontecer de forma integrada com as atividades econômicas: o crescimento das novas florestas pode estar associado à formação de paisagens produtivas mais sustentáveis, à valorização de práticas tradicionais de manejo e à criação de condições para que conservação e produção rural coexistam.
Regeneração ainda frágil
Ao mesmo tempo, foi possível notar a fragilidade desse processo. Parte das áreas regeneradas voltou a ser desmatada após o início da recuperação, dado que expõe um dos principais desafios da restauração ecológica no Brasil: garantir a permanência das novas florestas.
Esta avaliação reforça a necessidade de políticas públicas voltadas à recuperação ambiental, além de incentivos por programas de pagamento por serviços ambientais, linhas de crédito rural associadas à conservação, assistência técnica e maior segurança jurídica para produtores e comunidades que mantêm a vegetação nativa.
Nosso estudo também observou a necessidade de mudanças na proteção legal das florestas jovens. A Lei da Mata Atlântica proíbe o corte de florestas maduras e de áreas em estágio avançado de regeneração, mas permite a supressão de vegetação em estágios iniciais e intermediários sob determinados critérios técnicos. Essas formações jovens têm papel estratégico na conectividade da paisagem e precisam de maior proteção, sobretudo em um bioma extremamente fragmentado.
Dentre os mecanismos financeiros apontados como fundamentais para promover a restauração, estão os créditos de carbono, de biodiversidade e programas de pagamento por serviços ambientais, que podem tornar a recuperação florestal economicamente viável e incentivar a manutenção das áreas regeneradas no longo prazo.
O monitoramento contínuo da regeneração também aparece como peça central dessa estratégia, através do uso de sensoriamento remoto e bancos de dados espaciais, permitindo acompanhar o crescimento das florestas ao longo do tempo, identificar áreas vulneráveis e medir com mais precisão os resultados das políticas de restauração.
O estudo indica ainda que diferentes regiões da Mata Atlântica exigirão abordagens distintas. Em áreas onde ainda existem fragmentos florestais e condições ambientais favoráveis, a regeneração natural pode acelerar a recuperação do bioma com custos menores.
Já territórios muito degradados, marcados por décadas de uso agrícola intensivo e baixa presença de vegetação nativa, dependem de ações ativas de restauração, como plantio de mudas, controle de espécies invasoras e enriquecimento com espécies nativas desaparecidas localmente.
Conservação fundamental
Também é importante destacar o papel estratégico de territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais na conservação da Mata Atlântica. Nessas áreas, a relação histórica entre população e território contribui para a proteção da biodiversidade e para a preservação de conhecimentos fundamentais ao manejo sustentável da floresta.
Os impactos da restauração ultrapassam a conservação ambiental. A Mata Atlântica abriga nascentes e mananciais que abastecem milhões de pessoas, ajuda na regulação climática e aumenta a resiliência de cidades e áreas rurais diante de eventos extremos, como secas e enchentes.
Após a COP 30, o Brasil aparece em posição estratégica no debate global sobre clima e biodiversidade. Por concentrar a maior área de florestas tropicais do planeta, o país pode transformar experiências de recuperação em referência internacional para restauração ecológica em regiões densamente ocupadas.
Os dados do novo estudo mostram que a regeneração da Mata Atlântica já deixou de ser apenas uma projeção. Ela está acontecendo em larga escala. O desafio agora é impedir que essas florestas desapareçam novamente e transformar a recuperação ambiental em uma política permanente, capaz de combinar conservação, produção sustentável e redução das desigualdades no campo.
Vinicius Tonetti não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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